Porque não escrevo sobre a esquerda
publicado 29 Novembro 2005 em Geral.PORQUE NÃO ESCREVO SOBRE A ESQUERDA. A esquerda portuguesa esta década está estruturada e solidificada. Melhor ou pior, passou a crise dos anos 90, crise ideológica (com o fim do muro), crise política (com a míngua de poder e, depois, o claudicar guterrista). Para mais chegou ao poder na sua versão capaz de lá chegar. Logo, tornou-se absolutamente desinteressante para mim (já a direita, eheh, que espectáculo vai ser o regabofe pós cavaquista, a avaliar pela truculência dos escrevinhadores que vão aquecendo os motores aqui pela blogosfera).
Hoje a esquerda está bem assente nos seus três eixos. O eixo pragmático, de que Blair em UK, Zapatero em Espanha e Sócrates por cá são bons exemplos. Só se chega ao poder, e se governa, com a dose de pragmatismo que se confunde com o “centrão” político (que na realidade é outra coisa). Numa democracia estável não há lugar a grandes experiências: governa-se para os lobis, sendo o povo um deles, o maior e mais poderoso na altura do voto, mas irrelevante nos períodos entre eleições.
O que resta do eixo ideológico, convertido às causas minoritárias ou como tal apreendidas, modernizado embora com uma fluidez que torna os seus representantes em dínamos mediáticos. O que perdeu em votos ganhou em representação mediática e por aí exerce a influência que pode. Uma espécie de CDS, mas útil para a sociedade porque puxa a brasa à sardinha das pessoas e não dos negócios.
Há uma sub-categoria aqui, entalada (passe a expressão) entre pragamáticos e ideológicos, e que é, afinal, o viveiro de talentos que permite ganhar as eleições. Conhecida por “esquerda-caviar”, que é um nome tolo ou não viesse dos seus espelhos da direita, activa os neurónios entre salões literários com saltada (real e virtual) às melhores livrarias de Londres, Paris Roma e Nova Iorque (o antigo eixo da moda é no século XXI o berço da pós-modernidade de raíz tecnológica). Cultos e civilizados, cedo perceberam o que a blogosfera é: os mais ocupados simplesmente deixam-na, os ociosos por cá continuam a fazer a resistência possível ao inexorável avanço das correntes desumanistas.
Temos ainda o eixo invisível: indivíduos que prosseguem as suas vidas assentes nas mesmas convicções que tinham (eles e os seus antepassados) quando as ideias de transformação da sociedade eram apelativas. São rochedos sólidos que continuam nas associações a lutar pela melhoria das condições dos seus pares — mesmo numa época em que a palavra solidariedade é um anacronismo.
Estão bem e recomendam-se, os três eixos e um nicho da esquerda. Ainda que desejassem uma vitória do seu lado, é inegável (e a maioria sabe-o, no íntimo) que Cavaco é melhor para o futuro a curto e médio prazo da esquerda. Uma incrível vitória de Soares sentaria a maioria de Sócrates num barril de pólvora com vinte cães a acenderem fósforos à direita e toda a esquerda paralisada a olhar o Grande Herói Passado — com a garantia suplementar de uma inevitável vitória do PSD nas próximas legislativas interrompendo o desejado ciclo de dois mandatos Uma vitória de Alegre significaria um novo período de clivagens e turbulência, pois era o equivalente a promover as mulheres e homens do Nicho e o purismo intocado do eixo invisível, o que só poderia atrapalhar a governação sem deixar de perigar as legislativas seguintes. Ora, quem no seu perfeito juízo deseja tais coisas, como agitação social, turbulência política e indefinição económica? Não a esquerda no poder executivo, certamente!
Como se conclui, não há nada de interessante, ou novo, à esquerda. Quanto à direita, pelo contrário… Os dois partidos tradicionais estão sentados sobre o vespeiro liberal e com Cavaco definitivamente fora da cena partidária, abre-se caminho a qualquer homem, arrivista ou vulto. Afastada dos cofres do Estado, reduzida a um papel que nunca decorou, o de corta-fitas, porta-estandarte e entregador de medalhas (o PR é uma espécie de guarda-redes do regime, não faz nada o jogo todo mas tem de estar atentíssimo para intervir do jeito certo na jogada que vai decidir o desafio), a direita vai passar os próximos anos a olhar-se ao espelho e a fazer as piores perguntas sobre os pêlos que crescem no queixo.
Ora, querem coisa mais interessante para seguir?


Caro Paulo,
Peço desculpa por usar este meio mas gostaria de lhe deixar uma questão:
Verifico nos últimos tempos que quando faço links para outros blogues, o blogseach, o technorati e o google blog search, nunca fazem referencia a isso , o q na prática origina q não se possa estabelecer comunicação com outros blogues.
É capaz de me fazer o favor de explicar pq é q isto sucede?
Muito obrigado e cumprimentos,
“mas útil para a sociedade porque puxa a brasa à sardinha das pessoas e não dos negócios”
Porque raio é que os negócios (com está implicito) não são boms para as pessoas? Que visão tão mesquinha e absurda!
Será que o facto de a empresa onde eu trabalho fazer negócio (bons negócios) não é bom para mim? Não será obvio que esse simples facto (e pelos vistos maquiavélico) é o único que me permite obter um salário. Não é óbvio que quanto mais empresas houver a fazer negócio (bons negócios: lucrativos) mais pessoas há ganhar salário. E não é isso bom para a sociadade?
É por causa desta ridicula visão do mundo que diaboliza os negócios e o lucro que eu não posso ser de esquerda!
Caro patrick blease, tratarei disso por mail.
Caro Cleavage Fan, a ridícula visão é exclusivamente sua, ao concentrar a sua ira exclusivamente num fragmento do discurso. É por causa de burros como você que não posso ser de direita.
Excelente post! Não concordo com algumas coisas que diz, mas não deixa de ser um excelente post. É uma das visões possiveis [fundamentadas] da realidade política nacional.
Tem partes extremamente crueis, mas que infelizmente são verdadeiras: «Numa democracia estável não há lugar a grandes experiências: governa-se para os lobis, sendo o povo um deles, o maior e mais poderoso na altura do voto, mas irrelevante nos períodos entre eleições». É duro ouvir as verdades de uma forma tão simplificada.
Considera que a esquerda portuguesa já superou a crise ideológica dos anos 90? Não sei?! Realmente quem ouviu a entrevista hoje ao Louça na RTP1 pode ser levado a pensar que já se rendeu aos “encantos” do mercado, mas soa-me a falso. Ou muito me engano, ou aproxima-se a hora do canto do cisne do BE.
O PCP, apesar do excelente trabalho de Jerónimo, continua com aquela conversa dos reacionários que se querem vingar do 25 de Abril, quando os unicos reacionarios que conheço que têm contas a prestar com o 25 de Abril, são precisamente os comunistas.
Ao contrário do que diz, o Sócrates não é bom exemplo de nada, e o PS já nem sequer se distingue do PSD. Por aproximação do PS à direita, claro está!
Mas concordo plenamente que Cavaco não é nenhuma ameaça a este governo, bem pelo contrário.
Bem… já vai longo o que deveria ser um simples comentário.
Abraço,
Caro André Carvalho, o PS já não se distingue tanto do PSD e o PSD já não não distingue tanto do PS… Penso que a aproximação é mútua, na tentativa de govern…ops, ocupar o “centrão” que agrada a mais gregos e troianos. Não vejo mal algum nisso. É o pragmatismo democrático no seu melhor.
Um abraço
Caro Paulo,
Pensava que só os broncos de direita é que recorriam ao insulto. Afinal o insulto é também a arma dos broncos de esquerda. Que ainda por cima escolhem o insulto para evitar explicações(será que é porque não conseguem explicar).
É verdade que o “discurso” é longo e eu só comentei um “fragmento” mas o “discurso” é composto por vários “fragmentos” e se os “fragmentos” não são explicáveis e justificáveis, o “discurso” deixa de ter fundamento.
Aquele “fragmento” é precisamente o “fragmento” que me preocupa no “discurso” dos idealistas de esquerda e pelo vistos devo continuar preocupado porque os idealistas de esquerda não o conseguem explicar. Preferem insultar.
Caro Cleavage Fan, desconheço se o insulto faz parte das armas de defesa da esquerda contra a pesporrência. Das minhas, faz.
Caro Paulo,
A violência é a arma dos fracos! (Algém o disse e é verdade) O insulto é, na “blogosfera” o equivalente (se não um sinónimo) da violência!
Caro Cleavage Fan, para anónimo não está nada mal, não senhor.
Caro Paulo: fez uma óptima análise do que é a esquerda!
Compreendo que ache a observação de Cleavage Fan ridicula (porque é) mas era escusado o insulto.
Cara Fátima Cordeiro, obrigado. Quanto aos insultos, vamos ficar por aqui
Caro Paulo,
Saber que o anonimato na blogosfera é politicamente incorrecto torna-o ainda mais interessante. Aliás, o anonimato é um problema meu e não um problema das minhas opiniões (ainda que, sem a necessária fundamentação, apelidadas de rídiculas).
Convem também não esquecer que o “voto livre e secreto” é o fundamento de qualquer democracia digna desse nome.
Caro Cleavage Fan, a sua opinião é absolutamente desinteressante aos meus olhos, porque eivada de ódio a uma parte substancial da humanidade. Ao contrário do que diz, o anonimato não é politicamente incorrecto na blogosfera. Nem me parece que seja um problema pessoal, excepto quando gostávamos de assumir a nossa identidade e não podemos por, por exemplo, o patrão (esse sábio que faz negócios e sem o qual você não teria como comer, pelos vistos) não gostar, ser do tipo castrativo. Por último, este blog é apenas um blog e não uma sociedade democrática onde as opiniões valem em função do número de “votos” que recebam.
Caro Paulo,
Reli o meu primeiro comentário e confesso que não encontrei lá o mais pequeno sinal de ódio. Muito menos “a uma parte substancial da humanidade”.
tenho concluir que o ódio a que se refere é um delírio ou então um preconceito.
Já agora, o meu patrão (e os outros patrões como por exemplo o Paulo), não são “sábios” só porque fazem negócios. Não são também demónios só porque fazem negócios. Eu não sofro de nenhum desses preconceitos.