A dinâmica da riqueza, oh yeah

«A riqueza é dinâmica, é um fluxo variável, pelo que o combate à pobreza, só por miopia, é que que pode concentrar-se apenas na ideia peregrina de que tudo se resolve através de políticas de redistribuição! Há, sobretudo, que criar mais riqueza.» (PMF em Basfémias)

1º Nunca mencionei “políticas de redistribuição”. Por um facto simples: não acredito que algum sistema político actual (e no futuro próximo) se atreva a agir contra os detentores da riqueza. Só uma revolução poderá por fim a esta realidade que liberais capitalistas como jcd e os blasfemos escamoteiam com gráficos e quadros gerais sobre o aumento efectivo da riqueza colectiva: o fosso entre a casta rica, detentora da maior parte da riqueza, e as hordas médias, remediadas e pobres não diminuiu nos últimos 200 anos bem pelo contrário.

2º A riqueza é dinâmica, sim. Basicamente, nos dois últimos séculos os mais ricos ficaram ainda mais ricos enquanto os mais pobres se tornaram um bocadinho menos pobres. Ou seja, a população mundial gerou mais riqueza — mas quem dela mais beneficiou foram os que já detinham riqueza. A progressão não é aritmética, como o liberais querem fazer crer, mas sim logarítmica.

Falando em termos colectivos, «over the past two centuries the world also became a much more unequal place. Economic growth in the industrial core vastly outstripped economic growth at the periphery, so that the gulf between rich and poor worldwide widened to an almost unbelievable extent. The purchasing-power-parity gulf beween per capita income in the United States and in India today is not a factor of two but a factor of twenty. It is not that Indians are poorer than their predecessors of two centuries ago: today in India almost no one dies of famine; there is one television for every four households, and one radio for every two households. But standards of living and levels of material productivity in India have grown only a tenth as fast as standards of living in the developed industrial core.» (J. Bradford DeLong in The World’s Income Distribution: Turning the Corner?, leitura obrigatória para os candidatos a liberais e para marxistas, ex-marxistas, etc.

Ainda em termos colectivos:

«There is an uneven distribution of resources in the world.
• About one-fifth of the world’s people live in the developed countries in the Northern Hemisphere.
• These people use two-thirds of the world’s resources.
(link)

3º Não encontrei data para basear outra convicção resultante da minha análise porque estou cansado do Google e de citações do óbvio, mas passando do geral para o individual temos o mesmo cenário: no capitalismo quem é rico torna-se mais rico do que quem é médio, remediado ou pobre numa proporção absolutamente desigual. Um exemplo de cabeça: numa sociedade capitalista que produza numa década mais 50 unidades do que na década anterior, 45 ficam nas mãos de 5% da respectiva população e 5 são “distribuídos” caritativamente pelos restantes 95%. É este o modelo defendido pelos liberais. Yeah, right, por cada televisão a mais nas casas das classes médias e baixas, por cada barraca demolidada e família que passa a ter um T3 com água canalizada e acesso ao ensino básico, a classe alta somou mais um iate de luxo, outro BMW e a terceira casa de campo com piscina. É este o modelo defendido pelos liberais. Afinal de contas, a riqueza é dinâmica: quem a tem quer ter ainda muito mais, quem a não tem contenta-se em ter um bocadinho mais.

O complexo mundo capitalista consegue escamotear estas irregularidades na distribuição da riqueza produzida pelo colectivo (e vão-se foder os que venham com argumentos tipo os ricos produzem mais que os pobres porque é uma falácia total, a interdependência é absoluta) em grande parte mantendo adormecidas as classes inferiores com as pílulas douradas do costume: fátima, futebol e fado, aqui usados como meros símbolos dos diversos ópios produzidos para entorpecer as massas enquanto as convencem que o consumo de tais ópios (o telemóvel e a roupa de marca, a moda, as férias em manada, os “exemplos” de atletas triunfantes, de VIP que sorriem nas capas da revistas, etc etc etc) as torna em pessoas “ricas” ou no mínimo burguesas.

4º Criar mais riqueza — oh, eis a panaceia do capitalismo para se aguentar nas canetas! Por princípio nada tenho contra criar mais riqueza, caro PMF. Um mundo equilibrado com gente sã, pois claro que o seu objectivo será sempre o da espécie humana: criar mais riqueza, dar novos mundos ao mundo, sair da árvore, crescer, melhorar — até chegar às estrelas, yes.

Mas — caro PMF — eu por mim acho que estava na altura de parármos para reflectir um pouco no modelo de crescimento em vigor, que continua a criar assimetrias gritantes por todo o lado (a guerra em curso contra o terrorismo é consequência de algumas delas) ao mesmo tempo que, em nome do progresso, exaure os recursos do planeta de forma muito pouco inteligente (com o Saber que acumulámos podíamos estar a explorar esses recursos nao só melhor como mais eficientemente) e que condena as gerações vindouras.

Para terminar este amargo texto de sábado à tarde, se quer saber a minha VERDADEIRA opinião, caro JMF, não acredito na capacidade das actuais gerações (sim, começando por mim e por você e acabando em Bush ou Bill Gates, para citar líderes conhecidos) de inverter o processo. Conclusão: prevejo um mundo crescentemente mais difícil e “quente” com problemas de todo o tipo e problemas novos e com cada vez meno harmonia, saúde e felicidade. Parafraseando Pacheco Pereira há uns meses no Abrupto, vamos dar corda aos programas espaciais porque a nossa trágica permanência no planeta Terra tem os dias contados. Só espero que levemos para outro lado as lições aprendidas neste com a deficiência do capitalismo.

  1. 1 Orlando

    Um estudo recente feito em França revelou que a 85% do capital (dinheiro) do País está na mão de pessoas com mais de 55 anos. Pensar que alguma vez, no passado como no futuro, deixará de haver pobres e ricos, estúpida ilusão ou hipócrita assumpção. O que me preocupa é o que os ricos fazem ao dinheiro, isto é, qual a cultura que os move na manipulação do capital.

  2. 2 Michael Oakeshott

    Caro Paulo,
    Você leu bem a referência que cita no 2º ponto do seu post (http://www.j-bradford-delong.net/TotW/world_income_dist.html)? É que ela é o desmentido total das suas teses. Logo no parágrafo a seguir ao que transcreve, lê-se que após 1975, com a adopção de políticas mais liberais, a China e a Ãndia, pela primeira vez em 200 anos, inverteram a “trend” e passaram a convergir com os países mais ricos…
    Citando outro parágrafo: “It is this growth in these two countries–the transformation of China from desperately poor to poor, and the transformation of India from desperately poor to extremely poor–that has for the first time in at least two centuries narrowed the proportional gap between rich and poor. It has for the first time in at least two centuries made the world a more equal place.”
    Cumprimentos.

  3. 3 Jorge

    Quer num país quer no outro, houve uma industrialização rápida que levou ao enriquecimento brutal de uma camada já privilegiada da população (basicamente, membros do Partido na China e membros das famílias das castas superiores na Índia) que beneficiaram da exploração de trabalho praticamente escravo e desumano, incluindo trabalho infantil em grande escala, e da desregulação do comércio mundial por via da OMC.

    A realidade é que o fosso ricos-pobres entre os países, globalmente considerados, e os do primeiro mundo diminuiu, mas o fosso interno entre ricos e pobres no interior de cada um dos países aumentou brutalmente, para níveis nunca antes vistos.

    Uau! Mas que grande vitória do liberalismo, essa!

    (Anyway, what’s the point? Eles estão-se cagando. Se acorrentar 2/3 da população mundial a trabalho debaixo de chicote e pago com um papo-seco e um litro de água por dia lhes aumentasse os queridos índices económicos, eles aplaudiriam a sábia medida com entusiasmo.)

  4. 4 pTd

    Caro Michael: não há desmentido algum, bem pelo contrário. Cuidado com o uso da palavra convergência. se acha que passar de desesperadamente pobre para extremamente pobre é convergir… Olhe, vou-me calar.

    Por outro lado o autor deixa claro que, como JMF tinha observado no Blasfémias, a riqueza é dinâmica. Um quarto de século em dois séculos é apenas isso, uma trend e não uma mudança de fundo.

    Leia o Michael melhor o estudo e tb os meus textos.

    Caro Jorge: porque dizem que se preocupam com a liberdade e com os “pobres” os liberais acham-se melhores que a direita capitalista e a esquerda comunista. Ao longo destes dias tenho descoberto que o liberalismo é apenas mais uma face do capitalismo. E nem é uma face particularmente bonita.

  5. 5 jpt

    bela discussão. já agora, há por aí uns tipos que não vivem melhor do que há cem anos. para que não se chame a isto miserabilismo demagógico só me estou a referir a esperança de vida (ainda que os dados não recuem tanto tempo pode-se projectar por via de história oral) e consumo alimentar. “ajunte-se-lhe” depradação ambiental e futura utilização de recursos e ai,ai. Ai, ai, os ismos, já agora.

  1. 1 ENE COISAS
publicidade
Neste momento, a actualidade nacional numa única página
Mercado das Previsõeso jogo da sabedoria das multidões


Editado sobretudo com Wordpress
Desenho de página: trabalho TubarâoEsquilo
derivado do original 3K2Redux klein
Validar XHTML, CSS.
Topo