Ainda a guerra (vista daqui)
publicado 30 Julho 2006 em Geral.Em vão procuro uma visão de conjunto, uma análise, uma síntese esclarecedora — ou simplesmente um fio de opinião decentemente expressa sobre a guerra em curso. A blogosfera portuguesa é feita de causas, os seus membros buscam a proeminência gritando mais alto que o parceiro ou cavando mais fundo na “culpa” colectiva para anunciar, triunfantes, os seus “partidos” — o recurso ao lugar comum mais estereotipado que for possível, preto ou branco, zero ou um, que fará os seus leitores acenar em sinal de respeitosa concordância…
Nada interessa, realmente, na realidade: vale dizer e fazer tudo para ter razão — mesmo que razão e coração se confundam nas generosas cabecinhas destes autores sem vida nem mundo, colectores de sebentas financeiras e códigos anotados, reprodutores de abstracções, ao fim e ao cabo a próxima geração de gordura excedentária do Estado pela via do suspirado ingresso na função pública, seja por parte da família, seja pelo padrinho do partido.
Nascida do marasmo “intelectual” da direita dissidente que procura pôr-se em bicos de pés durante a travessia do deserto do poder, a blogosfera portuguesa não tem no seu código genético a isenção, o afastamento e o bom senso, úteis quando procuramos interpretar as desavenças profundas entre povos que se guerreiam num cenário de conflito permanente nas últimas oito (para ficarmos só no conflito “moderno”, o relacionado com o nosso mundo) décadas.
Como noutros tempos, como noutros lugares deste nosso tempo, tudo se resume a ser a favor ou contra.
Como que contaminada, a classe opinativa da imprensa portuguesa não vai muito melhor. À excepção do editorial simples, claro e despreconceituado do Expresso deste sábado, as mesmas bafientas “interpretação” e “posicionamento” que vemos na blogosfera. Restará saber qual o ovo e qual a galinha neste caso — mas eu vou por aí e ali à BBC e já venho.


Tem razão quanto à blogosfera portuguesa.
Claro que uma andorinha não faz a Primavera. E, como não venho aqui fazer publicidade, não me vou referir a essa andorinha (ou duas. Ou, se formos a ver bem, provavelmente há mais andorinhas do que julgamos. Mas também, todavia, 5 ou 7 andorinhas não fazem a Primavera. Ainda para mais, se completamente rodeadas por abutres, humanotas, humanotinhas, e muitos, muitos ogres e ogrestes (!)).