Jornalistas e presidenciais

JORNALISTAS E PRESIDENCIAIS. Manuel Pinto publicou uma curiosa nota, ao jeito do melhor fait-divers (o melhor fait-divers é aquele que consegue suscitar uma reflexão, seja esta curial ou não, não se esgotando no tema apresentado), sobre o número de jornalistas apoiantes de candidatos. Está aqui, mas eis a síntese:

  • Manuel Alegre - 35
  • Mário Soares - 26
  • Jerónimo Sousa - 7
  • Garcia Pereira - 4
  • Cavaco Silva - 0
  • Francisco Louçã - 0

Desconheço o critério do Manuel Pinto e obviamente não vou confirmar cada um dos nomes pois confio nele; suponho que deixou deliberadamente de fora figuras como Fernando Lima e Miguel Portas. Existe um Fernando Lima com a Carteira Profissional nº 254 revalidada, que desconheço se será o mesmo Fernando Lima que antes da candidatura de Cavaco Silva arrancar foi director do Diário de Notícias, um cargo cumprido a correr, lembrando um jeito de favor prestado a alguém, uma vez que Lima tinha sido nas últimas DÉCADAS assessor do mesmo Cavaco Silva. Quanto a Miguel Portas, não possui carteira profissional válida e desde que faz da política actividade prinicipal nunca mais participou numa Redacção, que eu saiba, limitando-se ao papel de cronista (que não demanda Carteira Profissional).

Estes são os dois casos que me assaltam de imediato a memória, podendo existir outros.

Da lista leio o seguinte: quando emprestam o nome, os jornalistas fazem-no em geral por causas perdidas, de grandeza simbólica mas mais ou menos anódinas. Caem bem e não trazem mal ao mundo ou aos implicados. Raramente um jornalista profissional quererá envolver o seu nome com um partido ou um candidato político vencedores, ou um grupo empresarial à beira de concretizar um grande negócio. A menos, claro, que esteja à procura de um emprego melhor remunerado e faça um favor que depois cobrará.

Outro aspecto curioso: Com uma notória excepção, o número de jornalistas envolvidos parece inversamente proporcional ao número de notícias e espaços dados na imprensa e media aos candidatos “apoiados”. Apesar dos 35 jornalistas “apoiantes”, Alegre é o candidato dos cinco principais com menos notícias nas televisões de cobertura hertziana — e as notícias com ele são as de menor duração.

Queridas “virgens” histéricas que já estão a afinar a garganta para desatarem aos berros nos comentários e por aí em mais posts inflamadérrimos sobre a Imprensa ser de esquerda, antes disso vale a pena lerem, a propósito, esta reflexão do mesmo Manuel Pinto (a quem mando um abraço e um cumprimento especial por estes dois posts).

  1. 1 Manuel Pinto

    Caro Paulo Querido,
    o critério foi exclusivamente a informação constante das listagens das “comissões de honra” ou “de apoiantes” que figuram nos sites das candidaturas. De resto, a Estrela Serrano, em comentário do post inicial, já tnha, também ela, chamado a atenção para o caso Fernando Lima.
    Aradeço e retribuo o abraço e desejo um excelente 2006.
    MP

  2. 2 a.pacheco

    O importante é ver como se distribuem os jornais em termos de candidatos.

    Cavaco tem o apoio DESCARADO dos:

    Diario de Noticias
    Correio da Manha
    Publico
    Primeiro de Janeiro
    Expresso
    Independente
    Semanario

    Esta realidade é que merecia algum estudo, sombre a situação a que se chegou da falta de pluralismo na imprensa escrita.

  3. 3 Paulo

    Caro Manuel Pinto, obrigado pela informação. Sim, tinha reparado no comentário de Estrela Serrano, que de resto me motivou a procurar na Comissão da Carteira Profissional.

  4. 4 moStrenGo adamastoR

    Vejamos o exemplo da RTP, órgão de importância capital para uma campanha eleitoral: temos o Editor de Política que é apoiante de Cavaco (escreveu o último livro deste e é apontado como um dos assessores para Belém), temos a ex-sub-directora que o convidou para o seu aniversário (e ele foi) e que é esposa do dirigente e comentador, temos o actual Director-Geral que é mais Cavaquista ainda que os dois primeiros, todo o Conselho de Administração que é laranja (Sócrates foi ingénuo e não quis pagar as brutais indemnizações) e mais uns quantos chefes (que é coisa que não falata por lá) que mandam e desmandam e por exemplo, só autorizaram reportagens em câmaras sociais-democratas.
    Nenhum deles declarado, claro.

  5. 5 Valdemar Cruz

    Ora aqui está uma questão muito interessante a merecer um debate desapaixonado e despido das hipocrisias habitualmente reinantes na análise deste tipo de situações. Se começarmos pela listas de jornalistas presentes nas Comissões de Honra de diferentes candidatos, talvez fosse interessante perceber qual a razão de alguns púdicos espantos já manifestados. É que ainda não percebi se esse espanto resulta de, afinal, se achar que são poucos os jornalistas que assumem dar a cara por uma opção legítima que se acham no direito de fazer, ou se, pelo contrário, se entende que é um exagero haver tantos jornalistas declaradamente apoiantes de candidatos específicos. Como todos sabemos, especialmente os que trabalhamos em diferentes e importantes orgãos de comunicação social deste país, as redacções estão inundadas de partidários das mais diversas causas. O que não tem nada de mal e eu até acho normal, desde que isso não interfira com a qualidade do trabalho jornalístico. O problema é que uns fazem-no abertamente, outros vestem a conveniente capa de uma suposta independência, com as consequências que todos sabemos, para uns, e para outros. E é aqui que me surge uma outra questão para a qual existem múltiplas respostas, mas porventura nenhuma satisfatória. É razoável pedir-se a alguém que - por ser jornalista - abdique de um dos mais elementares direitos de cidadadania, que é defender uma causa, apoiar um candidato,ou revelar-se simpatizante de um partido? Não é uma questão simples e eu, que nem sequer estou na situação de ter dado nome para inclusão em qualquer espécie de lista de qualquer candidato, também não tenho respostas definitivas. Porém, não deixo de pensar em vários jornalistas que correram enormes riscos pessoais na luta pela liberdade e pela construção de uma sociedade onde possa existir a salutar divergência democrática. E penso noutros, que não tendo idade para ter participado nessas lutas, comungam do mesmo desejo de ter uma sociedade livre e plural. Penso neles e pergunto-me se nessa sociedade não há espaço para que cada um assuma publicamente as suas opções!Sem dramas. Sem capciosos processos de intenção. E não será esse um processo mais límpido e claro? Nem sequer há aqui nada de novo. Toda a gente sabe que, por tradição, os jornais dos EUA dizem em editorial que candidato apoiam. Nem por isso fazem um trabalho menos sério e, seguramente, com isso, aumentam as suas responsabilidades perante os leitores.
    Já agora, para ti, Paulo, o teu comentário coloca o dedo em várias feridas que, assim, me dispenso de comentar.

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