Na passada quinta feira aqui escrevi as seis razões para uma quota de mercado maior que o Internet Explorer 7 devia ter, prometendo para hoje as explicações do relativo falhanço do produto, um dos melhores produtos de software da Microsoft.
O leitor Gonçalo Silva referiu logo a abrir os comentários que «ainda não atingiu porque poucos têm o Windows Vista, e muitos tem versões piratas do Windows XP o que faz com que o update não seja automático». Tem razão. Essa é uma das causas da fraca adopção do IE7. Quem tem uma versão pirata evita qualquer contacto com a Microsoft, porque se sabe que a empresa tem o poder de inspeccionar o computador que faz o upgrade e a partir de que localização. Na verdade, se a Microsoft quisesse processar praticamente todos os utilizadores não-autorizados do seu software, poderia fazê-lo. Se não o faz, lá terá as suas razões.
Os utilizadores dividem-se grosso modo em três grupos principais: os entusiastas, os interessados e os passivos.
O primeiro grupo poderá fazer imenso barulho mas é o mais diminuto. Testa as novidades e tende a fixar-se nos produtos mais evoluídos, que explora ao detalhe. O browser de eleição é o Firefox (excepto provavelmente entre os possuidores de computadores Apple, que integram este grupo numa percentagem muitíssimo superior à quota de mercado da empresa). Experimentou o IE7 e ficou com ele instalado, mas usa-o pouco mais que em desespero de causa (ler: quando tem obrigatoriamente de aceder a um site prepotente, que os há de empresas, banca e administração pública, que obrigam o cidadão ao uso de uma tecnologia específica). Usa as versões RC; os entusiastas dentro dos entusiastas recorrem religiosamente às night builds.
Todos os que comentaram o meu post anterior são membros deste grupo.
Já com dimensão apreciável, menos barulhento embora, o segundo grupo está bem representado nos media e na blogosfera. Faz upgrades regulares pois gosta de acompanhar a modernidade, e ainda que não explore até aos limites a diversidade de adicionais, é capaz de instalar os que lhe dão mais jeito. A proporção de Windows é aqui mais aproximada à média do mercado, mas mesmo assim a percentagem de uso dos famílias de sistemas operativos Mac e Linux (all unix flavours) andará entre um quinto e um quarto. Alguns dos seus membros recorrem à pirataria, sendo o XP o sacrificado. A preferência de browser dividir-se-á em valores aproximados por IE e FF, sempre as últimas versões estáveis.
A maioria dos membros deste grupo teria compreendido mais de três quartos das palavras e ideias expressas no post anterior e nos seus comentários.
Depois vem o terceiro grupo, que engloba +75% dos consumidores. Os passivos têm horror a saber mais do que a marca e os gigas do disco do electrodoméstico que os “liga à net”. Usam exclusivamente Microsoft e a esmagadora maioria (relatórios não-publicados falam em 99 em cada 100) não sabe, sequer, se o seu sistema operativo é legal ou ilegal. Por vezes é mesmo difícil perceber, dadas as voltas que os seus PCs já deram desde que vieram da loja com uma versão OEM legalíssima. Na dúvida, os medrosos evitam o upgrade (os que lêem o que diz o botão antes de clicar, bem entendido) e os aventureiros instalam tudo o que mexa, com predilecção pelas pop-ups com lixo.
Os membros mais esclarecidos deste grupo compreenderiam um máximo optimizado (em ambiente controlado) de 33% das palavras e ideias expressas no post anterior e nos seus comentários, mas a média do grupo andará pelos 10%.
É por causa da existência deste grupo que, como refere Gonçalo Silva, «é uma questão de tempo até o IE7 atingir os 80%». Ou seja: quando todos eles tiverem trocado de computador, o que decorrerá num prazo entre dois e cinco anos, então a quota do IE7 será realmente aquela que se esperava. Porque irá instalado por defeito no Vista que equipará as máquinas novas.

NOTA NECESSÁRIA para os dois ou três leitores que se convenceram que eu, porque sou jornalista, estou obrigado a ser preciso e factual no meu blogue: esta é uma peça rigorosamente ficcional e, à excepção do comentário de Gonçalo Silva e dos links para marcas verdadeiras, tudo o mais, em particular os números apresentados, é um exercício de imaginação. Perceberam? Está bem, eu soletro: I-S-T-O-É-U-M-A-F-I-C-Ç-Ã-O.

  1. 1 carlos paulo

    muito bom. tanto a posta como a nota final.

  2. 2 Wilson

    “Todos os que comentaram o meu post anterior são membros deste grupo.”
    Pois… utilizo o Opera, acho muito melhor que o Firefox.

    Quanto ao I.E é para esquecer, na minha opinião a versão 7 está pior que a versão 6, inclusive tive de a desinstalar. E tenho o windows original, faço as actualizações,etc.
    O facto é que o IE não segue as normas w3c, e isso está a prejudica-los.

    Já agora, porquê I-S-T-O-É-U-M-A-F-I-C-Ç-Ã-O. ??

    Os números podem não estar muito precisos, mas acho que são minimamente aceitáveis. É uma realidade dura, mas o IE é o browser mais utilizado, e nunca o deixará de ser.

  3. 3 Paulo Querido

    Caros carlos paulo e Wilson, obrigado pela apreciação.
    Os números não são precisos e carecem de fundamentação — baseiam-se exclusivamente nas minhas experiência, avaliação e memória.
    Se eu estivesse a redigir uma peça jornalística, trataria de ir buscar números concretos onde os houvesse, e de os contrastar e testar. Daí ter mencionado que isto é uma ficção — porque tenho dois leitores que acham que eu, porque sou jornalista, estou proibido de escrever outra coisa que não peças jornalísticas.

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