Das falácias II: a campanha exemplar de Socrates
publicado 18 Fevereiro 2005 em Sem categoria.Ao contrário de praticamente todos os analistas e “analistas” políticos, penso que Sócrates fez uma campanha muito boa, quase sem erros. Começo por estes. Foram dois.
Um: relevar tanto o seu agradecimento a Guterres e respectivos ministros de má memória. Que fique claro: o erro consistiu em dar tanto relevo, não propriamente no gesto. A gratidão é um valor. Sócrates agradeceu-lhes — e acho iso positivo, revela que o homem tem consideração pelo camaradas de luta, no caso num Governo difícil. Aos meus olho ganhou pontos. Podia era ter sido mais discreto.
Dois: Lúcia. Ajoelhar perante o pior caciquismo católico do país, o emanado de Paulo Portas e dos políticos beatos e não, como seria normal esperar, do aparelho da igreja, foi um erro imperdoável. Não conheço nenhum católico das bases que, por muito respeito que tenha (tido) pela defunta, ache bem parar o processo eleitoral por causa da morte de uma freira.
Vamos ao lado positivo. O pelotão dos analistas, com a camisola amarela a mudar de José Manuel Fernandes para Bettencourt Resendes para Miguel Sousa Tavares, critica a campanha por a) Sócrates não ter explicado o que irá fazer, a.1) caso ganhe com maioria absoluta, a.2) caso não ganhe com maioria absoluta, b) não ter feito promessas, c) não ter legitimidade para PM por ser desconhecido dos eleitores.
[ Foi por esta altura que fiquei praticamente convencido, a despeito das sondagens darem ainda tanta incerteza, que a maioria absoluta está quase no papo: as opiniões dos analistas são tiradas a papel químico da primeira maioria absoluta de Cavaco Silva, que nada explicou, nada prometeu e era desconhecido dos eleitores. Bom prenúncio, portanto. ]
Começo pelo ponto c), falácia #2. À notória excepção de Jorge Sampaio, que se candidatou a PR depois de ter feito obra (enfim…) na câmara mais visível do país, não recordo nenhum outro PM ou PR que fosse eleito com base em obra feita ou conhecimento dos eleitores (é nesse sentido do conhecimento pelas experiências anteriores que falam os analistas, não é de certeza pelo conhecimento mediático, pois dificilmente se arranjavam dois candidatos mais conhecidos dos púlpitos mediáticos que Sócrates e Lopes). Quem eram Guterres?, Cavaco?, sei lá, quem era o próprio Soares (para PM, para PR é outra loiça)? E Barroso? Ex-ministros mais ou menos visíveis, menos ou mais apagados. Sócrates também.
Outra falácia: não é por se explicar o que se vai fazer que se ganham eleições, é por se cativar o eleitorado e o convencer de que se está à altura da tarefa. Ou por se conseguir passar uma mensagem de renovação. Sem paixão consegue-se compreender: a história da democracia, na Europa mais que nos EUA, passa por aí, não passa por programas bem delineados e melhor explicados às massas ululantes.
Atalhando, que era capaz de passar a tarde a desmontar a argumentação dos analistas, à excepção de Vasco Pulido Valente (vénia profunda ao Grande Mestre Que Não Papa Grupos E Muito Menos Os Grupos Do Mediatismo Mais Bacoco Que É O Auto-convencimento Dos Analistas Camisola-Amarela). José Sócrates foi aos livros e seguiu a única estratégia de campanha eleitoral que já deu provas, neste país, de poder levar um partido à maioria absoluta. Abriu a cartilha de Cavaco Silva e inspirou-se. Até nos tiques de arrogância, de comando. Estes colhem: o eleitorado médio português (ainda) é sensível ao discurso com laivos de ditatorial. Talvez confunda tais laivos com “pulso firme” e com capacidade, não sei — nem importa no caso. O caso é este: José Sócrates jogou as suas cartas muito bem, não indo atrás das elites da opinião mas sim movendo-se na teia psicológica das massas eleitoras. Perante isto, se o PS não ganhar com maioria absoluta, foda-se, como o meu chapéu.


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