Quantos somos?
publicado 1 Junho 2006 em Geral.Luis Carmelo tem vindo a publicar no Miniscente uma notável série (vai em 22 capítulos) sobre a blogosfera. É, que eu tenha conhecimento, o mais exaustivo e sério trabalho sobre o meio. Saudavelmente, mantenho as minhas discordâncias de olhar, que não constituem nenhum tipo de objecção e que, por preguiça, omito.
Numa nota à última entrada, a 22ª, Luís Carmelo escreve: «quanto à blogosfera em Português, esta é uma óptima altura para solicitar actualizações aos nossos bloggers».
Quero adicionar os meus dois cêntimos porque o assunto me interessa muito.
Esta é uma confusão que me faz espécie. Desde logo porque não faz sentido pedir aos carneiros que se auto-enumerem. Os mecanismos para tal contabilidade não estão, sequer, assentes. Os métodos dos melhores, como David Sifri (justamente citado no Miniscente), estão ainda longe da perfeição. Mesmo antes dos métodos há falhas, perguntas com respostas vulcânicas e sem consenso. Como, entre outras: o que define um blog? Como se averigua se o blog está “vivo” ou “morto”? Se hiberna e regressa, como passá-lo de um para o outro lado das estatísticas? Quando?
Acresce que uma tarefa tão básica como a divisão por língua é ela própria impossível de ciclópica, actualmente, e mesmo na escala dos computadores, que em matéria de cálculos é infinitamente superior à humana. Os “conteúdos” (odeio o raio do termo) são produzidos por humanos para humanos, as máquinas são deles reprodutoras cegas: não lhes podemos pedir, sequer, que contem, essa actividade em que elas são tão melhores que nós. Dada a dimensão do universo de contagem é impossível contarmos as cabeças que blogam, impossível (por ora) pedir às máquinas que calculem o número de humanos que blogam em Português (ou noutra língua, ou em todas). Talvez quando a web semântica (de que falou Berners-Lee na www2006) dotar a maquinaria da capacidade de entender (ainda que rudimentarmente) o que nós, humanos, nela carregamos possamos perguntar a um google “quantos blogs há em português?” e obter uma resposta decente.
Por ora, restam-nos três ferramentas. O bom senso assente na observação e experiência no terreno, o feeling ou intuição (a não subestimar, mesmo em tempos, como são estes, que privilegiam o facto e o “facto”), e o puro delírio especulativo que tem assomado a cabeças respeitáveis e tudo, tal é a capacidade alucinatória da rede, que dela dá mostras pela segunda vez, depois da Bolha.
Quantos somos?
Sobre esta matéria tenho opinião formada. Que obviamente não queimarei nesta fogueira.


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