Os falsos caridosos da Justiça

Expressei aqui a minha perplexidade por se chamar de caso de censura ao episódio Caldeira. Repetindo que nada me move contra António Balbino Caldeira nem contra o seu blogue Do Portugal Profundo, não posso deixar de aproveitar o assunto para tentar fazer alguma pedagogia.

1º Cachucho escreveu um post particularmente lúcido sobre o que é realmente a censura. O blogue de Caldeira continua no ar (logo não foi censurado — nem o blogue nem o autor) mas na universidade onde Caldeira é professor um blogue foi censurado. Leiam aqui.

2º Na sua escrita um tanto arrogante Caldeira foi longe demais este fim de semana. No sábado escrevia: «De luto. Eu e vocês. Luto pelo País e pela democracia. O País amordaçado pela grossa rede pedófila e a democracia estrangulada pela gravata sistémica.». Mais à frente: «Lá estivemos ontem no tribunal. Todos: vocês dentro da minha pele».

Eu não estou de luto. O país não está propriamente amordaçado pela grossa rede pedófila. Prova: eu continuo a escrever livremente sobre o que me apetece, Balbino idem aspas.

Eu não estive no tribunal. Nem fisica nem metaforicamente. Quem esteve no tribunal foi exclusivamente Caldeira.

É feio e triste tentar colar o caso Caldeira ao caso Pombal (um blogue que desapareceu e uma pessoa despedida), como o fez a blogsfera mais apressada e a blogosfera mal intencionada. Os dois casos nada têm em comum.

Fico agora à espera que, por causa de escrever isto, venham os defensores de Caldeira acusar-me de integrar o payroll das “redes pedófilas” e das “máfias”. Naquelas cabecitas estalinistas fazem todo o sentido acusações falsas e tiradas deturpadas, desde que sirvam os seus interesses privados. Já dei para os beneméritos que acham que lhes basta dizer «escrevo em nome do País e da democracia» para que a rapaziada se ajoelhe a seus pés. Se a Caldeira move «a necessidade de limpeza do Estado desta rede pedófila» a mim move-me contribuir para uma informação o mais desintoxicada possível, lúcida e objectiva.

Objectivamente sabemos que ele pode eventualmente incorrer no crime de desobediência — o que presupõe… desrespeito por uma ordem legítima de alguma autoridade judicial. Qual, nem Caldeira nem os seus defensores ou detractores foram ainda capazes de elucidar as crédulas massas.

Tenho muita dificuldade em aceitar que o facto de um tribunal o querer ouvir possa ser encarado como uma «tentativa de intimidação e limitação da liberdade de expressão».

Sorrio de tristeza perante gloriosas tiradas como esta: «Enquanto eu puder, no cumprimento da lei, continuarei a falar do que acho importante». Saída da mesma boca que acusou a lei de o tentar intimar e limitar-lhe a liberdade de expressão… Só há uma leitura a fazer: achamos que a justiça vai mal e como tal não perdemos uma ocasião de lhe pôr o pé em cima.

Fixe. Eu salto desse comboio. Não é por aí, caro Caldeira, que vai atingir os seus nobres objectivos. O seu comportamento nesta matéria é exactamente igual ao comportamento da “rede pedófila” que tenta denegrir a Justiça e inquinar o processo Casa Pia.

(Nota final: como sou uma alma bondosa acho que a motivação de Caldeira radica exclusivamente na vaidade pessoal, na ânsia de protagonismo. Como sabem há por aí almas menos bondosas.)

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