Respostas a comentários, que achei dignas de promoção a post editado.

Caro Fernando: como escreveu KC, o problema da alta sinistralidade reside no comportamento incivilizado (para não dizer troglodítico) do condutor português. Este novo código nada poderá alterar nos comportamentos porque, como refere, sem fiscalização continuará o típico condutor “tuga” a transgredir com a brutalidade do costume.

A minha peça (aqui) não está contra o agravamento da legislação, que considero bem vindo. Limito-me a predizer o óbvio: sozinha, a medida de nada serve excepto às autoridades, que vêm uma das suas acções - a colecta - facilitada. Mesmo a estas, as autoridades, o novo código não traz outros meios necessários para controlar a sinistralidade. Apenas e só a parte da colecta.

A falta de respeito dos condutores não se resolve indo-lhes ao bolso. Isso não os muda: num caso ou outro (os infelizes 1% que são apanhados) possivelmente, que não provavelmente, arrepiarão caminho. Mas por cada besta que é açaimada sairão das “escolas” de “condução” 30 encartadas bestas prontas a tomar-lhe o lugar na linha da frente da guerra que em cada minuto se trava nas estradas, ruas e becos de Portugal.

Não mencionei, por achar menor, as fraquezas evidentes do novo código: para quê, justos céus, agravar as multas em cima das passadeiras? No que toca ao estacionamento nas cidades (e não só em Lisboa; tive muito piores experiências em Faro, por exemplo), a multa é um exercício fútil e arbitrário por parte dos agentes da autoridade, que NADA resolve e pelo contrário agrava os problemas. Ao condutor, azarado porque foi multado e o carrito ao lado, que até estava a lixar a circulação muito mais que o dele, que só tinha a roda em cima do passeio mas toda a gente passava bem na via, esse não foi multado, só o dele, um abrorecimento além do dinheirito - isto se for trouxa ao ponto de pagar a multa; e à polícia, que acumula mais processos de quarta importância a atravancar as secretárias, impedindo o avanço dos processos de terceira, segunda e primeira importância.

Se você nunca assistiu ao triste espectáculo que é ver um carro ser colocado em cima do reboque e, atrás deste, formar-se uma fila porque está um sujeito na mira do lugarzito que vai vagar… olhe, eu já. Os polícias encolhem os ombros no cumprimento do seu cívico dever (remover o infractor) e esperam poder lá voltar para remover o segundo, entretanto passado à condição de infractor, isto se no caminho não tropeçarem num carro que seja mais fácil de remover, claro está.

Acha que os reboquistas, que trabalham à unidade, se dão ao trabalho de remover carros que estão a lixar o trânsito, mas em situação difícil para meter o reboque, quando ao lado está um condutor consciente que deixa a viatura o mais enfiada possível para que o trânsito flua mas, coitado, tem o carro mesmo à mão de semear…?

O caos citadino não se resolverá com medidas punitivas. Estas apenas aumentarão os problemas noutros lados. O ordenamento territorial foi e é gato-sapato dos lobis dos pedreiros. Enquanto subsistir esse estado de coisas o caos citadino é insolúvel.

(…)

Por mim falo: sou hoje um condutor não direi exemplar mas pelo menos preocupado e consciente. Ando mais devagar (embora possa dar 150 na autoestrada se for o caso e houver condições, mas sempre atento para levantar o pé da tábua ao menor sinal de trânsito). Ando sempre ultra-atento aos parceiros de estrada - um treino que me veio de ser motociclista, os motociclistas apanham com os erros todos dos automobilistas, todos, e aprende-se, pois é claro que se aprende.

Sobretudo tenho consciência que a minha vida, e as dos que forem comigo e vão nos outros automóveis, é demasiado preciosa para ser colocada desnecessariamente em risco com manobras arriscadas que, na maior parte dos casos, reflectem exclusivamente o excesso de testosterona. É o que mais vejo por aí: testosterona aos pulos, indomada.

Não fui sempre assim. Também fui vítima da guerra de nervos, e de sexos, que é conduzir nas estradas portuguesas. Aos poucos fui percebendo (muito graças a andar de moto). E modificando o meu comportamento. Deixei de buzinar aos ca(ra)melos que se desenfiam. Dou-lhes prontamente passagem: todos ganhamos, porque assim se contribui para a fluidez do trânsito e se baixam os níveis de irritação. Deixei de fazer tanta burrice, quando percebi que só as fazia porque ou estava a provocar, ou estava a ser provocado… Que disparate!

Mas é esse disparate que marca o minuto-a-minuto do trânsito urbano, e do trânsito não-urbano nos fins-de-semama. É um disparate colectivo que resulta de maus exemplos cívicos, da falta de escolas de condução dignas do nome, dos exemplos “de cima” (vidé a arrogância dos condutores “de excepção”, trate-se do político com escolta ou da própria polícia em situações que ELES querem classificar de emergência), do mau estado das vias de “circulação” e do péssimo urbanismo que me geral caracteriza as cidades portuguesas.

Este é um tema inesgotável. E desinteressante: ninguém gosta de ser tratado por besta. Logo… Tudo como dantes - excepto que a polícia pode facturar melhor. Parabéns: pois que haja alguem contente.

  1. 1 João Craveiro

    Ainda hoje falava disso ao almoço: do orgulho que uma pessoa tem de ser um condutor consciente, e de como uma pessoa, por muito cívica e atenta que seja, poder morrer na estrada por causa dos Fitipaldis e Makkinens da esquina, e daqueles que não podiam esperar até “pôr o carro na garagem” para apanhar uma tosga.
    Não é divulgar na TV que a multa para — por exemplo — não tomar as devidas precauções para mudar de faixa (verificar segurança, fazer “pisca”, …) vai de 60 a 300 euros que muda alguma coisa — o tuga quer é chegar depressa aonde quer que vai, transformar a passagem pelo trânsito num Grande Prémio da Coisa da Mãe Dele, e não tem nada que fazer pisca nehum, porque ninguém tem nada a ver com a vida dele, se vai para a esquerda ou para a direita.
    Não é mostrar numa animação toda catita que as rotundas são para fazer por dentro ou por fora conforme a saída para onde queremos ir que muda a confusão dos Marqueses de Pombal e afins — quando nas escolas de condução se continua a ensinar que nas rotundas também vigora a regra do “circular o mais à direita possível”.
    Não é tirar a carta a quem estaciona em cima das passadeiras de cidades com estacionamento privatizado que reduz sinistralidade — afinal de contas, se o peão atravessa onde calha quando lhe dá mais jeito, a passadeira é uma mera formalidade.

    A sinistralidade não está nas regras, está nas consciências, que deveriam, entre outras coisas, começar a ser moldadas muito antes de sequer pensarem em tirar licença para matar carta de condução. Porque conduzir com os copos, ou serpentear no IC19 a 140 à hora não é apenas fácil e/ou apetecível: é socialmente aceite (na cultura tuga, um acelera é e continuará a ser “o máior”).

  2. 2 whiteball

    …e isso…
    Decididamente, Paulo, vou abrir um blog só meu no weblog. Grátis, pode ser?

    Como já expliquei…em julho criei o
    blueshell.blogspot.com

    (já me espreitou, lá???)

    Mas estou desiludida…aquilo nem anda nem desanda.
    Assim, vou criar um na mesma linha no Weblog. Gosto do Paulo como Anfitrião.

    Vou fazer uma surpresa ao meu marido, o Mocho…

    Mas é gratuíto, né?
    Senão aí a surpresa ia ser outra -…lololol

    Posso, não posso?

    Isabel
    (Whiteball/ Blueshell)

  3. 3 Golfinho

    Para acrescentar a isso tudo, a cobrança das multas por parte dos órgãos policiais é inconstitucional, só o pode fazer tal os órgãos ou agentes do ministério da finanças; ora neste novo código, tal não é previsto, nem há um transferência de poderes daquele ministério para estes. Mais viola o princípio da irrectoactividade da lei penal. se antes se aplicava coimas [contra-ordenações], agora aplica-se multas, logo somente aos condutores que tivessem tirado a carta a partir do momento que o código entrou em vigor é que se aplica essas multas.

    aconteceu o mesmo com a entrada em vigor do RGIT que veio substituir o RJIFNA.

    Os condutores têm muita defesa jurídica contra esse código.

  4. 4 pTd

    Cara Whiteball: mas of course, pode criar, seja gratuito ou de subscrição, a escolha é sua!

  5. 5 Fernando

    Caro Paulo, parece que no essencial estamos de acordo. E só não estou contente, porque acho que houve medo de ir mais longe.
    No meu comentário não me referi ao caótico trânsito urbano, mas concordo plenamente com a análise sobre estacionamento, reboques e afins…

    Quanto ao comentário do João Craveiro permito-me discordar duma coisa: cada vez é menos aceite socialmente a condução com os copos. O mesmo não se passa ainda com os aceleras. É mesmo uma questão de mudança de mentalidades.
    Toda a gente sabe que o grande problema é a falta de civismo, mas todos acham que o vizinho é que é o incivilizado.
    Parece que o pessoal tem que ser civilizado à força. :)

  6. 6 pTd

    Pois… Parece que o pessoal tem de ser civilizado à força. Mas essa força não poderá ser a força do Código da Estrada ou as dos bastões policiais. Isso não civiliza ninguém.

    Sim, estamos de acordo no essencial.

    É verdade que socialmente é cada vez menos aceite a condução etílica. Pergunto: quanto tempo demorou até chegarmos a “menos aceite” (que não é ainda manifestamente suficiente) e como decorreu o processo?

    Os aceleras, pois. Os gabarolas de sete e quinhentos que exibem à porta dos liceus as suas “medalhas” de alta velocidade e de condução extremamente perigosa continuam a ser heróis juvenis, exemplos a seguir… Quando falava de civilidade, era disso também que falava.

    A mudança é - terá de ser - forçosamente ao nível social. Não se muda por código, é preciso cavar mais fundo.

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