Who da fuck cares?

A propósito da chamada de atenção de JPT sobre o Blogger e os blogues alojados no Blogspot, que foram menos lidos na semana passada, esclareci nos comentários do Ma-Schamba e publico aqui também, em versão aumentada, umas palavras sobre o assunto. Tão aumentada que tendes de abrir a continuação para ler pois não vou dar seca aos leitores que não se interessem. Mas sempre adianto: tem molho quanto baste, mete a PT e a Netcabo ao barulho e faz alguma luz sobre o elevado (foda-se!) preço da internet em Portugal e fica ainda a saber porque é que o weblog.com.pt continuou a ser visto pelos clientes da Netcabo e porque é que se fosse com o Sapo estavamos todos fritos. Pessoal, convém informar: para os finos dos “sapos” o weblog.com.pt é internacional, para os outros é nacional.

Os blogues do Blogspot estiveram durante alguns períodos da semana passada invisíveis a uma parte substancial dos clientes da Netcabo. Primeiro, os leitores acharam que era, outra vez, um problema do serviço do Blogger, que pertence como se sabe ao Google. Mas como uns viam e outros não depressa se descobriu que afinal era um problema de um fornecedor de acesso, ou ISP. Desta vez a Netcabo.

Já algumas vezes chamei a atenção para o facto de alguns dos “bloqueios” do Blogger serem atribuíveis não ao Blogger propriamente dito mas a ISP (fornecedores de acesso) portugueses cujas políticas de tráfego deixam muito a desejar, sob todos os aspectos. Tanto comercialmente como tecnicamente — e estou à vontade para o dizer.

O que é responsabildade do Blogger, sim, são (ou eram, pois há meses que não tenho notícia de um caso) as episódicas malformações dos blogues noutras línguas que não o Inglês. Isso e os normais acidentes de percurso aqui e ali, que nenhum serviço na Internet está livre de os ter.

Não, a Netcabo não embirrou com os bloggers nem colocou o Blogspot de castigo ;) Durante largos períodos da semana passada não conseguia sequer ir ao Google… Houve um dia, penso que a passada sexta, 22, que o acesso era de todo impossível. Pelo menos na zona onde me encontrava (não é legítimo aferir que todos os clientes da Netcabo eram afectados). Tenho privilégios raros e bastou-me usar um deles para, passados 45 segundos de irritação, estar a ver o Google e o Blogger usando a Netcabo. O privilégio em questão chama-se VPN (Virtual Private Network) e só não a estendo liberalmente a toda a gente porque pago o tráfego do sol.querido.org (assim se chama há anos o servidor familiar) e os 600 Gigabytes mensais (assobio!) que o weblog.com.pt consome desaconselham que abra (mais) um recurso ;)
Com o conforto da VPN pude continuar a trabalhar. Como explico? Uma VPN é como andar nas autoestradas guiado por um mapa independente em Inglês em vez do oficial mapa em Português. O chão é o mesmo mas quem nos diz onde se vira para Beja não são os sinais e setas da Brisa, que é como se estivessem fundidos, mas sim outra codificação de caminhos. (Claro: também não se liga pêvas ao limite de velocidade imposto pelo senhor da portagem com as caralhadas dos proxies e similares, é pát-á-fundo e o que a máquina e a estrada permitirem).

[ Divagação: os técnicos vão dar pulos com a comparação, mas que se foda, não é a eles que ‘tou a explicar a cena. Se algum comentar juro que não respondo. ]

Como se elucida com o pormenor do Google (e sei que havia mais sites inacessíveis) no caso vertente terá sido algum problema técnico pontual da rede Netcabo. Um router que se fina é quanto basta. Até uma placa de rede defeituosa podia ter gerado o problema. As máquinas às vezes avariam. E há máquinas que não se substituem assim tão depressa. Se uma placa arreia, por exemplo, pode demorar horas até se perceber que é da placa ;) e percebe-se depois de ter corrido a maquinaria toda a pontapé e nenhuma ter fraquejado e alguem diz eureka! e começa a olhar para os leds lá atrás.

Seja o que for que tenha acontecido, aconteceu numa das máquinas responsáveis pelas (ou por parte das) ligações internacionais da Netcabo.

Fechado o assunto Blogger/Netcabo, inspirados por ele vamos por aí adiante discorrer sobre isto dos caminhos para os sites. Ataco o tema porque se a ocorrência tivesse sucedido no Sapo em vez de na Netcabo o weblog.com.pt teria sofrido bastante. Ora vamos a isto.

Os preços do acesso em Portugal são mantidos altos por força da política do operador incumbente, que como todos sabem é controlado pelo Estado português e, menos saberão, regulado pela entidade reguladora do sector, a ANACOM. Os operadores mais talentosos conseguem margens apenas se recorrerem a acordos especiais, como é o caso do peering.

O peering é praticado em toda o mundo, Portugal incluído. Sinteticamente resume-se nisto: um ponto neutro onde se entrecruzam as redes dos diferentes operadores aderentes. Quem não conheça a arquitectura da Internet não pode avaliar a importância destes pontos neutros. Mas todos os internautas portugueses (e quase nenhum dos internautas americanos e europeus) sabem que o tráfego internacional lhes custa um preço diferente do tráfego nacional.

[ Divagação: esta diferenciação é incompreensível, alienígena mesmo, para os americanos. Quando lhes tentamos explicar ficam a olhar-nos com ar desconfiado… Se houve momentos em que tive vergonha de dizer que sou português, foram esses. Aquela coisa do Terceiro Mundo e tal… Nem queria acreditar. Tristeza. Fim de divagação. ]

Um caso prático e real. Comprovável pelos leitores. Basta efectuar um traceroute para averiguar se determinada ligação conta como tráfego nacional ou internacional. Assim, graças à política (ou à inércia? ainda não percebi, juro) da Portugal Telecom quando um terço dos leitores dos blogues alojados no weblog.com.pt os lê está a consumir tráfego internacional. Para os outros dois terços (grosso modo) o weblog.com.pt é tráfego nacional.

Aos clientes da rede Sapo (ADSL e dial-up) as páginas do weblog.com.pt e seus blogues passam por Londres (geralmente) antes de chegarem aos seus computadores. Entre o PC do cliente e o servidor as páginas passam por 13 a 15 pontos intermédios, saindo de Portugal geralmente ao quarto ponto (ou hop) pela NFSI, entrando em Londres (99% das vezes) nos servidores da Marconi dos quais são chutados para os servidores também da Marconi em Portugal para finalmente serem entregues ao Sapo e deste ao seu cliente.

Parece complicado, além de estúpido ou inútil. Eu sei. Mas é verdade. Demora mais tempo a ler do que a acontecer: tipicamente o intervalo de tempo entre o PC cliente e o weblog.com.pt é contado em décimos de segundo.

Já aos clientes da Netcabo as páginas são entregues depois de percorridos sete (7, sim) hops. Ao terceiro hop está na máquina de peering de saída da Netcabo, ao quarto entra na máquina de peering da NFSI (nosso honrado e muito prestimoso hospedeiro, batam-lhe palmas que é ele que sustenta os nossos 600 GB…) e o sétimo hop é o servidor do weblog.com.pt, 81.92.196.148 para os íntimos ;).

A questão não é tanto de velocidade. O ganho mede-se em centésimos de segundo e a olho nú é invisível. Claro, em uso intensivo ou em situações de congestionamento dos circuitos internacionais, ou das máquinas da Marconi em Londres, o caldo pode entornar para a casa dos décimos de segundo e aí fia mais fino.

A questão é económica. Londres é fixe para ir de férias, mas em podendo evitar tal desvio só para ir de Lisboa a Leiria… Ya, claro.

Os restantes operadores fazem (quase todos: confesso que não me actualizo há meses) o mesmo, e o que é sensato: trocam o tráfego no PIX (é como se chama o ponto neutro) evitando assim a voltinha dos tristes a meio continente que a PT tanto gosta de dar aos seus clientes por razões puramente comerciais — e não, não é para os bits sacarem carimbos no passaporte em Madrid e Paris. Essa puta dessa voltinha fica cara. Desde logo ao operador. Que faz reflectir o preço nos seus clientes, está bem de ver. Se pode ser evitada… evita-se, não? É melhor para todos. Lógico. Irrefutavelmente lógico. Excepto para um ISP. Adivinharam: o incumbente.

Numa frase: quem quer peering com a PT é forçado a alugar circuitos pagos a peso de… não, nem é de ouro, é de PT :( E é para quem quer.

Verdade seja dita que quem não quer encolhe os ombros. Sobretudo quando é mais exportador de tráfego (caso da NFSI e do weblog.com.pt que só à sua conta exporta mensalmente +- 200 GB para o Sapo não importando sequer 1/15 avos disso, números por grosso) do que importador. Quem paga a conta final não é ele. É o cliente da PT. Que esta cobre aos seus clientes lo preço da sua própria arrogância comercial… pois é assunto entre ela e os seus clientes. Desde que as acções não caiam e os accionistas estejam contentes com as contas, who da fuck cares? Eu não. Só publico porque acho que é de bom tom informar melhor os meus leitores. Tenho a minha dignidade e sou dos que acredita que vivemos num país democrático e com liberdade de expressão garantida.

Por favor encaminhem as perguntas óbvias para a Portugal Telecom.

O que está escrito pode ser comprovado. Basta abrir uma janela de DOS (em XP: Start -> Run -> digitar cmd e premir o botão OK) e teclar: tracert weblog.com.pt ENTER. Surgirão no ecran preto os passos hops e respectivos tempos intermédios em milissegundos.

Se utilizadores de diferentes redes fizerem o mesmo e trocarem os resultados terão a confirmação prática, bem visível, disto.

Há cerca de dois anos cosegui influenciar as decisões de alto nível na Netcabo para, torneando a política interna do grupo PT, fazerem peering com o nosso excelso alojador, a NFSI. Na altura nem sonhava com blogues, é bom que se diga. Fi-lo enquanto consultor e porque era a pessoa que, conhecendo os dois interessados, podia estabelecer o necessário diálogo. Aconteceu também porque a Netcabo desejava cortar custos e de alguma forma demonstrar a sua própria habilidade comercial e técnica dentro do grupo, bem como obter alguma autonomia. O custo da banda internacional é elevado. MUITO mais elevado do que o do tráfego nacional.

A atitude sensata e inteligente e seguida em todo o mundo é a de fazer o máximo de peering com toda a gente. Se as contas pudessem ser feitas assim, um holandês (ou um português na Holanda) pagaria bastante menos para ler os *.weblog.com.pt do que o cliente do Sapo. A NFSI tem peering até com operadores de Espanha, UK e Holanda e sei lá eu mais quem. Em resultado disso o tráfego internacional sai-lhe mais barato. (Gostava de contar uma história interessante sobre o parasitismo do peeering alheio, a propósito disto, mas já vamos longos neste post, fica para a próxima. Digo apenas que aconselhei e aconselho veementemente a NFSI a manter garbosamente as rotas de/para a PT através do estrangeiro.)

Repito: por favor encaminhem as perguntas óbvias para a Portugal Telecom. Não respondo ao que não sei.

Aproveito para vos informar que o weblog.com.pt e a pauloquerido.com não dependem nem num único circuito, router, whatever da infraestrutura da PT. Nem um led, zero, nientes, rien. Se a PT desaparecesse num ápice o weblog.com.pt nem notaria e todos os restantes operadores — desde que não fossem dependentes exclusivos da PT, claro — continuariam a poder aceder-me(-nos) na boa. Perdão, rectifico: na maior.

Sendo franco e antes que os insultos chovam: para mim é um orgulho dizer isto. Não porque algo me mova contra a empresa, longe disso (já agora: tenho bons amigos na PT). Faz o que entende que lhe compete fazer. Se o faz bem ou mal, não sou eu o juiz: são os clientes e os accionistas. O orgulho está noutros lados. Na independência face ao operador incumbente. Na solução alheia a uma empresa da qual prefiro, se puder e o Estado me deixar, não ser cliente (direito que me assiste) ponto final parágrafo.

PS: há ano e meio sonhei ser operador. Pequenino. Um pacote ADSL como deve ser, tráfego LIMPO, sem divisões entre nacional e internacional, para 100 a 200 clientes/amigos que quisessem ter uma Internet hámaneirovski. Há uma única razão para não ter avançado. Chama-se política para o lacete local e noutra altura poderei explicar, ou outra pessoa o fará melhor que eu, o caralho do imbróglio em que a Anacom (ex-ICP) tem mantido o acesso de banda larga neste país com pesados custos directos para o bolso do consumidor e não menos pesados custos políticos (a fraca taxa de penetração da Internet que apresentamos à Europa) para sucessivos governos. Mas — lá está — a Anacom é o Governo, que por sua vez é a PT, que por sua vez é a Anacom. Percebem? Eu também não.

  1. 1 jpt

    confesso um, até imerecido, orgulho por ser citado, até invocado, numa peça deste calibre (que me ultrapassa). A qual vem reforçar o sentido dessa minha chamada de atenção: o elogio ao “capitalismo patriótico” do Querido Lider. (e do LEne)

  2. 2 morphi

    Paulo,

    Só tenho um comentário a fazer. Obrigado por esta excelente explicação.

  3. 3 Driller

    Muito bem.
    Mas enquanto a Anacom anda neste momento às voltas com a problemática do lançamento da ADSL a 1Mbps, em França foi lançado o ADSL 2+ com velocidades até 15Mbps ao preço de €29,99 por mês. Dá que pensar.

    Pode ler-se essa informação neste endereço http://driller.blogs.com/thedrillingholes/2004/10/de_um_lado_do_o.html

  4. 4 sharkinho

    Depois disto, começo a sentir-me estúpido por estar fora do weblog.com.pt…

  5. 5 ognid

    Segui o conselho. Fiz traceroute… 11, repito 11 com passagem por Paris e Amesterdão (esqueceram-se de Londres)… dassse. Sapo ADSL.

  6. 6 Vi

    Senhor Paulo, só uma correcçãozinha: se não estou em erro o Clix ADSL não faz diferença entre o tráfego nacional e o internacional - pelo menos é o que diz aqui: http://acesso.clix.pt/turbo/caracteristicas.html

  7. 7 Jazzy

    Grande artigo!
    O srs. da PT deviam ler isto COM TODA A ATENÇÃO. E depois pensarem…

  8. 8 zone41

    11 passagens tambem com o SapoADSL, com visitas a Paris e a Amsterdao.

    Welcome to Portugal

  9. 9 Mário

    Yeah, eu também gostava de ter uma internet cmo deve ser (rápida e sem ser roubado!)

  10. 10 pTd

    Caro Jazzy: os senhores da PT sabem isto e muito, mas mesmo muito mais que isto ;) Os accionistas não querem saber de nada excepto do preço das acções e eu não lhes levo a mal. Agora os clientes…

    Caro ognid (e zone41): nem sempre as rotas são iguais, depende de muitos factores. Por isso tive o cuidado de escrever “geralmente” passam por Londres. Nem sempre.

    Cara Vi: o Clix começou por diferenciar tráfego, penso eu, e depois deixou de o fazer. Ou talvez nunca tenha diferenciado? Sinceramente, a minha memória para certos detalhes é fraca. Seja como for, ainda bem para os clientes do Clix :D
    Caro Driller: nem mais…

  11. 11 Golfinho

    pTd, desculpa esta publicidade, mas recomendava a leitura aos teus leitores, e a todos que passasem por aqui, porque todos somos consumidores, do artigo “dois em um fica mais barato” do último número da proteste referente precisamente a este tema em que após analisarem os ISP`S existentes em PT aconselham os cybernautas acerca da melhor escolha, da escolha acertada, e não vai muito longe do que escreves aí ;)

  12. 12 Kmos

    Viva,

    O que dizes neste blog é a mais pura verdade. Já tinha falado disto com o Nuno da NFSi e inclusivé já reclamei para a PT e claro tive uma resposta completamente estúpida. É por tudo isto e como disses-te que pagamos uma factura muito grande para podermos ter 24 horas de internet em casa. Vamos lá ver se quando acabar o meu último contracto de 1 ano com o SAPO, não os mando dar uma voltinha (sabem muito bem até onde).

  13. 13 Eduardo Luís

    Eu conesgui, apenas 4 hops….
    Heheheh, estou ligado à Pluricanal que por sua vez está ligada à NFSI.
    :-p

  14. 14 wilson

    é pa… tou sem palavras

    realmente ja sabia que a PT tem o monopolia das comunicacoes em portugal, mas tanto….

    quem quiser adsl sem limites trafego nacional ou internacional visite
    http://www.tvtel.pt

  1. 1 FUMAÇAS
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