Só gosto do que é importado

A Pope andava abespinhada desde que umas colegas lhe tinham dito que o Amigo andava nos chats com uns coiros do Porto. Quando o apanhou a jeito, estava ele a limpar a agulha do decrépito pick-up, disparou:
- Querido, tem ouvido MPP?
- Rica, eu oiço mp3 todos os dias. Que quer em concreto?
- Não se faça parvo, fofo - disse a Pope julgando que ele estava a lançar a bola para canto.
- Não a percebo, Pope, você anda muito estranha. Que música quer em mp3? Saco-lhe isso da Kazaa em três tempos, agora que temos o ADSL de 8 MB do Clix.
- Não é isso, querido. Eu perguntei se tem ouvido MPP. Música Popular
Portuguesa. Ultimamente vejo-o muito, digamos, versado em pronúncias do Norte…
O Amigo continuava sem perceber, mas o seu sexto sentido alertou-o de que algo andava no ar.
- Pope, você sabe que eu odeio essas parolices dos sotaques lá de xima…
Vencida, a Pope decidiu deixar cair a conversa. Voltaria noutra altura, a abordagem tinha sido manifestamente errada. Voltou as costas ao Amigo. Mas este subitamente lembrou-se de uma conversa semelhante há uns meses e decidiu cortar o mal pela raiz.
- Pope, você anda outra vez a dar ouvidos à Carla! Sabe que eu só gosto do que é importado… — disse, evocando com carinho a ascendência dela, rodeando-lhe a cintura com o braço esquerdo e pespegando-lhe um chocho por baixo do ouvido.

{ GNR, in Que Importa?, album Rock in Rio }

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