O que é que me escapou?

Durante meio século XX o “mercado” português foi controlado com mão de ferro por uma ditadura: o país empobreceu mais que os seus vizinhos e os raros empresários que estiveram do lado do ditador fizeram raras e colossais fortunas.

Veio uma revolução e uma década de nacionalizações: o país empobreceu mais que os seus vizinhos enquanto os raros empresários que souberam navegar nas “águas turbulentas” da revolução lançaram as bases dos seus colossais impérios actuais.

Seguiu-se uma década ao melhor estilo liberal, com o país dirigido por um economista de poucas palavras e muita acção: a despeito do autêntico dilúvio de euros vindo da CE o pais empobreceu bastante mais que os seus vizinhos e (os desta vez um pouco menos) raros empresários que souberam estender a mão ao subsídio certo duplicaram o valor dos seus bens.

O presente é chefiado por um socialista liberal carinhoso para com os raros empresários e o país continua a empobrecer mais que os seus vizinhos, enquanto os detentores de capital somam lucros anuais na casa dos dois dígitos.

Apesar disto, um punhado de jovens chegados ou em vias de chegar ao mercado de trabalho reclama “menos peso do Estado” na economia.

Algo me escapou no meio destas décadas. O Estado português gere pior que os “privados” (com ou sem aspas)? Melhor? Será que existe uma solução no “mercado” (com ou sem aspas)? E fora dele? Algo me escapou. O que não me escapou infelizmente foi isto: Portugal continua a empobrecer face aos seus vizinhos.

  1. 1 jcd

    «o país empobreceu mais que os seus vizinhos»

    Caro Paulo, isto não é verdade. Entre 1950 e 1970 Portugal foi dos países de OCDE de maior crescimento. Estava era muito, muito atrás.

    «Seguiu-se uma década ao melhor estilo liberal, com o país dirigido por um economista de poucas palavras e muita acção: a despeito do autêntico dilúvio de euros vindo da CE o pais empobreceu bastante mais que os seus vizinhos»

    Caro Paulo, de 1985 a 1995, Portugal foi a par da Irlanda o país da Europa de maior crescimento, passando de cerca de 55% da média comunitária para 73%. (há várias maneiras de fazer as contas, mas os números não variam muito).

    Parece-me que o erro nos pressupostos invalida a argumentação.

    Um abraço
    jcd

  2. 2 jcd

    «Apesar disto, um punhado de jovens chegados ou em vias de chegar ao mercado de trabalho reclama “menos peso do Estado” na economia. Algo me escapou no meio destas décadas.»

    O que te terá escapado foi que o peso do estado na economia nunca parou de aumentar…

  3. 3 pTd

    Caro jcd, obrigado pelas tuas respostas. Como é hábito enriquecem-me.

    Percebi o que me escapou: estou completamente enganado, zarolho de todo, afinal estamos a ficar mais perto dos nossos vizinhos, eu é que quando vou a Londres e Paris e Madrid devo frequentar apenas sítios chiquérrimos e montes dabsolutamente caros e penso que aquilo é o pais real deles quando manifestamente não é, os relatórios provam-no. Este fim de semana vou aos Açores, como é por cá levo as lentes velhas; mas em Abril vou à Galiza e ao ex-Leste europeu já com lentes novas, a ver se descortino a proximidade de riqueza económica e social que manifestamente me tem escapado (é das lentes,of course!). Esses devem ser dois bons sítios ;)

    Um abraço, João.

  4. 4 jcd

    Paulo, podemos sempre brincar e, evidentemente, há sempre quem esteja melhor e quem esteja pior.

    Na média o país melhorou. Cresceu muito mais do que a Europa durante a década de 60, pouco mais (alguns anos menos) até 1985, muitíssimo mais até 91, menos em 92-93, um pouco mais até 96, estagnou até 99 e tem vindo a cair desde então.

    Mas claro, podes sempre teorizar conceptualmente sobre a história económica e do bem estar dos portugueses e acreditar noutros cenários.

    Saudações sulistas e liberais
    jcd

  5. 5 pTd

    Caro João, evidentemente, há sempre quem esteja melhor e quem esteja pior. Se falas de acreditar, olha, eu não acredito que a liberalização selvagem (chama-lhe tu total, se quiseres) do mercado seja uma coisa boa para a economia. Também não acredito nas virtudes (??) da centralização estatal. Não me importava nada com um modelo de mercado com regulação efectiva que resultasse nos países latinos (são, somos diferentes dos escandinavos). Não sei muito bem qual é o caminho para lá chegar e tenho fortes dúvidas que este país lá chegue algum dia. Na minha triste opinião, o país desaparece antes.

    Um abraço sulista e lagarto (a palavra liberal hoje anda com conotações esquisitas, desculpa lá).

  6. 6 pTd

    Caro João, desculpa voltar à vitela tépida, mas lembrei-me de uma das Grandes E Óbvias Verdades Que Me Acompanham Há Um Quarto De Século: todos os portugueses, and I mean TODOS, deviam viajar para fora do país pelo menos uma vez por ano. Teriam uma opinião mais fiel de si próprios e do seu país. Como é óbvio.

    Abraço

  7. 7 Jorge A. S.

    Perdoem-me a intromissão. Sem querer polemizar, a mim também me escapam certas coisas…argumentar invocando taxas de crescimento entre 1950 e 1970 e 1985 e 1995 é um pouco como afirmar que o meu irmão cresce mais do que eu porque eu tenho 45 e ele 10…é redutor, é pouco sério e não explica por que razão é que Portugal se encontra numa situação mais difícil do que outros países.

    Estou fora praticamente desde a adesão à então CEE, assisti estarrecido à torrente de dinheiro que entrou no país e ao autêntico regabofe que se lhe seguiu…a Irlanda investiu na educação (…a Irlanda já investia na educação na fatídica época em que os irlandeses só comiam batata poruqe não tinham mais nada…) e nós no betão e na ostentação. É frustrante assistir aos exercícios de branqueamento do desempenho de algumas das celebridades que vicejaram nessa época. Citá-los seria monótono. Destaco apenas o actual Presidente da República. Homem de estado?… Pobre país. A História comfirmará a dimensão do embuste…espero estar enganado, daria de bom grado a mão à palmatória…

  8. 8 CúDeJudas

    «TODOS, deviam viajar para fora do país pelo menos uma vez por ano. Teriam uma opinião mais fiel de si próprios e do seu país. Como é óbvio.»

    Não resisto a enfiar esta alfinetada em cima desta frase do Paulo…

    Meu caro, há cada vez mais portugueses a viajar para o estrangeiro ( e quem diz portugues, diz europeus, basta consultar as stats sobre esse assunto), e a razão para esse facto tem muito mais a ver com liberalismo e mercadp do que com as coisas com que o Paulo teimosamente defende.

    Pois todos nós sabemos que companhias como a EasyJet e a Ryanair são companhias malditas e demoniacas, que regularmente (Será medo? encomenda? comichão?) são notícia nos “jornais” e restante “comunicação social” pela exploração dos seus trabalhadores.

    sic:

    Algarve:
    590 mil passageiros utilizaram companhia ‘low cost’ em 2005

    Europa:
    Low cost: quase 140 milhões de passageiros em 2005

  9. 9 pTd

    Caro CúDeJudas, o número de portugueses que podem pagar um bilhete de avião é felizmente maior que a quantidade de neurónios que usou para escrever a sua alfinetada, mas manifestamente menor que o alvo que aconselhei: TODOS. O resto é a sua insinuação sobre o que eu “teimosamente” defendo. A seguir vai publicar que eu tenho cartão de militante do PC? Omitindo cuidadosamente qualquer das minhas referências à regulação, para citar um exemplo deste mesmo post, como é evidente.

    É irrelevante que eu não seja do PC, ou mesmo do PS, BE ou parente próximo ou afastado.

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