Sá Carneiro e o futuro feriado religioso de 4 de Dezembro
publicado 29 Novembro 2006 em Geral.Todos os anos, por esta altura, a Imprensa agita-se com as “novas revelações”, as “pistas escaldantes”, as “confissões” (link) “inequívocas” e afiançam-e “novidades interessantes” e outras achas com que se vai alimentando um culto: o culto de Sá Carneiro.
Já não é uma questão política: o partido sobreviveu, nenhum líder ou candidato precisa, já, de invocar o nome de Francisco Sá Carneiro para ficar bem na fotografia, o seu legado deixou até de fazer sentido na medida em que já está integrado no Portugal social-democrata e centrista que se cimentou ao longo das últimas duas décadas e meia. E na Assembleia da República esgotou-se por consenso supra-partidário o prazo de validade das comissões de investigação do caso Camarate.
Já não é uma questão de polícia nem judicial: sem chegar ao tribunal. o caso prescreveu em Setembro deste ano, sendo com grande grau de certeza o assunto melhor e mais exaustivamente investigado e peritado (inúmeras vezes) pelos diferentes agentes judiciais deste país.
Apesar disso não há certezas. Sim. Repito: não há certezas. Há isto: nenhuma prova contribui clara e inequivocamente para a tese do atentado; de uma forma geral (para não escrever esmagadora) as pistas, indícios e provas encaixam na tese do acidente. Um não-crente como eu faz o normal nestas circunstâncias (que, repito, não significa que seja cem por cento certeza). O normal é seguir a via da simplificação. Costuma dar resultados (embora, repito, não haja certezas).
Já não é uma questão de referentes para a direita sociológica: Cavaco Silva acima de todos, mas também Freitas do Amaral (antes de cair em desgraça), Lucas Pires (convenientemente “erradicado” do CDS populista), Marcelo Rebelo de Sousa e Durão Barroso (com o apport tecnocrata e o rótulo de vencedor num quadro europeísta), para não mencionar o caso duvidoso, porque sem profundidade política, do “popular” Paulo Portas, deram referências quanto baste para preencher ao longo de duas décadas as necessidades espirituais da população à direita do PS.
Ainda não é uma questão histórica: enquanto assunto irracional (como veremos no próximo parágrafo), não pode ser tratado com a distância que a História pede.
O caso Sá Carneiro (assim mesmo, como se só ele tivesse morrido, ou então o caso Camarate, que continua a secundarizar os outros mortos deixando tudo centrando em Sá Carneiro) tornou-se já uma daquelas recorrências sazonais como o 5 de Outubro ou o Natal, os fogos de Verão ou o 13 de Maio. Falo da representação pública, deixo de fora por pudor a intimidade das famílias: além da medalhística e da investigação documental-política (coisa pública mesmo que pouco), Sá Carneiro sobrevive no espaço mediático enquanto assunto de fé (há autores que defendem ser uma questão de fé desde o início).
Dentro de um par de anos teremos, estou convicto, um feriado religioso no dia 4 de Dezembro. E não me surpreenderia se, assim o permita a permissividade de tempos que indulgenciem ou apaguem dos registos a sua vida sentimental, vierem netos e bisnetos a pedir a Roma a beatificação de Sá Carneiro, o mártir da democracia. (Entretanto alguém apagará discretamente a frase que fecha a sua biografia de fundador do PPD.)


Dia 4 de Dezembro é o dia consignado a Santa Bárbara, padroeira dos mineiros que, entretanto, vão encetar uma luta para que esse dia seja feriado… para os mineiros.
Até acho que tens (politicamente) razão mas, francamente, Paulo, depois de não sei quantas comissões de inquérito parlamentar e de outras tantas negadas, depois de sucessivas investigações e peritagens, é absolutamente abominável aparecer alguém que, processo prescrito, diga claramente - foi um atentado!