Ainda o tom (o meu, sem aspas) dos blogs
publicado 4 Maio 2006 em Sem categoria.Caro LuÃs Carmelo, o seu seriado o “tom” dos blogs (porquê as aspas? tom é inflexão, maneira particular de expressão, acento, teor) é um bom exercÃcio sobre o novo espaço público comunicacional, colocando umas questões no ângulo certo e outras dissonantes, na minha modesta opinião. Concordando que os blogs não procuram a verdade mas sim um tom, o seu (de cada um) — ou a identidade discursiva, ou ainda o posicionamento público (daà a vantagem que algumas estrelas mediáticas detém na blogosfera pois já sabem posicionar o discurso público) –, permito-me intrometer-me desta vez no assunto propriamente dito e não numa das suas margens (e já lhe respondo à pergunta concreta que me deixou).
O canadiano Marshall McLuhan é sempre um bom aconchego intelectual nestas alturas, pela proximidade com a nova cultura mediática em rede que antecipou como nenhum outro autor (que eu tenha lido). Até certo ponto o meio (os blogs) constitui grande parte das mensagens nele veiculadas, confirmando McLuhan. A importância do elo, do link, enquanto parte da comunicação é uma forma elaborada de articulação social e trará numa sociedade de informação em rede instantânea uma nova construção do nós, uma nova hierarquia, totalmente distinta das hierarquias sociais, culturais e até polÃticas que tivemos até agora (e também novos truques para subir-descer as escalas, um social-climbing de outra dimensão).
[Em bom rigor, o elo sempre foi crucial: diz-me onde nasceste, dir-te-ei se a tua palavra tem valor no meu reino. Ainda hoje, e na blogosfera para não sairmos dela, alguns continuam a achar-se acima de outros com base nos seus antepassados e (o que mais me espanta) aguardam vassalagem por parte dos nós de uma rede que está a anos-luz dessa forma de História; e reproduzem na rede o tecido de ligações polÃticas e familiares que pensam trazer como bagagem.]
Mas só até certo ponto. A verdadeira revolução (que é desmoralizadoramente IMPACTANTE) é proporcionada pela velocidade da luz a que agora se processa o sistema de referenciação. Estabelecer uma rede de confianças levava anos, gerações até, e agora demora um mês (e amanhã, menos?). O talento de impressionar o outro é aqui mais puro, no sentido em que depende menos de factores como o passado (o que fizeram os nós da rede antes de nós). E mais da nossa habilidade com a palavra — ou com a ferramenta de ligar nós de rede.
Por outro lado a ferramenta blog (a auto-edição acessÃvel verticalmente a leigos e cultos, a oprimidos e opressores, a “gregos” e a “troianos”) trouxe para a luz milhares de autores à procura do tom mas enquanto conjunto tecnológico também serve outras finalidades. Pululam hoje no que ainda consideramos o mesmo espaço diversos futuros: em breve (quando tivermos mecanismos apropriados) separaremos os blogs por géneros e poderemos evitar os indesejáveis, consoante a perspectiva do olhar, e entre esses géneros estarão, claro, os blogs de autoria individual, como os que citou, mas também espaços construÃdos em torno de um objectivo comum. Que nalguns casos poderá ter contornos de cidadania, de intervenção na vida comum, e noutros de busca da verdade (descendentes dos actuais jornalistas / investigadores de várias origens).
A minha intromissão acaba aqui, esperando pelo quarto número da série.
Quanto à sua pergunta, deixe-me esclarecer antes de responder: a minha não era uma perspectiva algo ressentida. A resposta: sim, podia ser de outro modo, não seria a primeira vez, e por isso mesmo agradeço ter sido deste modo. Um abraço.


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