O trampolim extraordinário
publicado 20 Abril 2005 em Um jantar em Nova Iorque.O Centro Democrático Social / Partido Popular já não é um partido. Tornou-se na última década numa rampa de lançamento de ambições pessoais. Não admira que esteja a passar uma crise de identidade e que, a escassas horas do seu congresso, andem ainda a suplicar a alguns militantes mais destacados o favor de se candidatarem à liderança. Num momento em que não há nenhum político ambicioso (mas com os mínimos políticos feitos, “lebres” como Miguel Matos Chaves não contam) que queira usar o trampolim do CDS para fazer carreira na política, terá de assumir funções burocráticas um qualquer dos seus dirigentes. Eventualmente será Telmo Correia — tem grande experiência no Parlamento e é um excelente amanuense, esperando-se assim que consiga o milagre de manter o partido vivo pelo menos na Assembleia até às próximas legislativas.
Dirigir o PP é um cargo pouco apetecível, dizem. Sim, é. Não há moral que resista a comandar um exército fantasma que não tem massa crítica própria. O CDS sempre sobreviveu encostado às ambições pessoais, subsidiado pelos fundos de figuras interessadas no contravapor da direita portuguesa e pelos votos de “órfãos de pai político”. Sem o leme dos ambiciosos (purgados brilhantemente pelo Último Grande Líder), com as quilhas recolhidas dos financiadores, enamorados de um PS amaciado (num ciclo de quatro a oito anos não será preciso injectar fundos no contravapor), e com as velas do eleitorado tradicional a morrer, o CDS/PP é um iate à deriva. Não invejo Telmo Correia.
Tudo começou em 1974 com a fundação do CDS por, entre outros, Adelino Amaro da Costa, Diogo Freitas do Amaral, Basílio Horta, Valentim Xavier Pintado, Vítor Sá Machado e Luís Moreno. Desde então o CDS/PP foi liderado por Freitas, Lucas Pires, Adriano Moreira, Manuel Monteiro e Paulo Portas.
Destes, Freitas do Amaral foi e é quem se sabe. O brilhante cérebro de Lucas Pires fugiu para a Europa antes de morrer cedo demais. E Adriano Moreira foi o mais verdadeiro dos seus chefes, o único verdadeiro líder pois personificava efectivamente alguma “base eleitoral” do partido, que se revia no antigo ministro de Salazar. Mesmo ele foi, antes e depois do partido, uma figura maior que o partido.
O único líder do partido que teve um pensamento político digno de nota era um europeísta convicto — algo que aparentemente nunca esteve no ADN do partido, que acabou por o exilar. É extraordinário que tendo sido ele a dar ao partido o maior score eleitoral da sua História, não tenha deixado doutrina e seguidores. Quando penso em Lucas Pires e no seu valor fico sempre a falar com os meus botões, que suspeitam que o CDS/PP aparentemente nunca quis existir como partido político coerente.
Fechado com Moreira o ciclo do CDS enquanto partido fundador da democracia portuguesa, a natural extinção da espécie parecia próxima. Foi salva pelo balão de oxigénio da ambição e pelos interesses no agit-prop da direita.
Os outros dois líderes conhecidos, ou “modernos”, do CDS/PP são Manuel Monteiro e Paulo Portas, exemplares de cartilha de ambição pessoal capaz de subjugar toda uma estrutura partidária aos seus caprichos, às suas agendas e às suas estratégias privadas de tomada de poder.
A “corrida” à liderança, neste ano de 2005, afigura-se aos olhos do cidadão comum como patética, pungente até. Sempre muito bem educados, surgem dirigentes a dizer que em último caso se candidatam, mas NUNCA contra um colega. É extraordinário que num organismo democrático os “candidatos” recusem algum tipo de confronto eleitoral. Apareceu um candidato a artista de trampolim, Miguel Matos Chaves, tão desconhecido que a Imprensa nem se lembra dele, e os putativos candidatos encolheram-se até hoje. Embora nem no partido o levem a sério, esquecendo-se de o mencionar — é no entanto, até este preciso momento, o único candidato assumido, de papelada assinada e entrevista enquanto tal na televisão.
[ Não há lugar a dúvidas, o CDS/PP é extraordinário: têm um candidato e afirmam que não têm. Pensamento óbvio: como se sentirá o invisível Matos Chaves? Porque não diz nada? Será que retirou a candidatura mas se esqueceu de mandar o motorista levar a fotocópia à Redacção da TVI? ]
Tal como no seu “simétrico” no espectro partidário, o PCP, onde o chefe não é eleito contra um concorrente, pelas bases, mas por uma espécie de colégio eleitoral, (algo parecido com o colégio de cardeais, só que o fumo é vermelho) que lhe confere ainda assim algum cunho democrático, no CDS /PP o líder é encontrado por exclusão de partes — embora sem o “branqueamento democrático” de um comité central eleito. É extraordinária a existência de tal organização na vida de um país onde a democracia demorou a instalar, mas está instalada. Um autêntico case study para politólogos e sociólogos.
Se a extinção da espécie tem sido salva pelos interesses no agit-prop da Direita, os novos partidos conservadores vêm engrossar as opções das ricas bolsas que nas vésperas das eleições distribuem por esses lados trocos para confetti e balões que engalanem a quermesse eleitoral. Desconfio que do ponto de vista do povo (eleitor ou financista) mais vale o ar fresco (e balões com novas cores garridas) que mais do mesmo. Sendo que algumas dessas noveis agremiações se apelidam a si próprias de liberais, forçando o posicionamento ideológico mais perto do centro da moda que da direita em baixa na bolsa de valores da opinião pública, na esperança de captar os televisivos holofotes para as suas bandeiras. É um falso liberalismo. É mais um bushismo em segunda mão.
Em Portugal os liberais andaram historicamente perto da direita, para não dizer do extremo conservador; nunca um partido liberal aguentou muito tempo: mais cedo ou mais tarde havia cisões e uma ala ia cair, redonda, nos fortes braços dos conservadores. Estes escolheram para si ao longo da História os mais hilariantes nomes, como Partido do Progresso (mais tarde surge um Partido Progressista) e o (meu preferido) Partido Republicano Evolucionista, fundado em 1912 pelas sobras mais revolucionárias do movimento que levara anos antes Teófilo Braga a Primeiro Ministro. Evolucionista!
Falamos dos verdadeiros liberais. Que hoje infelizmente se confundem com os seguidistas locais de George W. Bush, o presidente americano oriundo da ala mais radical da direita nacionalista americana, um verdadeiro duro e homem muito pouco liberal nos costumes, nos dinheiros e ainda menos na definição política (com efeito, liberais na política dos EUA são os Democratas), cuja única relação com a palavra teve a ver com o objectivo de ganhar as eleições usando liberais piscadelas de olho ao centro, uma manobra conhecida nos EUA por triangulação.
Estes liberais verdadeiros (um punhado ainda assim não dispiciendo que se materializou em 1985 no Partido Renovador Democrático, conquistou votos suficientes para ser a terceira força no Parlamento e dois anos depois despediu um governo PSD, para morrer de seguida) nada querem com o CDS/PP: habitam o centro real e ora indulgenciam o PSD, ora estendem o voto ao PS, conforme o vento. Só têm um problema: não conseguindo a autonomia, acabam sempre vítimas da voracidade dos líderes de direita, num movimento que pelas esquerdas, democráticas ou não, é conhecido como voto útil. Mas como quatro a oito anos à frente, e uma sociedade civil descansada e com mais tempo para pensar, os liberais de marca dispõem de uma oportunidade de ouro. Sobre o azul desbotado do CDS/PP.


«algo parecido com o colégio de cardeais, só que o fumo é vermelho»
:D 
O grande problema do PP é a sua identidade. Se o PCP e o BE sabem bem por que águas navegam o CDS/PP nem sabe se é CDS, se PP ou se CDS/PP, isto é, se é centrista (centro-direita), se é PP (direita), se é elitista (CDS), se é populista (PP), se é Paulo Portas ou não.
Isso e a perspectiva certa de uma travessia no deserto de 4 anos, para além de umas eleições autárquicas que se avizinham e onde o PP tem tradicionalmente maus resultados, tudo isso desanima qualquer candidato sério. Fica o Matos, que se aproveitou do vazio para subir à tona nos noticiários e “aparecer”.
E se o cds fecha-se as portas?
Se calhar o pais ficava a ganhar.Não se gastava nos ordenados nos representates na assembleia, e o dinheiro para a campanha eleitoral podia reverter para politicas ambientais.
Um abraço de amizade
Paulo+fÚ
Não seria positivo para a nossa democracia a perca do seu representante à direita, assim como não o seria a desaparecimento do PCP. Democracia e Pluralidade devem ser sinónimos. Ou então temos a “democracia de pensamento único” que o “centrão” PSD-PS nos quer vender.
Eu não sei comentar artigos sobre política…especialmente se estes são assim, como este, tão bem escritos e encerram tanta verdade!
Excelente!
Jinho (desculpe a familiaridade)
BLueshell
Voltei….
Mas…tem algum jeito passar o 25 de Abril de cama com o diabo de uma amigdalite???
Parece que este post saiu completamente ao lado. Já agora, alguém me pode dizer se existe algum partido em Portugal com formação e postura ao nível do Ribeiro e Castro?
Caro luís camões, completamente ao lado não diria, a análise permanece. Felizmente, porém, o CDS pareceu querer desmentir a minha teoria e, com um pouco de sorte, poderá aglutinar AO CENTRO os liberais, verdadeiros e falsos, os descontentes da ala não social-democrata do PSD (muitos, legiões), os cristãos e demais hordas centristas. A bem do partido, espero que sim. A bem da política, esperio que sim. A bem da nação, dará pouco jeito mais um trambolho a mandar vir ao centro. Mas isso é a minha opinião.
Se calhar os congressistas andaram a ler o Paulo Querido, que assim teve um papel fundamental no resultado final! Só me faltava mais um Nuno Rogeiro…
Caros Amigos
Se a minha candidatura tiver servido para fazer ver à opinião pública que o CDS-PP não é só de Dirigentes conhecidos; se tiver servido para a clarificação ideológica do mesmo; se tiver servido para aproximar as bases da direcção; se tiver servido para promover a reorganização do partido; se tiver servido para se debater a Europa de forma séria e profunda; então a minha consciência de Cidadão ficará satisfeita.
Um abraço do
Miguel Matos Chaves
Militante de base do CDS-PP