«Portugal acolheu com grande satisfação a escolha de Lisboa, que disputava com Viena a organização deste grande evento». Isto disse à agência noticiosa governamental (só podia) um ex-jornalista, agora porta-voz (só podia) do MNE.

Referia-se à atribuição de um grande evento de repercussão internacional, capaz de cobrir de glória o país?

Não. Referia-se a uma conferência regional (europeia, pois claro) de uma multinacional de origem americana. Um fórum que o homem mais rico do mundo “organiza” para promover directamente as suas políticas junto de chefes de estado sem políticas e outros governantes fracos de espírito. Nele o staff de relações públicas da empresa, comandado pelo vice-presidente para o marketing e devidamente “escoltado”, tenta:

a) assegurar que diversos estados continuem a alugar as leoninas licenças de utilização de programas valiosíssimos e quase impossíveis de obter, como um processador de texto e uma folha de cálculo, de forma a garantir que Gates continua no topo da lista da Forbes;

b) assegurar que os convidados tenham os pratos e copos e olhos cheios durante todo o tempo de duração do evento;

c) assegurar que escutam eficazmente a “visão” para o “futuro” da empresa que esta, num gesto sem dúvida magnânimo, se digna “partilhar” com eles.

Como tentam eles tais desideratos, nem quero imaginar. Contam em princípio com a presença de Gates (ou, quiçá, de Steve Ballmer) na sessão final, para poderem bater palmas até que as mãos lhes doam e pedir autógrafos para os filhos estudantes do secundário (e de algumas universidades onde o uso da Microsoft é, também ele, obrigatório e exclusivo).

Um ministro (Freitas do Amaral) foi recebido por um “vice-presidente” daquela empresa, para, leio estarrecidamente, choramingar “argumentos” a favor de Lisboa. Ao que parece, o principal desses argumentos foi que o MNE terá garantido que o actual presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, “aceitaria” ser “orador convidado” do pretenso “forum”.

Que membros do governo do “meu” “país” publicitem que participam oficialmente num encontro regional de uma multinacional (de má fama, no caso, mas mesmo que fosse de boa fama) já é mau. Que admitam que venderam um telefonema-cunha ao presidente da CE a troco de a sediar, é lastimável. Que haja jornalistas e directores de jornais que engulam sem sais o press-release oficioso e transmutem todo este triste episódio em encomiosa notícia de jornal, transcende-me. Que Durão Barroso se “venda” a Gates a troco de uma caneta com o logotipo da empresa, eis algo que está de acordo com a imagem que dele tenho, pelo que me resta o consolo de ao menos alguem se ter portado à altura nesta história.

Ninguém, no seu perfeito juízo ou não, acredita que o “evento” trará a Lisboa ou a Portugal (caramba!, a coisa foi tratada a nível de ministro!) o que quer que seja. Divisas? Promoção do país nos noticiários da CNN? Ao menos, descontos na compra das referidas licenças anuais de aluguer de software que por acaso se podia ter sem encargos?

Tanta sabugice e subserviência é um mistério. Que não espero ver publicamente esclarecido.

  1. 1 cachucho

    Caramba, finalmente alguém com uma opinião semelhante à minha :) Já estava a ficar assustado.

    Concordo em absoluto contigo Paulo.

  2. 2 Vi

    Eu cá não vendia o Cherne ao Bill Gaitas por duas canetas: dava era ao Bill umas dúzias de canetas pra ele levar o Durão lá pròs Esteites - de preferência, num passeiozinho ao Alaska (e que se esquecesse lá dele).

  3. 3 Pedro Mascarenhas

    Tou curisoso… Por quanto é que TU te vendeste ao Zmail ao escrever o teu último “artigo” no Expresso ? Tb foi a preço de saldo ?

  4. 4 Cláudio Franco

    Pedro bem verdade.

    Apesar de ser contra a política da MS e do Governo Português em relação ao software na administração pública, entendo que se queira trazer para Portugal um dos momentos mais “altos” a nível tecnológico da europa tirando as mega-festas-de-jogos-em-rede.

    Agora o título… já olhaste bem para ti e para o weblog.com.pt?

    A julgar pelo brutal domínio de publicidade da Chip7 diria até que vendeste a alma.

  5. 5 pTd

    Caro “Pedro Mascarenhas”, foi a custo zero.

    Caro Cláudio Franco: momento alto? Só se for alto como em estar alto com uma ganda moca.

    E sim, já olhei bem para mim e para o weblog.com.pt e toda a gente já o fez, excepto você, pelos vistos. O contrato entre a Chip7 e o weblog.com.pt é um contrato comercial claro e comum, um mero contrato de publicidade. Se está interessado em anunciar na minha rede e, com isso, dar apoio ao melhor e maior projecto independente de conteúdos de língua portuguesa, feito em Portugal, faça favor de me enviar um mail. Aceitam-se aunciantes, patrocinadores e mesmo mecenas sem que tal me roube a dignidade (acha que os envolvidos na “coisa” da Microsoft podem dizer o mesmo?)

  6. 6 Espectro #999

         ⊆⊇     Amigo Paulo Q., as invejas deste povo dão nisto, de axincalharem (não sei se está bem escrito) o trabalho alheio, e principalmente o bom trabalho.     ⊆⊇     Nesse contexto, perdeste um pouco do teu tempo precioso a dar-lhes resposta.     ⊆⊇     Eu cá ando preocupado porque ainda não procedi àquilo que tenho de proceder     ⊆⊇     mas envia-me por favor, um mail para o endereço aqui deixado, para que dessa forma te possa responder e enviar os dados de que necessitas.     ⊆⊇     Não te esqueças de no dito mail, me enviares todos os dados necessários para o efeito. O preço eu já sei.     ⊆⊇     Falta o resto.     ⊆⊇

         ∇ Aguardando me despeço e inté ∇

  7. 7 Fernando Jorge

    Camarada,

    Se o referido evento fosse para que o Estado Português começasse a usar software Open Source e se tudo se passasse da mesma forma, não haveria concerteza comentários da tua parte,
    Começo a perceber porque é que o software Open Source não conseguiu ainda uma alternativa ao software da MS - parece que vocês passam a maior parte do tempo a criticar uma empresa que como todas as empresas tem qualidades e defeitos, que emprega milhares de pessoas e que contribui de forma muito significativa para o desenvolvimento tecnológico.Não será altura de começarem a empregar os vossos recursos em algo que se traduza avanços tecnológicos?
    Penso que está na altura de começarem a encarar a tecnologia como algo que merece um pouco mais do que criticas vazias.
    Cumprimentos

    Fernando Jorge

  8. 8 boda

    Pois é, mas está a falar de um de um dos maiores filantropos a nivel mundial. Pense nisso quando estiver em casa, já jantado, com o ar condicionado a manter o ambiente fresco e a ver um DVD no conforto do sofá, dê uma passagem pelas páginas abaixo.
    Pode ser que então se faça luz…

    DN Online: Bill Gates doa 575 milhões para vacinar crianças em …
    http://dn.sapo.pt/2005/01/25/sociedade/bill_gates_575_milhoes_para_vacinar_.html

    AidsPortugal - Fundação Bill & Melinda Gates Inicia Estudo da …
    http://www.gatesfoundation.org/default.htm

    AidsPortugal - Bill Gates Doa 1 Milhão de Dólares ao Programa …
    http://www.aidsportugal.com/article.php?sid=2843

    Bill Gates doa US$ 7 milhões para pesquisa de saúde
    http://br.news.yahoo.com/050614/25/uun4.html

    Bill Gates doa US$ 750 milhões para vacinação infantil
    http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/story/2005/01/050125_billgatescl.shtml

  9. 9 pTd

    Caro Fernando Jorge, este é um blogue de um homem só, não corporativo e muito menos grupal. Se tem críticas a fazer aos defensores do open source, este NÃO É o local indicado.

    «Não será altura de começarem a empregar os vossos recursos em algo que se traduza avanços tecnológicos? Penso que está na altura de começarem a encarar a tecnologia como algo que merece um pouco mais do que criticas vazias.»

    Importa-se que pergunte que tem isso a ver com o Grandioso Evento Promovido Em Portugal Pelo Homem Mais Importante Do Mundo? Ou com este meu texto? A sua sim — é uma crítica vazia e destituída do menor interesse.

    Caro “boda”: o maior filantropo do mundo é também o maior monopolista do mundo e o mais rico do mundo. Se acha que isso faz dele alguem especial… eu não acho. De todo. O total doado pela fundação Bill and Melinda Gates é equivalente a sensivelmente 10% da capitalização bolsista da Microsoft. Como diria o meu enteado Pedro, meras despesas de marketing. Naturalmente dedutíveis. Claro.

    Apesar de, ao contrário dos incréus que vêm em Gates uma espécie de semi-deus da modernidade, não achar nada de particular em doar a percentagem da fortuna que Gates doa, tenho no entanto pelo homem o que considero ser o respeito merecido por se importar em contribuir para algumas causas que ele considere importantes (eu não escolheria as mesmas).

    Mas não foi de filantropia que aqui falei. Nem sequer menosprezei Bill Gates. Se ataquei algo, foi o parolismo português. Como se comprova pelos comentários (nos quais participo), acertei em cheio.

    Não percam: http://www.smh.com.au/articles/2005/07/15/1121429358835.html

  10. 10 Fernando Jorge

    Pela resposta dada direi mesmo que acertaste na mouche :) - Uma evidência destas….

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