A crise e a imprensa
publicado 3 Abril 2006 em Sem categoria.A imprensa está em crise? Há alguma euforia por aí nos blogues cujos autores simplesmente odeiam os jornalistas (e alguns não o escondem há décadas)… mas digamos que as notícias da morte dos jornais são largamente exageradas.
«Newspapers’ online audiences are growing rapidly, according to a new industry study, highlighting a key growth area that newspapers are seeking to exploit as print circulation continues to be challenged.
A study being released Monday by the Newspaper Association of America, a trade group, found that one in three internet users — 55 million — visit a newspaper website every month» (Fonte: Wired. Estudo da NAA, link.)
Como se sabe já há algum tempo (os atentos, desde pelo menos 1994) a mudança tecnológica acarretaria mudança de hábitos de consumo de informação e lazer. Não é preciso recuar tão atrás como a McLuhan, basta ir aos ensaístas da década de 90 para perceber aquilo de que hoje fazemos todos parte integrante: a infoesfera digital que nos rodeia tornará media anteriores obsoletos, uns mudam de função e outros à reforma nos museus.
Por cada leitor a menos no papel a imprensa tem um leitor a mais (pelo menos) no digital em linha.
A verdadeira crise não é da imprensa propriamente dita, em meu entender, mas do seu suporte económico. É uma crise de modus operandi, não uma questão filosófica, estou em crer. A empresa da imprensa tem vindo a mudar, adaptando-se aos tempos modernos, desde que existe… Nada indica que não faça precisamente o mesmo, perante um novo desafio. Que nem sequer é um desafio incompreensível: a capacidade de análise colectiva existente num jornal como o Público ou Expresso, da sua redacção à sua direcção à sua administração, é capaz de reconhecer o problema e lidá-lo.
Idem aspas para a publicidade, veja-se a forma criativa como as marcas que mais dependem do marketing andam a experimentar novas aproximações e a testar os formatos virais que a rede permite e potencia.
A propósito, lembro-me sempre de uma história muito, muita antiga, mais antiga que a minha entrada na profissão. A MAN, máquina rotativa que, no Diário Popular (comprada, se não estou em erro, ao tempo do tio de Francisco Pinto Balsemão na administração), servia para imprimir A Bola, o campeão de vendas da altura com quase 200.000 cópias à segunda-feira e nas quintas-feiras subsequentes às noites europeias do Benfica, ia ser substituída. Era uma grande mudança: do chumbo e dos tipógrafos de mãos sujas para o off-set e linotipistas de punhos de camisa. Muitas vozes vaticinaram na altura o fim d’A Bola. O assunto foi discutido nas tertúlias, que na altura coincidiam com a boémia bairroaltina.
Claro que A Bola continuou viva. Calculem que até sobreviveu à mudança tecnológica seguinte, mais lata, do off-set para o desktop publishing, da máquina de escrever para o computador, do telex para o fax para o email, da foto a preto e branco para a fotografia digital.


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