Diz-me o que escreves

Um dos mais simplórios truques da propaganda, um truque sem cor usado por todo o tipo de totalitarismos e primarismos, de fascistas a maoístas passando por regimes “brancos”, consiste em repetir e fazer repetir a mesma mentira, em contextos diferentes, a propósito e a despropósito, contando com efeitos diversos na esperança de um dia se tornar “verdade”. Só pela força da repetição. E quanto mais não seja, por exaustão — ou perda de memória.
É o que sempre me ocorre quando leio frases como «da quase hegemonia da esquerda na comunicação social» (aqui).
Tenho visto a teoria amplamente ecoada nos últimos anos, na blogosfera, e nunca, and I mean nunca, vi um só número ou estudo que a sustente. Nem sequer um argumento que ultrapasse o nível da lengalenga, ou da afirmação minimal-repetitiva.
Já desafiei os estudiosos da Comunicação Social a produzirem algo que prove ou desminta tal tese. Debalde. Uma prova - eis o que não interessa a ninguém.
As respostas que recebi quando fiz notar que existem indícios de que não é assim, nomeadamente fazendo a contabilidade às direcções e chefias e cronistas — que produzem o essencial doutrinário de um meio, dando a cor à agenda e um rumo às investigações que conduzem a notícias –, foram: o número de jornalistas de esquerda é maior que o número de jornalistas de direita (o que admito empiricamente, mas não é essa a questão), e que se faz um jornalismo “social” e de “causas”, defendendo os “fracos” e “oprimidos” pelo capitalismo, esse odiado (pressupondo-se que este é um jornalismo condenável e que o “bom” jornalista seria aquele que entoasse panegíricos ao mercado).
Muito bem.
Constato, uma vez mais, que em certas regiões da blogosfera a fidelidade factual vem depois da fidelidade ao clã. Pelo “quanto depois” podemos medir quase cientificamente o nível de envolvimento de cada unidade no todo. Valha-nos isso.

  1. 1 Rui Curado Silva

    Tens toda a razão Paulo. Acresce a isso o facto de sermos um dos poucos países europeus que não tem um canal de TV em sinal aberto (à parte o estatal) fundado por pessoas de esquerda, e a TV, sabemos que tem um peso muito maior no nosso país do que os restantes media. A TVI e a SIC mostram-nos o mundo da direita que vai da estupidificação das telenovelas e do excesso de futebol até às histórias securitárias de faca e alguidar que enchem telejornais.

    Também constato com agrado que surgiu uma nova direita cá em Portugal que não alinha nessa corrente kitsch que domina as televisões, mas por enquanto são minoritários e não fazem parte do mundo da SIC e da TVI.

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