Blogs, Expresso e Paulo Querido: resposta a duas discordâncias
publicado 21 Agosto 2005 em Geral.Pediu-me Jorge Vaz Nande que me pronunciasse sobre as duas dúvidas que teve ao ler o meu artigo deste sábado no Expresso. As dúvidas, ou discordâncias, dele podem ser lidas aqui. Seguem as respostas na entrada estendida, para não desfear aqui a página de entrada.
Primeiro, o que eu escrevi no lead foi, cito: «Já representaram a faixa intelectual do país. Com a cultura, o futebol e o sexo, os blogues popularizam-se».
Ao contrário do que sugere a leitura do post de Vaz Nande, o lead não realça portanto que os blogues tenham deixado de representar a faixa intelectual do país. Não há descontinuidade nem ela é sugerida no meu lead. A faixa intelectual continua representada. Acontece é que há agora mais “faixas” representadas, estando a blogosfera a popularizar-se.
Lamento desiludir Vaz Nande e quantos, como ele, gostavam que a blogosfera continuasse a dar ao público uma garbosa imagem da faixa intelectual do país, mas deram e já não dão. Dificilmente se podem considerar autor e leitores de blogues como o Gatas QB, campeão do último semestre tanto nos sitemeters como nos technoratis, como pessoas que têm «gosto quase exclusivo pelas coisas da inteligência».
Convém avisar que, ao contrário deles, considero este fenómeno como benigno para a blogosfera (agora mais perto da vida no mundo dos átomos) e até libertador para os intelectuais dos blogues. Não emiti opinião no Expresso porque não é esse o meu contrato para aquele espaço.
Segundo, reina a maior das confusões por aí. Vaz Nande começa por nos levar em sucessivos erros. Não fui eu a “pontuar” os blogues, limitei-me — se é que a palavra é usável no contexto… — a coligir e juntar, comparando, os dados do Sitemeter. É duplamente falsa a afirmação: «Paulo Querido, embora não o mencione, guia-se pelo seu Blogómetro». Duplamente porque:
a) não me guiei pelo Blogómetro. (Embora o pudesse ter feito porque os dados dele constantes são os dados reais recolhidos do Sitemeter e estão mais de dois anos deles registados. Não o fiz porque era mais simples para o efeito ver um por um os Sitemeters de cada blogue e registar os dados numa folha de cálculo.)
b) O Blogómetro não é meu. (Ou por outra, o Blogómetro é tão meu quanto o blogue A Peste é do Blogspot. Limito-me (se é que devo usar o termo) a dar-lhe guarida, conforme me comprometi perante a audiência do Primeiro Encontro Nacional de Weblogs que decorreu na Universidade do Minho vai fazer dois anos em Setembro. Escrevi todo o código que permite elaborar a lista e introduzi, para o arranque, uma centena de blogues (que fui buscar na altura, como toda a gente, à blogroll do Aviz, que era quase a blogroll oficial da blogosfera…). Desde então foram introduzidos pelos próprios autores mais de 700 novos blogues.)
Não comentarei o facto de o Blogómetro não ter mais que um valor indicativo porque não é preciso comentar a verdade. (Recordando en passant que o blogue Murcon, que para Vaz Nande é representativo, não entraria no top 20 do Blogómetro e nunca teria sido levado em consideração para o artigo do Expresso.)
Sobre a fiabilidade no Sitemeter, que é pouco superior a zero na minha opinião (tenho vindo a descrer nele ao longo dos tempos), há que destacar o seguinte: é a única ferramenta de que dispomos para comparar dados entre blogues e perante uma amostragem significativa no tempo (um ano) e na dimensão (12 blogues, sempre os mesmos) penso que podemos tirar conclusões gerais sobre tendências e posições relativas. Mais que isso, não arrisco.
Quanto ao Hollywood e à minha extrapolação, é claro que a posso explicar e fá-lo-ei de seguida, não sem antes fazer uma declaração: não caberia a seguinte explicação nas páginas do Expresso.
As estatísticas no sítio, como é o caso das estatísticas relativas aos blogues alojados no weblog (http://weblog.com.pt/estatisticas/), são mais fiáveis (não me responsabilizo por más leituras desta parte) que as estatísticas elaboradas remotamente. Blogues como o Afixe, o Terceiro Anel, o Xupacabras e o BdE(II) surgem com melhor sitemeter que o Hollywood, mas nas estatísticas internas este bate-os por muito; com alguma atenção a ambos os números ao longo do tempo e sobretudo ponderação na análise, é possível estabelecer, com razoável grau de certeza, que factores de distracção (desconhecidos, porque o Sitemeter nada revela sobre o seu sistema) impedem a correcta apreciação dos valores de alguns blogues, desvalorizando sistematicamente uns e valorizando sistematicamente outros.
(Não referi no Expresso, nem referirei aqui, o Troll Urbano, segundo da lista interna, porque só recentemente apareceu no topo da lista e ainda estou - precisamente! - a ponderar o seu súbito aumento.)


Paulo, a isto ser ser verdade: “de cinema, poesia, futebol e erotismo, francamente! Há muito que há na
blogosfera mais que isso. E não é por ter desaparecido o barnabé que blogues políticos de qualidade deixaram de existir. Estamos é em férias.
E nada de histórias de pseudo-intelectualidades. Isso é medir pilinhas. Por favor!
Um abraço.
Caro Golfinho: trata-se de duas respostas a duas dúvidas. Ninguém está a medir pilinhas.
Sinceramente, este tipo de coisas transcende-me. Quer pelo desconhecimento que sugere do que é o mundo real (e podem inserir aqui as habituais parábolas sobre torres de marfim, ou, como num anterior comentário, sobre dimensões de torres), quer pela contínua miopia dos pseudo-intelectuais do nosso país que, enquanto continuam a achar que são os primeiros a tirar pleno partido da Internet para divulgar as suas idéias (e se imaginam montados num alazão cibernético a desafiar Adamastores que só eles vêem), caem na mesquinhez tipicamente portuguesa de usarem a pestilência dos seus argumentos para fomentar o descrédito daquilo com que não concordam, ou que não lhes convém.
Mas vá, demos-lhes razão. Voltemo-nos portanto novamente para o umbigo da política, e aguardemos que de lá saia a salvação da “blogosfera”…
Que blog é esse tal Hollywood? “O blog mais lido do espaço português”?! Nunca tinha ouvido falar dele… nem lido. Mas deve estar-lhe agradecido. Aliás, como o negócio das GatasQB…
Contrapor à “faixa intelectual do país” a “cultura” foi um lapso do Paulo Querido. Só pode ter sido. Senão, como pode acusar outros de misturar alhos com bugalhos, quando é o Paulo Querido que o faz? Nota-se também alguma nostalgia com o fim do muito visitado Barnabé (os posts em catadupa eram lidos, logo a começar, pelos inúmeros autores do blog…), retirando assim visitas ao weblog. Certo?
Caro L, quem é você? Nunca ouvi o seu nome… nem lido. Isso significa alguma coisa?
Hollywodd é um excelente blogue, passei a noite dos últimos òscares “acordado” com o autor deste lado. Fez um excelente trabalho. Sem esse tipo de blogues não havia interacção comoinfelizmente não existe com certos supra-sumos acríticos de cinemas da nossa praça. O Miguel tem muita qualidade!
O Hollywood fica claramente triste por existirem muitos bloggers que não perceberam o artigo do Paulo Querido.
Não se trata do Hollywood ser o mais visitado ou melhor que qualquer outro blog. Sinceramente isso é-me indiferente, não é nem de longe nem de perto a razão de existir do blog. Fico é incomodado com a reacção de tanta gente a um blog que provavelmente nunca leram por não ser um blog pretencioso, umbiguista e que ambiciona viver sob a passadeira da fama. O Hollywood é um blog para os amantes de cinema, para aqueles que gostam de se manter informados diariamente sobre o que se passa no universo cinematográfico. E se tem muitas visitas (mais ou menos que todos os outros) isso não importa. O que importa é que existam pessoas como o Golfinho que não se importam de passar por lá a dar uma espreitadela e que também respeitam o meu trabalho, ou pessoas como o Paulo Querido, provavelmente o maior especialista em internet que por cá anda, que teve a gentileza de citar o blog no seu artigo.
Quanto aos meus outros colegas da blogosfera - apesar de tudo este espaço é ainda microcósmico por isso, famosos ou não, considero-nos a todos como colegas - tenho pena daqueles que perguntam em tom quase insultado “quem é o Hollywood?” como o Pacheco Pereira insinua, entre outros, e agradeço as visitas, os comentários, enfim, a interação dos restantes.
A todos um abraço
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