A lata
publicado 24 Maio 2005 em Um jantar em Nova Iorque.Se afirmar que Cavaco Silva é um dos grandes responsáveis pelo Portugal que hoje temos, a frase será relativamente bem aceite. É quase inócua e consensual (e disso tira ele partido evidente para a sua proto-candidatura a Belém). Pelo menos enquanto essa lembrança significar mais estradas, desenvolvimento “estratégico” das vias de comunicação entre os principais centros urbanos e o interior, algum apaziguamento da política nacional que permitiu menos sobressaltos na entrada de facto na União Europeia, e um clima propício aos empresários.
Mas um estadista fica na História para o mal, como fica para o bem. Queira ou não, queiram ou não os seus defensores, Cavaco Silva abandonou (inaugurando com o abandono uma nova forma de sair da política que deixou infelizmente seguidores) o Governo deixando à nação os germes que, hoje, se transformaram num défice de 6,83% nas contas públicas. Mesmo com a distância temporal, não é dispiciendo invocar o contributo do ex-Primeiro Ministro para o actual estado de coisas. Sobretudo a partir do momento em que Cavaco abre a boca para fornecer a receita “infalível”: reduzir o Estado e reformar a Administração Pública.
Apetece perguntar porque não tomou ele conta da ocorrência enquanto PM. Haveria outras coisas mais importantes? Não sabia disso, mas entretanto evoluiu (talvez por passar a ler jornais)?
Se proveniente de altos cargos na função pública e no sector privado, nenhum dos candidatos a grilo falante de José Sócrates deve merecer a nossa atenção. E ainda menos a atenção do Executivo. A existirem receitas infalíveis, não serão certamente as que estes putativos conselheiros dão agora, depois de terem tido a sua oportunidade de as porem em prática. É tão óbvio que até irrita.
Até este episódio eu estava convencido que as eleições presidenciais eram favas contadas para Cavaco. Mesmo que a esquerda apresentasse um bom candidato. Agora não estou tão certo. A memória do eleitor é curta, é uma verdade que conta em benefício de Cavaco. Mas pouco mais. Cada vez que abre a boca ou saca do teclado, diz algo de profundamente irritante, que logo evoca o Cavaco dos seus melhores tempos: um homem arrogante e auto-convencido, com limitações políticas, muita habilidade para números e desdenhoso das reformas de que o Estado necessita. É bom relembrar quem foi, enquanto governante, o homem que agora ambiciona voltar ao poder, para mais com indisfarçáveis tiques de presidencialista na pior acepção da palavra. Uma espécie de Soares, para pior. Tão pior que peço perdão pela comparação.
Por outro lado, à esquerda também esta semana o clima desanuviou-se. Com Guterres finalmente emprateleirado na ONU, pode o PS respirar e fazer pela vida. Esqueçam Vitorino: é suficientemente novo para ainda aspirar a ser PM, a presidência antes de tempo seria um erro. Esqueçam Constâncio: entre dois sisudos, o povo escolheria Cavaco de olhos fechados.
A vida chama-se Manuel Alegre. Alegre é o único candidato socialista que não irritaria os sectores mais à esquerda do partido e, por inerência, os partidos mais à esquerda do PS.
Ao contrário das legislativas, que em regra se conquistam ao centro, as presidenciais ganham-se sobretudo pela personalidade. Soares não precisou do centro, ocupado exaustivamente por Freitas. (Sampaio não conta, não tinha concorrente.) Alegre não precisa do centro, embora, claro, Sócrates pudesse dar uma mão para roubar a Cavaco alguns votos nessas águas. Apesar das naturais desconfianças, mesmo nas franjas do PSD e até do CDS há simpatias pela figura renovada de Manuel Alegre, que mais que um emblema da esquerda típica do pós-25 de Abril funciona como um símbolo de um homem com convicções, paixões e sentido de solidariedade social. Precisamente o que se quer de um presidente.
Alegre poderia beneficiar, até, das reticências com que alguns sectores liberais e neo-liberais recebem hoje Cavaco.
Com a esquerda por conta e um Cavaco representante da ingovernabilidade sustentada do país e da classe política que hoje faz uma coisa e amanhã diz o contrário, a vitória não será uma miragem para o PS com Manuel Alegre. Este, pelo menos, não tem a lata de aconselhar as “infalíveis” receitas para a crise que até uma candidata a miss será capaz de debitar (sendo certo que nunca as terá de tomar…). Este, ao menos, ousa pensar para a frente, pensar novo. Como se gosta de ter num presidente, já que não se pode ter num primeiro-ministro.
Não sendo seguidor de um nem de outro, sabendo que em política raramente o que parece é, estou hoje convicto de que afinal não é garantida a vitória de Cavaco Silva nas próximas presidenciais.


“A mim ninguém me cala” - este post faz lembrar aquela rapaziada em meados dos 80s que ainda culpava o “gonçalvismo” de todos os males circundantes.
Um gajo vai envelhecendo, “eu seja ceguinho” se não vai - porreiro, apesar da idade, ver jornalistas tão prazenteiros com o Alegre, “eu seja ceguinho” se não é tão porreiro ver jornalista tão prazenteiro com o Alegre.
Caro jpt, não me passou pela cabeça culpar Cavaco pelos males circudantes. Embora admito que alguns leitores o possam fazer.
Ouvindo agora o ex-PM dizer banalidades sobre a govwernação de um país, quer-me parecer que, afinal, Alegre terá (teria) uma oportunidade.
Se te pareço prazenteiro, óptimo!
Um abraço
“Queira ou não, queiram ou não os seus defensores, Cavaco Silva abandonou (inaugurando com o abandono uma nova forma de sair da política que deixou infelizmente seguidores) o Governo deixando à nação os germes que, hoje, se transformaram num défice de 6,83% nas contas públicas. Mesmo com a distância temporal, não é dispiciendo invocar o contributo do ex-Primeiro Ministro para o actual estado de coisas.”
Ok, percebi mal.
Também acho porreiro estar ou ser prazenteiro (uma bela e mui esquecida palavra, a exigir reparação).
Alegre? Francamente, antes o Peseiro
Pois eu concordo com tudo que o Paulo disse. Sem tirar nem por.
Eu até recomendaria uma coisa para a salvação deste país, não digo criar uma ETA em Portugal, porque odeio a ETA, mas talvez criar uma organização que se limitasse a meter bombas no parlamente, mas calma, as bombas que estou a pensar são bombas de merd@!!!!
Como é possível durão e companhia dizerem que o défice estava perfeitamente controlado? que deviamos ter apostado na continuidade?
Como é possível sócrates nunca falar de aumentos de impostos nem de retirar de regalias e agora vir fazer tudo ao contrário? Como é possível o PSD que era o grande defensor deste tipo de medidas que agora Sócrates vai tomar, dizer agora que é contra o aumento de impostos??
É o que eu digo, a solução é só uma: Bomba de Merd@ no parlamento!
Caro jpt, de “deixar germes” a “ser culpado dos males circundantes” vai uma imensa distância, em termos de Português. Ou eu não sei escrever para os tempos que correm (uma possibilidade que me assalta recorrentemente, confesso), ou a tendência para as leituras apressadas deve ser combatida?
Caro cachucho, os partidos não falam o que interessa ao país: falam o que lhes interessa a eles. Uma democracia pujante é uma democracia onde os partidos são controlados pela sociedade civil (i.e.: nós) directamente ou por via de associações e instituições. Portugal tem uma democracia excessivamente partidarizada — e é outra das tais coisas, toda a gente o sabe e diz, mas ninguém se atreve a desfazer. E porque haviam os partidos de largar mão dos seus poderes e influências?
Temos o que votámos.
Desculpem lá, mas mesmo sabendo que estas palavras nada têm a ver com o Cavaco, por acaso não existe um blog, site, um instrumento que exponha quem plagia na blogoesfera? Esta moçoila, viajarnosonho.blogs.sapo.pt, anda por aí a fazer estragos: http://escritaiberica.weblog.com.pt/
Não faço ideia se os restantes textos lhe pertencem ou não.
Cavaco é também o autor da primazia dos Serviços sobre os sectores produtivos, que tanto desemprego e que provoca boa parte da profunda crise que vivemos. Cavaco foi também aquele que favoreceu o sector financeiro contra o resto da Economia…
Esses “desvios” à racionalidade económica ainda hoje são pagos por todos nós.
Não ao pai do monstro.!!
Por favor não quero morrer nú.!!!
Não!! quero “ao tempo volta para trás” por favor.
Chiça penico que nunca mais chega o D: Sebastião.
Por favor, não á Mornarquia, não quero um país de fadas e castelos de areias.
Simplesmente PORTUGuES, Perceberam!!?
um abraço.
Mas este Cadilhe não era o “superministro” deste Cavaco? Ou seria outro Cadilhe?
Mais uma reedição do sempre popular tema: “não fui eu, foi o outro”, da versão “empurra para trás” tão do agrado dos nossos governantes.
Vamos lá a não esquecer que foi durante os governos de Cavaco Silva que vieram as maiores verbas da UE. Com ovos,bons ovos, eu também faço omoletes boas.