Jornalistas a dias (ou porque não quero que falte nada aos que vêem em mim um comunista)
publicado 2 Agosto 2006 em Geral.Descobri, entre o rebolar de gozo e o atordoamento total, leitores de blogs que me acham comunista. Não faço a mínima ideia que drogas tomam mas como tenho compaixão por esses tristes em particular, e pelas vítimas da alienação em geral, aqui fica uma citação para lhes dar uma alegria. Bem a merecem, pobres almas.
O papel dos média é, hoje, tão importante como arma da ditadura capitalista, que a profissão de jornalista não se compadece com meios-termos. Diana Andringa queixa-se de que, agora, há “jornalistas a dias“, que os seus empregos são precários. Discordo: ou se é jornalista, ou se é outra coisa qualquer (mesmo que se passe por jornalista). É confrangedor verificar que, no programa Clube de Jornalistas (RTP2), Ribeiro Cardoso, Estrela Serrano ou o próprio Professor Fernando Correia são incapazes, como os seus colegas, de expor, profunda e radicalmente, a responsabilidade dos jornalistas no mundo mediático de hoje. Não assumem que, de facto, já não é possível fazer verdadeiro jornalismo nos grandes médias. Porque o que nos ensinaram é que ser jornalista é ter por profissão apurar a verdade dos factos e comunicá-la aos seus concidadãos, pelos meios necessários para o efeito. Paul Nizan (1905-1940), jornalista comunista, disse que os jornalistas devem ser os “historiadores do imediato”, com o mesmo espírito de rigor na busca e na revelação da verdade dos factos que os grandes historiadores. Aqui, portanto, não se pode distinguir entre o jornalista e o cidadão. Há, ou deveria haver, na própria designação de “jornalista”, uma espécie de contrato moral entre o profissional da comunicação, que é um cidadão, e os cidadãos que são os seus leitores. Temos todo o direito de os interpelar e de lhes perguntar o que andam a fazer com esse contrato» José Mário Branco, em O silêncio ensurdecedor dos Jornalistas portugueses, edição Maio / Junho da Política Operária (via Acácio Barradas, por e-mail). Negritos meus.


Bem, enfio a carapuça, e respondo.
Nao, Querido, eu nao te julguei comunista.
Apenas me envolvi, em cima da hora, numa causa que me é querida, o rivoli do porto.
Nao porque seja um subsidio-dependente, um comunista, ou mesmo um tipo de esquerda que se oponha às privatizaçoes. Pelo contrario, acho que nao existem outras soluçoes viaveis. So nao gosto é de privatizar ao desbarato, o que a todos pertence.
Espero inclusive, com ansiedade, que essa tendencia, se manifeste em mais ramos da sociedade portuguesa, principalmente naqueles em que claramente se tem de retirar os laços de poder apenas do estado, para atribui-los tambem a um control mais real.
(Penso particularmente no da investigaçao cientifica e outras areas, que se encontram estagnadas devido à total ausencia de control.)
Embora esteja seguro e ciente de que tal se deve realizar, sempre serei fiel a ideia de que esse tipo de açoes, principalmente em areas tao fulcrais para o país, deve ser concretizado em conjunto com a criaçao de fortes feedbacks, que permitam estabelecer defesas de rectaguarda, do que se for julgando mais importante para a sociedade. Ate intituiçoes tao autosuficientes como o MIT, tao na boca de toda a gente por estas bandas, possuem tais mecanismos. Porque deveriamos so copiar uma metade do exemplo?
Existem de facto bons exemplos de que o estado, ao retirar-se do control directo que possui sobre as infraestruturas culturais, abre espaço a que a sociedade civil possa dar azo a manifestaçoes culturais de grande relevo. Que as vezes nem sequer poderiam ter surgido de outra forma, dada a tendencia que o sistema tem de se equilibrar sistematicamente em dois polos opostos: o do mainstream, ou o do lirismo elitista.
Infelizmente, dado o deserto cultural actual da cidade do porto, e sendo sobejamente conhecido o papel que o rui rio tem tido em tal processo, nao pude deixar de manifestar a minha opiniao, como forma de pressao, relativamente à forma em que a privatizaçao se possa realizar. Se o nao se sentir particularmente atraido pelos cinemas dos centros comerciais é ser-se comunista, entao eu sou-o. Tambem o sou, em nao querer ver um edificio cultural simbolico para a cidade, transformado num novo La Feria Palace.
O facto de posteriormente ter sido anunciado que os ciclos de concessao no rivoli seriam curtos (4 anos), é ja um dado bastante significativo e positivo. Mas quem sabe se isso nao foi provocado pela pressao da opiniao publica?
Enfim, aguas passadas.
Quanto as drogas, e ao resto dos teus comentarios/insultos, o que é que te hei-de dizer…Enfim, parece que os blogs tambem sobem à cabeça. So me pergunto porquê.
João Bacelo