Porque não escrevo sobre a esquerda

PORQUE NÃO ESCREVO SOBRE A ESQUERDA. A esquerda portuguesa esta década está estruturada e solidificada. Melhor ou pior, passou a crise dos anos 90, crise ideológica (com o fim do muro), crise política (com a míngua de poder e, depois, o claudicar guterrista). Para mais chegou ao poder na sua versão capaz de lá chegar. Logo, tornou-se absolutamente desinteressante para mim (já a direita, eheh, que espectáculo vai ser o regabofe pós cavaquista, a avaliar pela truculência dos escrevinhadores que vão aquecendo os motores aqui pela blogosfera).

Hoje a esquerda está bem assente nos seus três eixos. O eixo pragmático, de que Blair em UK, Zapatero em Espanha e Sócrates por cá são bons exemplos. Só se chega ao poder, e se governa, com a dose de pragmatismo que se confunde com o “centrão” político (que na realidade é outra coisa). Numa democracia estável não há lugar a grandes experiências: governa-se para os lobis, sendo o povo um deles, o maior e mais poderoso na altura do voto, mas irrelevante nos períodos entre eleições.

O que resta do eixo ideológico, convertido às causas minoritárias ou como tal apreendidas, modernizado embora com uma fluidez que torna os seus representantes em dínamos mediáticos. O que perdeu em votos ganhou em representação mediática e por aí exerce a influência que pode. Uma espécie de CDS, mas útil para a sociedade porque puxa a brasa à sardinha das pessoas e não dos negócios.

Há uma sub-categoria aqui, entalada (passe a expressão) entre pragamáticos e ideológicos, e que é, afinal, o viveiro de talentos que permite ganhar as eleições. Conhecida por “esquerda-caviar”, que é um nome tolo ou não viesse dos seus espelhos da direita, activa os neurónios entre salões literários com saltada (real e virtual) às melhores livrarias de Londres, Paris Roma e Nova Iorque (o antigo eixo da moda é no século XXI o berço da pós-modernidade de raíz tecnológica). Cultos e civilizados, cedo perceberam o que a blogosfera é: os mais ocupados simplesmente deixam-na, os ociosos por cá continuam a fazer a resistência possível ao inexorável avanço das correntes desumanistas.

Temos ainda o eixo invisível: indivíduos que prosseguem as suas vidas assentes nas mesmas convicções que tinham (eles e os seus antepassados) quando as ideias de transformação da sociedade eram apelativas. São rochedos sólidos que continuam nas associações a lutar pela melhoria das condições dos seus pares — mesmo numa época em que a palavra solidariedade é um anacronismo.

Estão bem e recomendam-se, os três eixos e um nicho da esquerda. Ainda que desejassem uma vitória do seu lado, é inegável (e a maioria sabe-o, no íntimo) que Cavaco é melhor para o futuro a curto e médio prazo da esquerda. Uma incrível vitória de Soares sentaria a maioria de Sócrates num barril de pólvora com vinte cães a acenderem fósforos à direita e toda a esquerda paralisada a olhar o Grande Herói Passado — com a garantia suplementar de uma inevitável vitória do PSD nas próximas legislativas interrompendo o desejado ciclo de dois mandatos Uma vitória de Alegre significaria um novo período de clivagens e turbulência, pois era o equivalente a promover as mulheres e homens do Nicho e o purismo intocado do eixo invisível, o que só poderia atrapalhar a governação sem deixar de perigar as legislativas seguintes. Ora, quem no seu perfeito juízo deseja tais coisas, como agitação social, turbulência política e indefinição económica? Não a esquerda no poder executivo, certamente!

Como se conclui, não há nada de interessante, ou novo, à esquerda. Quanto à direita, pelo contrário… Os dois partidos tradicionais estão sentados sobre o vespeiro liberal e com Cavaco definitivamente fora da cena partidária, abre-se caminho a qualquer homem, arrivista ou vulto. Afastada dos cofres do Estado, reduzida a um papel que nunca decorou, o de corta-fitas, porta-estandarte e entregador de medalhas (o PR é uma espécie de guarda-redes do regime, não faz nada o jogo todo mas tem de estar atentíssimo para intervir do jeito certo na jogada que vai decidir o desafio), a direita vai passar os próximos anos a olhar-se ao espelho e a fazer as piores perguntas sobre os pêlos que crescem no queixo.

Ora, querem coisa mais interessante para seguir?

  1. 1 patrick blese

    Caro Paulo,
    Peço desculpa por usar este meio mas gostaria de lhe deixar uma questão:
    Verifico nos últimos tempos que quando faço links para outros blogues, o blogseach, o technorati e o google blog search, nunca fazem referencia a isso , o q na prática origina q não se possa estabelecer “comunicação” com outros blogues.
    É capaz de me fazer o favor de explicar pq é q isto sucede?
    Muito obrigado e cumprimentos,

  2. 2 Cleavage Fan

    “mas útil para a sociedade porque puxa a brasa à sardinha das pessoas e não dos negócios”

    Porque raio é que os negócios (com está implicito) não são boms para as pessoas? Que visão tão mesquinha e absurda!

    Será que o facto de a empresa onde eu trabalho fazer negócio (bons negócios) não é bom para mim? Não será obvio que esse simples facto (e pelos vistos maquiavélico) é o único que me permite obter um salário. Não é óbvio que quanto mais empresas houver a fazer negócio (bons negócios: lucrativos) mais pessoas há ganhar salário. E não é isso bom para a sociadade?

    É por causa desta ridicula visão do mundo que diaboliza os negócios e o lucro que eu não posso ser de esquerda!

  3. 3 Paulo

    Caro patrick blease, tratarei disso por mail.

    Caro Cleavage Fan, a ridícula visão é exclusivamente sua, ao concentrar a sua ira exclusivamente num fragmento do discurso. É por causa de burros como você que não posso ser de direita.

  4. 4 André Carvalho

    Excelente post! Não concordo com algumas coisas que diz, mas não deixa de ser um excelente post. É uma das visões possiveis [fundamentadas] da realidade política nacional.

    Tem partes extremamente crueis, mas que infelizmente são verdadeiras: «Numa democracia estável não há lugar a grandes experiências: governa-se para os lobis, sendo o povo um deles, o maior e mais poderoso na altura do voto, mas irrelevante nos períodos entre eleições». É duro ouvir as verdades de uma forma tão simplificada.

    Considera que a esquerda portuguesa já superou a crise ideológica dos anos 90? Não sei?! Realmente quem ouviu a entrevista hoje ao Louça na RTP1 pode ser levado a pensar que já se rendeu aos “encantos” do mercado, mas soa-me a falso. Ou muito me engano, ou aproxima-se a hora do canto do cisne do BE.

    O PCP, apesar do excelente trabalho de Jerónimo, continua com aquela conversa dos reacionários que se querem vingar do 25 de Abril, quando os unicos reacionarios que conheço que têm contas a prestar com o 25 de Abril, são precisamente os comunistas.

    Ao contrário do que diz, o Sócrates não é bom exemplo de nada, e o PS já nem sequer se distingue do PSD. Por aproximação do PS à direita, claro está!

    Mas concordo plenamente que Cavaco não é nenhuma ameaça a este governo, bem pelo contrário.

    Bem… já vai longo o que deveria ser um simples comentário.

    Abraço,

  5. 5 Paulo

    Caro André Carvalho, o PS já não se distingue tanto do PSD e o PSD já não não distingue tanto do PS… Penso que a aproximação é mútua, na tentativa de govern…ops, ocupar o “centrão” que agrada a mais gregos e troianos. Não vejo mal algum nisso. É o pragmatismo democrático no seu melhor.

    Um abraço

  6. 6 Cleavage Fan

    Caro Paulo,
    Pensava que só os broncos de direita é que recorriam ao insulto. Afinal o insulto é também a arma dos broncos de esquerda. Que ainda por cima escolhem o insulto para evitar explicações(será que é porque não conseguem explicar).
    É verdade que o “discurso” é longo e eu só comentei um “fragmento” mas o “discurso” é composto por vários “fragmentos” e se os “fragmentos” não são explicáveis e justificáveis, o “discurso” deixa de ter fundamento.
    Aquele “fragmento” é precisamente o “fragmento” que me preocupa no “discurso” dos idealistas de esquerda e pelo vistos devo continuar preocupado porque os idealistas de esquerda não o conseguem explicar. Preferem insultar.

  7. 7 Paulo

    Caro Cleavage Fan, desconheço se o insulto faz parte das armas de defesa da esquerda contra a pesporrência. Das minhas, faz.

  8. 8 Cleavage Fan

    Caro Paulo,
    A violência é a arma dos fracos! (Algém o disse e é verdade) O insulto é, na “blogosfera” o equivalente (se não um sinónimo) da violência!

  9. 9 Paulo

    Caro Cleavage Fan, para anónimo não está nada mal, não senhor.

  10. 10 Fatima Cordeiro

    Caro Paulo: fez uma óptima análise do que é a esquerda!
    Compreendo que ache a observação de Cleavage Fan ridicula (porque é) mas era escusado o insulto.

  11. 11 Paulo

    Cara Fátima Cordeiro, obrigado. Quanto aos insultos, vamos ficar por aqui :)

  12. 12 Cleavage Fan

    Caro Paulo,
    Saber que o anonimato na blogosfera é politicamente incorrecto torna-o ainda mais interessante. Aliás, o anonimato é um problema meu e não um problema das minhas opiniões (ainda que, sem a necessária fundamentação, apelidadas de rídiculas).
    Convem também não esquecer que o “voto livre e secreto” é o fundamento de qualquer democracia digna desse nome.

  13. 13 Paulo

    Caro Cleavage Fan, a sua opinião é absolutamente desinteressante aos meus olhos, porque eivada de ódio a uma parte substancial da humanidade. Ao contrário do que diz, o anonimato não é politicamente incorrecto na blogosfera. Nem me parece que seja um problema pessoal, excepto quando gostávamos de assumir a nossa identidade e não podemos por, por exemplo, o patrão (esse sábio que faz negócios e sem o qual você não teria como comer, pelos vistos) não gostar, ser do tipo castrativo. Por último, este blog é apenas um blog e não uma sociedade democrática onde as opiniões valem em função do número de “votos” que recebam.

  14. 14 Cleavage Fan

    Caro Paulo,
    Reli o meu primeiro comentário e confesso que não encontrei lá o mais pequeno sinal de ódio. Muito menos “a uma parte substancial da humanidade”.
    tenho concluir que o ódio a que se refere é um delírio ou então um preconceito.
    Já agora, o meu patrão (e os outros patrões como por exemplo o Paulo), não são “sábios” só porque fazem negócios. Não são também demónios só porque fazem negócios. Eu não sofro de nenhum desses preconceitos.

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