O Second Life, o audiovisual, a realidade e a percepção dela
publicado 30 Novembro 2006 em Geral.Este texto nasceu de uma resposta a um leitor dos mais estimulantes que participam neste blog. Como te dizia, caro Mário, também não emito juízos de valor sobre as preferências das pessoas. Cá vai o resto, post longo, se chegou pela primeira página é favor clicar aí abaixo para ler completo.
Há quem classifique pejorativamente o Second Life de um espaço para os perdedores da primeira vida, da vida física. Se fosse isso, eu pelo contrário acharia bem, as pessoas terem uma segunda oportunidade é sempre bom, mesmo num mundo virtual, pois dá-lhes uma energia fundamental (para qualquer “vida”) que é a auto-estima. O verdadeiro mal a evitar, a alienação, não é infelizmente um exclusivo do Second Life: está presente no nosso dia a dia, seja atómico seja digital. Quantos milhares de pessoas vivem as experiências da vida por interposto actor de telenovela, e delas quantas o fazem por escolha consciente? (Sobre essas, o Second Life só tem vantagens, diga-se de passagem).
Também não vou por aí.
Mas a ideia de um avatar digital em si mesma não a considero negativa ou positiva. É neutra. Há, na ficção científica (ou, como alguns preferirão, na literatura de antecipação do real), diversos casos de “mundos” em que existem avatares, espécies de duplos (holográficos nuns autores, robotizados noutros, e mesmo clonados nos mais radicais) capazes de cumprir funções sociais e de representação dos seus “masters“. Durante uns anos alimentei a ideia de um dia vir a ter um avatar online que respondesse ao correio por mim e servisse de filtro às solicitações de entrevistas e situações de respostas relativamente padronizadas.
A isto chama-se antropomorfizar.
Fizemos o mesmo aos robots — e se nunca os teremos como foram antropomorfizados nos anos 40 e 50 até aos nossos dias, temo-los em número crescente à nossa volta, aliviando-nos de tarefas repetitivas ou perigosas, executando tarefas complicadas ou pesadas, da indústria automóvel às cadeias de produção às nossas casas (já se vendem aspiradores classificados pelo marketing de “inteligentes”, porque sabem evitar obstáculos como escadas, possuem um mapa da casa, saem de uma sala onde estejam humanos, etc).
Indo um pouco mais longe. Os cães-robot ou os robots dançarinos da Sony serviram a função de dar mediatismo a uma empresa em dificuldades que apostou cedo demais numa indústria que um dia florescerá, mas não só: timidamente, estão a surgir no mercado (no mercado, não na academia) os primeiros robots de companhia, antropomórficos alguns, outros não, capazes de ajudar idosos que vivem sozinhos. Não só com “companhia”: munidos de sensores, podem ajudar a medicar o paciente — ou chamar o enfermeiro de carne e osso mais perto para vir acorrer a uma emergência que o idoso não seria capaz de enfrentar sozinho (nem chamar ajuda).
Pode a ideia não nos agradar, pela distância, mas pensemos duas vezes e parecerá menos disparatada.
Voltando ao tema: abandonado o antropomorfismo que costuma caracterizar o nosso primeiro contacto com uma realidade desconhecida (cabe aqui a crença num Deus, cabe aqui o fascínio pelos “marcianos” e outros seres alienígenas), o que são os auto-responders de mail senão avatares nossos, devidamente instruídos para devolver respostas padrão a estímulos padrão? O que é o meu blog, senão uma extensão digital (de parte) das minhas memórias públicas, um avatar do meu pensamento disponível quando cada leitor quer, em vez de ter de esperar pela possibilidade de um contacto com o meu pensamento?
A aventura do Second Life é estranha, admito. Sigo-a no entanto com respeitável curiosidade. Sei que não é apenas um filão de marketing (vertente que naturalmente segui na pequena notícia que sai amanhã no Expresso Economia). Sei que é controversa. Não participarei grandemente na controvérsia em torno das minudências do Second Life, reservo-me para conversar sobre o seu significado de uma forma mais geral e menos sujeita à classificação compulsiva, essa doença (por estudar) que trai os bloggers mais ansiosos.
Desde que desceu das árvores, pelo menos, o percurso do Homem tem sido feito de incorporações e extensões. Incorporámos animais no nosso modo de vida (bois a puxar arados, cães a caçar e fazer companhia). Munimo-nos (vestimo-nos, subscrevemos) de artefactos que nos auxiliam, potenciam, resolvem problemas — ou estendem a nossa força e inteligência, dos óculos aos by-pass coronários, das muletas aos membros artificiais. Robots e avatares estão dentro desta linhagem.
Ando à procura das perguntas certas, e não das respostas erradas.
Não será a experiência do Second Life útil por nos devolver um sentido de tempo, que se está a perder no imediatismo da teia?
Até que ponto é aterradora a ideia de individualização do espaço e da memória, ao ponto de cada pessoa viver no seu próprio mundo (real e virtual) construído somente, ou sobretudo, a partir dos inputs que definiu receber — excluindo a recepção/participação em acontecimentos e memórias colectivas?
[ Num exemplo mundano: como adepto de futebol, se posso escolher ver apenas os golos geniais dos campeonatos de futebol da Europa, dentro de algum tempo (quanto?) não saberei da importância relativa dos seus autores, desconhecerei as equipas e as classificações, o futebol deixará de ser um todo e passará a fragmento, impedindo-me de manter uma conversa sobre outra coisa que não os golos geniais. ]
Com a explosão dos media e do audiovisual numa teia de informação onde cada pessoa é um emissor de sinais sem um fluxo de credibilidade, a percepção da realidade através de fragmentos cada vez mais pequenos e, agora, ofuscada a relação entre o tempo em que aconteceram e o tempo em que são percepcionados, representa uma vantagem ou uma desvantagem?


Quando eu era menina “vivia” as aventuras e emoções de todas as (muitas) histórias que lia. Era a “realidade virtual” possível nos 60’s. “Entrava” na história, imaginava os locais, pedia emprestada aquela vida durante o tempo que durava a leitura do livro; as diferenças são muitas, mas será assim tão diferente?
Creio haver uma tendência para se fazer uma distinção entre mundo “real” (o físico) e mundo “virtual” (o digital, sem existência palpável).
Ora, o mundo dito virtual é bem real: faz parte do quotidiano - da vida, sem mais atributos qualificativos - de imensas pessoas. Seja um avatar no SL ou outra coisa qualquer.
No seguimento do comentário de Vi, a alienação já existe há muito, não foi preciso o digital.
E sim, parece-me que, no campo das incorporações ou extensões - palpáveis ou não - passámos há muito tempo o ponto de “no return”.
Que são os sentimentos senão virtualidades? Sombras, restos de percepções — estas também tão virtuais na medida em que estão tão sujeitas à química.
No entanto, caro João Pedro, a distinção existirá sempre. São experiências diferentes, saborear um beijo físico, uma carícia ou obter o “mesmo” tipo de satisfação a partir de um blink, da leitura ou da visualização no ecran de uma bondade que nos é dirigida.
(Talvez um dia haja gente a preferir o clean do virtual. Talvez. Há tanta coisa no futuro que não sabemos.)
Dá que pensar é que subitamente, de um mês para o outro, a trilogia Matrix passa de mega-produção da alienação pela força do cinema para um sério aviso sobre um cenário que nos aguarda, algures.
Quanto às extensões, vou abrir em breve um blog sobre bots.
Podemos obter diversão no mundo físico ou no electrónico, o “mal” a meu ver não está aí. O problema para mim tem a ver com as expectativas que as pessoas criam, algumas delas irrealistas e como tal potencialmente alienatórias. Como exemplo podemos criar esta situação:
Se eu julgar que o meu blogue me vai fazer famoso e ricos só por existir, estou a iludir-me porque isso não é algo que seja relista esperar de um blogue. Quando isso não se verificar provávelmente a frustração será grande e poderá levar-me a desistir de o actualizar.
Por outro lado se eu achar que um blogue é algo que se mantém porque gostamos de lá colocar conteúdos, então as minhas expectativas estão muito mais ajustadas ao que puder acontecer, quer no futuro, quer no presente.
Tudo na rede é comunicação, mas já nos cabe a nós saber se preferímos um interlocutor humano à nossa frente (com tudo o que isso implica) ou um ecran.
Cada um encara o Second Life como entender. Assim sendo porque não encará-lo como um local para passear? Não é isso que fazem ao jogar jogos de computador (que não são online)?
a second life não é nada mais de a velha realidade da percepiçao que o que vemos,sentimos e queremos ser a traves de vida virtual que pode gerar um individuo coerente com as sublinariedades ou relativamente pertubado e deslocado físicamente.