São os bovinos, estúpido!

«Nos países ocidentais os índices do HDI não param de subir. O que é que vês de estranho nos índices?» (jcd em comentário à entrada É the kultura, estúpid).

Não percebo. jcd, não vês nada de errado na tua frase? Se esses índices de suposto bem estar só sobem de um lado então não fazem mais do que agravar um desiquilíbrio que tem cinco séculos. O teu bem estar é adquirido à custa do bem estar de alguem noutro lado. A felicidade é mais que o nome de um boneco da Mafalda desenhado por Quino. A liberdade é mais que um pretexto para um bando de iluminados enganar e explorar as maiorias alheias. E quanto a ser o factor mais decisivo na produção de bens culturais deixa-me dizer duas coisas: a melhor literatura portuguesa do século XX, a melhor literatura russa do século XX e a melhor música brasileira do século XX (para citar somente três exemplos) foram produzidas quando esses países viviam em ditaduras, primeira coisa; segunda, a cultura é mais do que um “bem cultural” e, como a felicidade, não é mensurável em índices, que mais não fazem do que expor o ideário e os objectivos de quem os elaborou, de quem escolheu que vectores e trends contam e de dados são desprezíveis. (googla que vais encontrar um relatório a contrapor exactamente os dados desse, vai uma aposta? Eu hoje é sexta, não me apetece.)

(Para os epidérmicos cavalheiros que quiserem reagir intempestivamente à ideia de que é em cativeiro que se produz obra de nível: pensem duas vezes, leiam duas vezes, não foi isso que eu escrevi, não caiam na típica esparrela blogueira da tresleitura.)

A propósito do mesmo texto João Miranda publicou n’A Blasfémia o post Algumas contribuições da revolução russa para a cultura dedicado à minha pessoa. Um tal de AAA acha que eu tenho cegueira ideológica.

Não sei se ria se chore… Mas devo desmontar a bomba que eles prepararam.

«Sobre o bem que o comunismo faz à literatura» é como João Miranda começa insidiosamente o post que em boa hora me dedicou. Subliminarmente deixa nos leitores dele (como se prova com o comentário de AAA, que manifestamente não leu ou leu atravessado o meu texto) a certeza de que eu escrevi ou defendi que o comunismo faz bem à literatura, o que é desonestidade intelectual (e passei a perceber melhor as queixas da malta de esquerda) e abuso da mentira.

Sendo a blasfémia a melhor defesa contra o estado geral de bovinidade, deixem-me blasfemar contra jcd e João Miranda que andam manifestamente bovinos em relação ao capitalismo: ingenuamente eu julgava que o liberalismo era mais do que um garruço para esconder o porco capitalista selvagem típico, jcd obrigado por me teres esclarecido do contrário; eu julgava que a discussão ia mais longe do que “se não és pelo capitalismo és comunista”, portanto obrigado João por me teres tão brilhantemente elucidado através do maniqueísmo mais básico que a Humanidade já conheceu. Podem convencer a papa mole dos cérebros dos vossos leitores e outros basbaques em geral que não distinguem Pasternak de manteiga pasteurizada, de que a vossa escrita não passa de uma falácia. Têm se fazer melhor do que isso, porém, se me querem convencer a mim.

  1. 1 André

    Pois!

  2. 2 A. Santos

    Eu costumava ler a sua coluna no Expresso. Era relativamente inócua mas sempre dizia algo sobre o ponto de situação da Informática.
    Agora venho decobrir estes disparates num blogue que não conhecia.
    Agradeço ao JCD, ao João Miranda e também ao AAA cujos blogues vou lendo com gosto e proveito por me terem chamado a atenção para a existência de algo tão anacrónico como “O vento lá fora”
    Já agora obrigado pela “papa mole” do meu cérebro. Felizmente não está empedernido como o seu.

  3. 3 pTd

    Caro A. Santos: se quer confundir o Paulo Querido jornalista com o Paulo Querido autor de um blogue, está no seu direito. Mas eu considero isso errado. Pode não respeitar os meus disparates escritos livremente num blogue, como qualquer outro autor. Mas por causa deles desconsiderar o meu trabalho profissional não me parece correcto. É consigo.

    Por outro lado, como blogger preferia que se pronunciasse depois de ler mais de (o vento lá fora)* do que apenas esta troca de galhardetes. Sou um bocado mais eclético do que isso. Mas mais uma vez é consigo: aparentemente, o seu cérebro está mais empedernido do que o meu.

    Um cordial abraço

  4. 4 zt

    Camarada, companheiro, essas coisas: não creio que o jcd escreva para te convencer a ti ou a mim. O jcd escreve para convencer os papalvos que nem sequer precisam dos seus textos para serem convencidos, apesar do que recentemente disse sobre as maiorias, a propósito da Venezuela. Sabe lá ele o que é ser venezueleano na Venezuela, se mal saberá o que é ser português em Portugal… Não passa de um privilegiado que se está nas tintas para quem não o é e para saber o que é não o ser. Apesar de tudo, só lhe desejo que nunca precise da verdadeira solidariedade, porque, então, provavelmente não irá encontrá-la.
    Na minha blogroll, sempre fiz questão de manter gente de direita e de esquerda, por considerar que ambas as correntes têm coisas aproveitáveis porque positivas. Para mim, vale tanto uma opinião de direita com uma de esquerda, desde que honestas.
    A esquerda defende a igualdade — e isto é muito discutível. A direita defende a liberdade — e isto também é muito discutível. Eu acho que não é possível ter uma sem a outra — e isso parece-me óbvio.
    Até aqui sempre tomei o jcd por pessoa inteligente, que até tinha umas observações pertinentes e, por vezes, com alguma piada. Agora levantaram-se-me umas quantas dúvidas a esse respeito. E, se o for (inteligente), então esse facto ainda torna as coisas piores, porque passará a ser intelectualmente desonesto — raça que para mim é abominável, seja à esquerda ou à direita. Assim, acho que irei remover a ligação que no meu blogue tenho para o seu. Não que isso o incomode, mas eu é que não quero dar cobertura, e voz, a gente assim. É a censura, é o que é — diria ele. Falaciosamente, claro.

  5. 5 re21

    He!he!he!,um Ptd em grande forma,confirmo a minha presença nas datas já disponibilizadas por mim no O.N. ,só para uma troca de palavras,apesar do meu baixo HDI,he!he!he!,ó malta ,isto são blogs!,somos nós a falar e com a pachorra de escrever as nossas palavras faladas,percebem?.

  6. 6 jcd

    “Assim, acho que irei remover a ligação que no meu blogue tenho para o seu. Não que isso o incomode, mas eu é que não quero dar cobertura, e voz, a gente assim. É a censura, é o que é — diria ele.”

    Pôr e tirar um link num blogue privado é um acto perfeitamente liberal. Força nisso, rapaz.

    “Se esses índices de suposto bem estar só sobem de um lado então não fazem mais do que agravar um desiquilíbrio que tem cinco séculos.”

    Errado Paulo. Podes comparar por exemplo China e Taiwan (iguais hà 55 anos), Coreia do Norte e Coreia do Sul (iguais há 40 anos), Cuba e Chile (semelhantes antes de Fidel). Há países do terceiro mundo que souberam reduzir fortemente os desequilibrios e aproximar-se dos países mais ricos. Vê lá se descobres porquê.

    “O teu bem estar é adquirido à custa do bem estar de alguem noutro lado.”

    Falso, se a economia fosse um jogo de soma nula, não haveria mercados.
    http://ablasfemia.blogspot.com/2004/08/complexos-de-culpa.html

    “A liberdade é mais que um pretexto para um bando de iluminados enganar e explorar as maiorias alheias.”

    Verdade. Por isso não há nada que me custe mais ouvir que a palavra liberdade na voz de um ditador.

    “ingenuamente eu julgava que o liberalismo era mais do que um garruço para esconder o porco capitalista selvagem típico”

    Ó Paulo, tens que clarificar um bocado esses conceitos. Andas um pouco perdido.

    Saudações liberais
    j.

  7. 7 pTd

    Há países do terceiro mundo que souberam reduzir fortemente os desequilibrios e aproximar-se dos países mais ricos.

    Aproximar-se? Fundamenta lá isso. Os ricos cresceram MUITO MAIS nesse período pelo que o intervalo aumentou. Aproximaram-se dos ricos de há 50 anos, apenas…

    E os meus conceitos são claros: isso era uma provocaçãozita, homem! O humor — bem se tem esforçado, mas o capitalismo ainda não consegur taxar o humor.

    Um abraço verde (começámos o campeonato há minutos)

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