A excelência (ou vou ali já venho)

A EXCELÊNCIA (OU VOU ALI JÁ VENHO). Li que o prémio BES Photo «nasceu de uma parceria entre o BES e o CCB com o objectivo de promover a excelência da arte fotográfica criada por portugueses». Fui ver os finalistas ao CCB. Saí com uma dúvida profunda: ou a cena é absoluto bullshit, ou o júri é composto por autistas.

Talvez haja uma terceira hipótese, admito: os dois jurís, o de selecção e o de premiação, não sendo autistas, serão ratos de exposição, daqueles que não saem das galerias do CCB há anos, não tendo portanto a mais pálida ideia do que andam por aí a fazer fotógrafos de todos os tempos, idades, modos e expressões. Ratos de exposição habituados a “artistas” e portanto desconhecedores de fotógrafos.

No CCB só estão expostos trabalhos dos quatro convidados: António Júlio Duarte, José Luís Neto, José Maçãs de Carvalho e Paulo Catrica. Vamos a eles.

O vencedor, José Luís Neto, tem uma interessante abordagem da imagem: numa inspiração impressionista capta em preto e branco pormenores do rosto humano, repetindo-os em diversos ângulos. Ao ver o primeiro set comentei: este rapaz não gosta de fotografar. Depois passei ao segundo set e passei é a palavra. Passei muito rapidamente, comentando: este rapaz não gosta de nos mostrar o seu trabalho. (Razão eventual para o juri o ter distinguido? Especulo.) Uma convicção tive: dos quatro finalistas, o vencedor é o que tem a menor relação com a fotografia — estejamos a falar de técnica, de reportagem, de manipulação do real, de provocação, de experimentalismo, até mesmo de arte em qualquer dos sentidos que possa ter a arte fotográfica.

Neto pode (vir a) ser um bom artista plástico; nunca será um grande fotógrafo. Erro de casting, sem dúvida.

Paulo Catrica? Numa palavra: vulgar. Em mais palavras: a escolha irrepreensível da objectiva e da sensibilidade são atributos comuns a algumas centenas de fotógrafos que expõem, pelo que a eleição de Catrica para a final não veio do domínio técnico. Os enquadramentos são de uma vulgaridade rectilínea impressionante: qualquer fotógrafo de casamentos fará o mesmo. No caso do edifício do Expresso, nem é preciso enquadrar: a arquitectura é tão boa que dispare-se para onde se disparar o resultado será sempre bom. Especulo: só havia quatro concorrentes a concurso? Enfim, temos mais um fotógrafo para as revistas das empresas, muito nice and clean.

José Maçãs de Carvalho é interessante. Irreverente. A projecção video (as imagens são as palavras dos analfabetos) vale a deslocação ao CCB e os € 3,5 do bilhete (preço para não-clientes do BES, algo de que desisti há anos, para grande conforto meu e das minhas contas bancárias). A ideia do projecto Democracia e Imagem é no mínimo curiosa: cada visitante da exposição é convidado a levar uma fotografia emoldurada, estão centenas dentro de caixotes de papelão. Ah, já agora (e porque é de um prémio de fotografia que supostamente se trata): as fotos dele são de qualidade honesta, ainda que variadas, parecendo que jogou a mão ao caixote e foi o que calhou.

António Júlio Duarte seria o vencedor se eu estivesse no juri. É o melhor fotógrafo dos três (desculpem-me mas não consigo ver o artista plástico Luis Neto como um fotógrafo, por muito que queira ser bem educado). Não é bem o meu gosto ou género, mas vê-se à distância que domina a máquina, sabe de onde vem a luz, experimenta ângulos mas sobretudo capta a vida e as pessoas e a força delas — ainda que nas versões violentas, pelo menos nas fotos expostas. Pressente-se um grande fotógrafo, uma carreira, vê-se uma margem de progressão muito animadora.

A segunda edição do BES Photo no Centro Cultural de Belém pretende promover a fotografia. Ninguém diria. Depois de ver a exposição fiquei absolutamente convicto do contrário: o BES Photo pretende despromover a fotografia. Porquê, escapa-me.

  1. 1 zedtee

    Ora, ora… São as capelinhas, pá. ;) Um abraço.

  2. 2 Paulo

    Caro zedtee, é curioso, não me passou tal pela cabeça. A sério. Mas pronto, são as virtudes do sector privado, o BES dá o dinheiro a quem muito bem entender (só me custou ver o Grilo metido naquilo e o Júlio Duarte merecia melhor).

  3. 3 zedtee

    Ah, eu também não discuto os critérios da privada, pelo menos neste tipo de coisas. O meu comentário foi só assim como que uma chamada de atenção para a realidade do país. O que é inaceitável é que nas iniciativas do Estado aconteça o mesmo…

  4. 4 Paulo

    Sim, eu percebi-te ;)
    O que podemos (sociedade “civil”) fazer é comentar o que consideramos ser a validade destas coisas. É uma questão de opinião e estou certo que para os envolvidos no BES Photo a minha opinião será irrelevante ou ainda menos (desprezível, por exemplo). Mas esse é um azar deles. Se eu já não achava o BES um banco decente para lá colocar o meu guito, agora passei a achá-lo uma instituição descuidada. As virtudes…

  5. 5 R.Frank

    É muito curioso que se deêm ao trabalho de escrever sobre o que não conseguem entender. Talvez esteja tudo errado…os júris…o BES…o CCB…a fotografia…o mundo lá fora… . Ler as entrevistas do catálogo ou mesmo alguns textos que sairam na imprens ajudava a compreender um pouco mais a exposição para além da impressão imediata e superficial que parece ser tão querida em Portugal. Depois há o percurso dos nomeados, não é a primeira exposição que fazem existem anos de trabalho com instituições públicas e privadas, em Portugal e no estrangeiro. Seria bom pensar em todos estes argumentos para além da impressaõ superficial doutro modo temo que o mundo seja muito pequeno, se tudo o que não entendemos está errado ou é uma conspiração. Melhor seria que houvessem muitos prémios de revelação, de meio de carreira ou de consagração… de fotografia de video de pintura e mais e mais. Para nos fazer acordar para o mundo que é muito maior e muito mais interessante que o que vê á superficie.

  6. 6 Paulo

    Caro R. Frank, quando se começa um comentário por “é muito curioso que se dêem ao trabalho de escrever sobre o que não conseguem entender” está-se mesmo a ver que não se pretende realmente comentar o que se leu. Se por um acaso você gostou da exposição, diga-o abertamente. E porquê. Se não gosta da minha crítica, diga-o abertamente. Mas VÁ PASSAR ATESTADOS DE ANALFABETISMO CULTURAL E DAR LIÇÕES PARA O RAIO QUE O PARTA.

  7. 7 R.Frank

    As suas referências de fotografia são de uma ignorância atroz, confundir o banco com o trabalho dos autores, o júri com o CCB. No minimo antes de comentar leia meu caro Querido, seja um Querido e leia, ler fazia-lhe bem, pelo menos antes de escrever. Não tenha dúvidas quanto a arte contemporânea você é analfabeto porque quer, senão consegue ver porque insiste em escrever. Porque se ofende tanto quando lhe digo que nem se deu ao trabalho de ler o folheto de sala do CCB, doutro modo pelo menos percebia que alguns dos trabalhos evocam realidades mais complexas que aquelas que tenta comentar. Você não comenta meu caro, você inventa, a critica tipo superficial só serve de facto para escrever umas quantas patacoadas do que nem se deu ao trabalho de entender. Para si de facto “As imagens são as palavras dos analfabetos” são sim senhor.

  8. 8 Paulo

    Caro R.Frank, as imagens so as palavras dos analfabetos o melhor daquela exposio, pelo que me honra a forma como finaliza o seu “comentrio”.

    A forma como alude s minhas “referncias” de fotografia, que em absoluto desconhece, so elucidativas do tipo de pessoa que voc aqui insiste em apresentar: um pretensioso “sbio” que, escondido numa capa annima, perora sobre o comum mortal “abaixo” de si na pirmide da cultura e da sabedoria.

    E que dizer da tirada “evocam realidades mais complexas do que aquelas que tenta comentar”! Oh, senhor! Com que ento, temos ali (e aqui) uns iluminados capazes de discernir realidades que o comum dos pacvios (that’s me) no ousa sequer aspirar a.

    Tenho visto rapazolas da sua laia intelectual, oh se tenho, a fingirem-se de importantes. o que h mais nos sales. Encolho os ombros.

  9. 9 Robert Frank

    Eu não menosprezo a sua opinião acho apenas que é que fundada em impressões genéricas e não tenta percerber mais. Se assim fosse tinha outro respeito pelo que viu. Não faço a minima ideia do que faz… eu quando vejo ou oiço um assunto que entendo pouco tento perceber que em primeiro lugar pode estar a minha ignorância em segundo o meu preconceito. Gosto muito de Teatro, mas entendo pouco, gosto muito de Òpera ou de HIp Hop…e tenho poucos conhecimentos. Assim em muitas coisas fico pela impressão genérica que estas me causam e jamais me atrevo a criticar de um modo tão ligeiro algo que de facto não conheço. Mas garanto-lhe tenho um profundo respeito por aquilo que não conheço. Assim não creio que seja mais ou menos iluminado, do que qualquer pessoa, muito menos faço disso uma vantagem, neste caso conheço mais e em extensão porque sou fotógrafo, por isso achei e contínuo a achar que o que escreveu é muito ligeiro e pouco atento. Mesmo que eu possa ou não partilhar uma opinião positiva ou negativa sobre a exposição do BES Photo. Adeus.

  10. 10 Paulo

    Caro Robert Frank, nesse caso acha mal: as minhas impressões sobre o evento ultrapassam largamente o genérico. Fui ver a exposição com grande interesse e um dos trabalhos mereceu-me mesmo muita atenção.

    Não dou para o peditório da especialização — pelo menos não o dou no sentido em que a opinião, quando exercida num meio como a blogosfera, não precisa de assentar num profundo conhecimento histórico e / ou contemporâneo do subject. Aliás, pode até ser contraproducente: espera-se da análise diária (e basta ver nos analistas que os media escolhem, pessoas de bagagem cultural e social vasta mas eclética, capazes do brilho e rasgo (é por isso que são escolhidos) que muitas vezes comentam (porque para isso são pagos) sobre assuntos dos quais nada sabem senão banalidades de enciclopédia.

    Apesar disso, fui fotógrafo amador (com exposições públicas que prefiro omitir, por pudor) mais de vinte anos, sei revelar os meus próprios negativos preto e branco, cor negativo e positivo e revelar, imprimir e esmaltar as minhas próprias fotos. Seria até capaz de bater qualquer fotógrafo profissional em rapidez de revelação num caso de aperto para um jornal, graças a um mestre em fotos para a primeira página com qum aprendi truques dos que não se ensinam a ninguém.

    Apesar disto, não me arrogo qualquer pretensiosismo na análise da qualidade “artística” (blergh) da fotografia — em especial naquilo que é hoje considerado “artístico”. Referi-me negativamente a uma exposição de fotografia que me pareceu equivocada nos objectivos e desiquilibrada nas escolhas.

    Apesar disto, ainda, quero apenas arrogar a minha condição de jornalista profissional há mais de um quarto de século como credencial para ir espreitar uma exposição ao CCB e produzir uma análise crítica despretenciosa, no meu blog pessoal, à exposição propriamente dita e ao que nela vi exposto.

    Assim pelo menos fica a saber o que eu faço.

    Quanto ao profundo respeito pelo que não conheço, estamos de acordo. Respeito um físico nuclear e dificilmente me ouvirá dar uma opinião sobre tal tipo de assunto (já sobre o impacto do traalho e um físico nuclear na sociedade, tenho treino para arriscar umas palavritas). Agora, não respeito um banco que para poupar uns tustos nos impostos patrocina uma exposição que promove de forma enganosa. Garanto-lhe que a “excelência da arte fotográfica criada por portugueses” existe — e não está ali.

  11. 11 Robert Frank

    Respeite também na sua qualidade de jornalista ou apenas simples cidadão os trabalhos que vê, foram escolhidos por um júri independente e foram votados por um júri independente onde se incluiam o Paul Wombell que dirigiu a Photographers Gallery e a Ute Ellskissen que dirige um museu de fotografia na Alemanha. Depois a fotografia são muitas coisas, como sabe, e por isso quando omite a extensão do trabalho dos artistas e os liga á politica do BES não compreendo. Mais prémios houvera e mais polémicas também e Portugal seria mais gratificante. Agora os salões, a laia intelectual e outros palavrões são polémicas do séc.XIX. A critica deve ser construída apartir do conhecimento a sua análise apenas vê a forma. È muito arriscado classificar artistas deste modo, porque gosta mais ou menos, dizer que o Neto não é artista ?? Que o Catrica é vulgar ?? É apenas entender um lado, poderia antes dizer que não consegue ver nada ali. Enfim não creio que a minha mensagem passe porque você se recusa a perceber que não é apenas de fisica nuclear que é dificil falar…. é sobre o trabalho contínuo de anos é sobre a dificuldade de trabalhar em Portugal com instituições culturais. Por isso me dei ao trabalho de alimentar esta discussão para lhe “explicar” alguma coisa, acho que o seu ponto de partida é dificil. E como jornalista deveria ainda construir melhor o seu argumento e perceber melhor o que o Banco tentou fazer, o CCB o mecenato etc…etc. Tem muito de criticável decerto.

  12. 12 evjica
publicidade
Neste momento, a actualidade nacional numa única página
Mercado das Previsõeso jogo da sabedoria das multidões


Editado sobretudo com Wordpress
Desenho de página: trabalho TubarâoEsquilo
derivado do original 3K2Redux klein
Validar XHTML, CSS.
Topo