João Pereira Coutinho: do blasé ao enfado

Houve uma altura em que me divertia ler o cronista João Pereira Coutinho. Na blogosfera (que ele um dia jurou a pés juntos ter sido criada por ele, elevando para três o número de pais da dita), há alguns anos, as suas controvérsias foram uma lufada de ar fresco que ajudaram a varrer o pó ao regular discurso de direita pomposo. E não perdia uma crónica dele na Maxmen. JPC veio abrir o caminho aos “intelectuais de direita”, algo que se presumia inexistente à excepção de dois corajosos amigos que se celebrizaram como “ideólogos” do cavaquismo. Mesmo Miguel Esteves Cardoso era encarado (ainda é, apesar das respeitáveis idade e barriga) como o enfant terrible a quem a família tolera as graçolas, mesmo as que não entende — e ri em especial das que não entende, como ainda hoje se nota nos títulos com que se tiram velharias dos baús. Jaime Nogueira Pinto e sobretudo Nuno Rogeiro são por regra esquecidos — suspeito que por se tratar de pessoas de grandes leituras e escritas cuidadas e pensadas. (Adriano Moreira é de outro tempo e outra galáxia.)
Mas MEC, valha-lhe isso, deixou-nos bons frutos. Alguns deles fazem com que hoje seja visível uma corrente de opinião conservadora mas desempoeirada e lúcida, não cega nem comprometida aos piores valores da sua herança.
A direita modernizou-se.
Porém, ler Pereira Coutinho hoje é como ler o Tio Patinhas ou a Mônica: leitura pastilha elástica que serve para entreter os olhos mas carece de substância. Alguém percebeu onde ele queria chegar com aquele arrazoado sobre Kofi Annan? Mostrou que sabe escrever os nomes de várias nações africanas, sem dúvida; mas, mesmo bem espremida, a crónica desta semana no Expresso não verte uma ideia, um pensamento, uma posição, uma defesa. E os dois parágrafos reservados aos “jovens” (aspas de JPC) demonstram o quão longe o escriba está da realidade, optando pela via fácil de debitar três ou quatro banalidades (estou a ser benévolo: bem esticadinhas são duas, as banalidades) sobre uma matéria que se presta a frases feitas.
Por bem assente que esteja em competente prosa — e nisso JPC não deixa de ser profissional, devo afirmá-lo — a mera reprodução do ar blasé pós-moderno perde o tom de sofisticação e deixa-nos só com a parte do enfado.

  1. 1 Daniela Mann

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