O meio é a mensagem

Leio uma reportagem do Diário de Notícias de ontem, intitulada “Revolução da blogosfera pode criar um novo poder”. À parte a (dispensável e feia) vénia ao parceiro de grupo económico, o Sapo - único alojador nacional contactado, segundo o aparente critério de ser o maior em termos de número, embora existam três outros de menores dimensões mas de maior impacto no contexto a que o artigo aludirá sempre, que é o da importância dos blogues -, o conjunto de peças está equilibrado.

mcluhan_fp.jpg A interrogação de fundo, percebe-se, é o impacto esperável do “novo” meio de comunicação. Sorrio e lembro-me do meu encontro com Derrick de Kerkoeve. Como ensinou Marshall McLuhan, o meio é a mensagem.

É curioso verificar que - à parte o interesse prematuro pelo “fenómeno” da “moda” que caracterizou o grosso das peças jornalísticas nos primeiros três anos da blogosfera - os poderes, a começar pelos mediático e político, só se interessam pela blogosfera na medida em que esta poderá, ou não, vir a constituir uma ameaça ao seu domínio.

As opiniões corporativistas dos meus camaradas de ofício são politicamente correctas e obviamente esperáveis, bem como as dos professores de Jornalismo. Mas mais curiais são as opiniões que ressaltam do pré-olhar dos jornalistas autores da peça, que a enfocam numa perspectiva de “novo poder”.

Há um nítido desejo de, seja por que forma fôr, controlar o output dos blogues. Erroneamente considerados como um todo. Acertadamente vistos como um novo poder.

No mesmo dia o atento MatosB colocava questões mais pertinentes. Os “weblogs jornalísticos” estão a cobro da revelação judicial das fontes? Ou só os jornalistas “encartados”? E mesmo se assim for entendido de forma positiva, quando a fonte revela informação obtida de forma ilícita, continua o jornalista a poder protegê-la? (in Atuleirus)

Não era bem isso, ou não era isso que MatosB queria perguntar. Ia mais longe: «Mas para além da questão lançada (liberdade de expressão e protecção de fontes jornalísticas) que, pessoalmente, penso que cessa com o conhecimento pelo jornalista (de boa fé) de que a sua fonte divulgou informação obtida de forma ilícita, o que me pergunto é se os jornalistas estão alertados para o facto de poderem ser manipulados em guerras de informação comercial e contribuirem involuntariamente para campanhas… de desinformação» (idem).

Numa palavra? Não.

Aos jornais, o que os move não é informar de forma isenta, deontologicamente correcta, etc. Aos jornais o que os move é ganhar dinheiro. O que se consegue por duas vias: vender mais papel (ocupar mais espaço no éter radiofónico, encher o chouriço televisivo) e obter mais publicidade. A magistratura de influência (sobre as empresas, uma permanente espada) ajuda na segunda fonte de receitas.

Ao contrário do que se passava nos “bons velhos tempos”, hoje a imprensa (sentido lato) é um campo de batalhas comerciais. Raros títulos escapam a esse devir. (Só me lembro da The Economist, assim do pé para a mão, isto nos títulos mainstream de maior tiragem/influência).

Hoje um jornalista é, na generalidade, um traficante de informações. Na especialidade de dar notícias “correctas” ou deontologicamente “puras” operam cada vez menos jornalistas.

Já toda a gente sabe que é assim - excepto alguns arautos da deontologia (por interesses vários, um dos quais desancar o livre negócio do jornalismo), desencantados da modernidade e velhinhas piedosas.

As questões judiciais interessam-me somente na medida em que deixam ao jornalista meios de dar as notícias. Se não deixam, então desinteresso-me: deixei de viver num Estado sério. Mas MatosB mostra saber da poda ao separar os “weblogs jornalísticos” dos outros. Até porque só poderão obter o putativo abrigo legal para o exercício de noticiar e informar os indivíduos que queiram ter uma carteira profissional, sejam bloggers ou não. Da mesma forma que nem todos os trabalhadores de um jornal são jornalistas, nem todos os bloggers poderão ser tomados como tal.

Anyway, MatosB apresenta razões para existir de facto uma equiparação de estatutos entre o jornalista e o blogger que a deseje (ao contrário do que indicia a leitura dos… jornais, como o DN de ontem, nem todos os bloggers querem fazer jornalismo). Para o proteger? Também, mas sobretudo para o responsabilizar. Para proteger os noticiados? Sim - é um direito que importa garantir. Mas acima de tudo para proteger o público dos excessos.

Um dos excessos ressalta uma vez mais de McLuhan. Sendo o meio a mensagem, então os escribas do meio julgam-se a si próprios a mensagem… Isto é: o poder do exercício do olhar, na palavra como na imagem, sobe facilmente à cabeça dos bloggers e neste espaço ainda sem balizas tendemos a olhar todos por igual, como se todos quisessem praticar a arte de separar o útil do acessório e todos fossem igualmente bons a fazê-lo. Os poderes cometem o mesmo erro e tratam a “blogosfera” como um todo - o que dará absoluta e rigorosa merda dentro em pouco tempo.

Já assistimos a isto. Video kill the radio star, enésima versão. O livro anda por cá há setecentos anos. A imprensa publica-se há 200 anos. A rádio por cá anda há 120 anos. A televisão será em breve centenária. Os blogues ainda nem definiram o seu sexo e já são estrelas. Todos os meios foram a mensagem, todos os meios são a mensagem.

De veículo primordial de cultura e informação, o livro sofreu várias transformações e hoje é pau para toda a obra, de vender autores a vender férias partilhadas a vender receitas exóticas a vender bem estar.

De guardiã da Verdade (e, por consanguinidade, da Democracia…), a Imprensa foi sofrendo várias transformaçães e hoje vende presidentes, preservativos, interesses e influências.

De nova esperança da Verdade, a Verdadeira e Suprema, a Rádio tornou-se com o tempo numa vendilhã de sabonetes, produtos financeiros, riso de opereta, e conforto espiritual para trabalhadores solitários e nocturnos.

De Esta-Sim-Mostrará-A-Verdade-Tal-Qual-Ela-É, a Televisão sofreu a erosão dos tempos e hoje vende, a custo, automóveis, guerras e distracção para PMI (Pequenos e Médios Intelectos).

Os blogues tornar-se-ão, com a passagem do tempo, numa coisa qualquer que por agora é desprezível antecipar (quer dizer: estou mais interessado em participar que em analizar).

Mas enquanto o temopo não passa, gozam merecidamente o seu instante de mensagem: como já o foram os livros, os jornais, a rádio e a televisão antes deles, são um perigo público para os poderes instituídos.

É bom que haja “perigos” destes para os poderes. É saudável para os regimes progressistas. Mantém os poderes sob um (pequeno, mas fundamental) controlo por parte dos apoderados.

Mas - por favor! - não me venham com tretas de “jornalismo”. O jornalismo faz-se independentemente do meio. Faz-se no papel, no éter, na pantalha ou no monitor. Faz-se independentemente, ponto. O jornalismo faz-se com jornalistas. Sem jornalistas, nenhum meio é jornalístico: na melhor das hipóteses, entretém e distrai, talvez até cultive, helàs; na pior, compele, obriga, equivoca, esconde.

Não filtrada por técnicos, a opinião acaba por se tornar mero ruído.

Um dos problemas das democracias é, hoje, a notória escassez de jornalistas, intermediários do importante, separadores do acessório. Sem eles, o ruído sobrepõem-se à mensagem.

Acredito que com tanto barulho, os blogues acabarão por se finar muito depressa, mais depressa ainda do que a televisão - hoje mais um meio de influenciar decisões e subordinar escolhas do que o instrumento informativo ao serviço das populações, como era visto no seu tempo. E para azar do sistema democrático - mas isso são contas de outro rosário.

  1. 1 jorge

    excelente excelente post!
    os meus parabéns!

  2. 2 zecatelhado

    Puxa, meu!
    Até me faltou o ar! Grande posta.

    Um abração do
    Zecatelhado

    Atrasadito mas…
    PARABÉNS AO VENTO….
    NESTA DATA…lálálálá

  3. 3 JRP

    Paulo,

    já tinha escrito uma coisa “parecida”, quem sou eu :P, num comentário a um texto do barnabé. levantas aí uma questão pertinente. A do código deontológico. Será possível a médio ou longo prazo os bloggers, aqueles que quiserem levar esta empreitada a sério, adquirirem um estatuto jurídico como o dos jornalistas, com ética, com regras que os vincule, para que termine de vez certas violações da ordem jurídica que vemos por aí? E já não me refiro somente a injúrias e difamações, grassam por aí na blogosfera portuguesa blogues neonazis bem identificados, com moradas, telemóveis dos seus membros, o que represnta uma clara violação da constituição e um crime público. Esses bloggers não deviam ser expurgados?
    Mais e aqueles que violam copyright? O que se passa entre jornalistas que o fazem? sabemos de casos de jornalistas portugueses que fizeram traduções de jornais estrangeiros e soubémos o resultado.

    Para quando uma uma semi-profissionalização, nao digo profissionalização, porque aqui andamos todos por gosto, dos bloggers que nos garantam direitos?

    um abraço

  4. 4 pTd

    Não julgo que os bloggers possam alguma vez, simplesmente, ser equiparados a jornalistas.

    Era a mesma coisa que eu pedir equiparação a engenheiro por saber fazer um script em Perl.

    Ou querer estatuto jurídico como o dos Farmacêuticos por saber dosear o ácido acetilsalicilico quando tenho uma dor de cabeça.

    As violações de ordem jurídica, caro JRP, estão amplamente “cobertas”: há tribunais e leis sobre liberdade de opinião e direitos individuais (como o bom nome).

    Há legislação para os blogues neonazis. Há legislação (adequada ou não, isso são outros quinhentos) para os direitos de autor.

    A profissionalização pressupõe a existência de relações devidamente remuneradas entre quem precisa de serviços e quem os é capaz de prestar. Não me parece ser o caso dos blogues.

    Não devemos colocar o carro adiante dos bois. Nem orbitrar as “competências” da actividade de publicar em blogues.

    É a mesma coisa que querer dar um estatuto profissional aos conversadores de café.

  5. 5 Inês

    Parabéns pelo post!

    Quando os jornais recorrem aos brindes anexos (DVDs, livros inteiros ou em fascículos, etc) para garantir a dependência dos compradores, mais que a fidelidade dos leitores, evidenciam alguma decadência do jornalismo real.

    Talvez alguns bloggers não caibam já no Speaker´s Corner em que os encurralaram no artigo do DN.

    Como também há nos blogs, uma dimensão de prazer e liberdade, de encontro de afinidades, de partilha de interesses pessoais e profissionais que é bem evidente.

  6. 6 João Pedro da Costa

    «É a mesma coisa que querer dar um estatuto profissional aos conversadores de café.»

    Nem mais, Paulo. Belíssimo post.

  7. 7 nikonman

    Excelente post!
    Parabéns.

  8. 8 nikonman

    Excelente post!
    Parabéns.

  9. 9 Golfinho

    Paulo,

    esse argumento peca por redudância, desculpa-me.
    tu próprio escrves que os jornalistas estão ao serviço de jornais que por sua vez estão ao serviço de gupos económicos de publicidade.

    Vamos por partes. Os jornais, todos sabemos estão a perder audiências e vendas por causa dos blogues e bloggers. Mais, muitos já vêm aqui buscar as suas fontes, já aconteceu comigo, já vi no teu no jornal p. ex. uma crónica parecidissima com um post meu, para não falar em outros jornais. Além de outros que vêm buscar ideias a outros blogues. Uma coisa, de facto é o jornalista e o seu código de ética e a sua carteira profissional e o seu poder de escrever num jornal ou num outro media convencial. E nós? Os que estamos a fornecer informação credível? O que somos afinal? O que nos separa? A carteira? Diz-me como como obtê-la, não quero escrever num jornal, quero continuar a escrever num blog, afinal eles surgiram como e-jornais.

    “No hard feelings, please” :)
    Um abraço

  10. 10 pTd

    Caro Golfinho, dificilmente poderia estar mais em desacordo ;)
    Os jornais, a perder audiências por causa dos blogues? Que bizarro! A concorrência aos jornais vem da pulverização de meios de informação sintética e rápida: TV, rádio, sites informativos (sites, repara, não é blogues), telemóveis, you name it. E também, ou talvez sobretudo, da própria concorrência entre jornais, que os há em cada vez maior número, para não mencionar revistas.

    E muda lá isso do “muitos”. Admito que os jornalistas recorram, aqui e ali, a pistas e dicas que sacam nalguns blogues — e repara: NALGUNS blogues, raros blogues. Desde que há blogosfera portuguesa lembro-me de APENAS dois casos em que informação de blogues alimentou noticiário e investigação jornalística. E SÓ UM deles continha material realmente novo, o outro era matéria já conhecida, embora sem peso. Em três anos… é pouco, manifestamente pouco para acharmos que a blogosfera portuguesa é uma alternativa (bahahah) à informação dos media convencionais. (É alternativa, sim, à opinião e nalgumas matérias noticiosas de nicho, que os jornais cobrem necessariamente mal.)

    Agora, citar uma frase deste ou daquele, não se pode considerar “vir aqui buscar fontes”.

    Informação credível? Sim — aquela traduzida dos sites noticiosos musicais americanos antes dos jornais terem tempo de o fazer? Ou que não se darão ao luxo de fazer por não ser a sua praia?

    O que nos separa? O mundo, amigo Golfinho, o mundo. A formação. O treino. O traquejo. A orientação. O treino. Não é jornalista quem quer, como não é advogado quem quer como não é médico quem quer como não é aviador quem quer.

    Queres saber como obter a carteira de jornalista? Porreiro. Dirige-te à Comissão da Carteira Profissional. Eles dão-ta, for sure. Habilitações, estágio de seis meses (penso) num OCS.

  11. 11 pTd

    No hard feelings, claro.

  12. 12 Golfinho

    LOL

    Knock out.
    fico-me pelo lisonjeio da tua colega me ter citado :).
    E acho o teu o útimo parágrafo, o do post, o mais interessante, e preocupante ;), a UMIC ;).

    Um abraço!

  13. 13 Jorge Guimarães Silva

    Só agora vi o post. Gostei. Mas já agora: a rádio só faz 100 anos em 2006, a 24 de Dezembro.

  14. 14 Jorge Guimarães Silva

    Falta dizer que a Telegrafia Sem Fios começou em 1895, mas a T.S.F. não é radiodifusão.

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