Rudyard Kipling no Poetry Archive

O projecto Poetry Archive nasceu para arquivar gravações de poemas lidos pelos autores anglófonos. Kipling é um dos primeiros de que há registo.
( Nota: texto de arquivo, publicado inicialmente no Expresso, revista Única, em 10 de Dezembro de 2005, sob o título As vozes dos poetas)

Quando caminhamos para o centenário do seu prémio Nobel da Literatura (1907), a obra do poeta inglês Rudyard Kipling, há muito pertença do domínio público, está praticamente toda disponível na rede. Mas por iniciativa de um seu conterrâneo moderno, Andrew Motion, uma novidade acaba de ser acrescentada ao Grande Arquivo que é hoje a Internet: um excerto de um poema de Kipling lido pelo próprio. A gravação está em más condições e tem curtíssima duração, mas possui um grande valor histórico: é o único registo gravado da voz do poeta, um fragmento da leitura do poema “França” obtido em 1921.A iniciativa de Motion intitula-se Poetry Archive (acessível a partir de www.poetryarchive.org) e, além da ajuda técnica do produtor de áudio Richard Carrington, conta com fundos do governo de Sua Majestade e de várias entidades, entre as quais a representação britânica da Fundação Calouste Gulbenkian. A motivação é construir um arquivo especial que torne a poesia «acessível, relevante e agradável a uma vasta audiência», segundo consta da apresentação. Motion e Carrington tiveram a ideia há seis anos: concordando em quão incomum e inspirador é «ouvir poetas lendo a sua própria obra» e lamentando que, mesmo no passado recente, não haja gravações dignas com os mais importantes autores, decidiram avançar com o projecto. Até porque, recordam, a poesia foi uma forma de expressão artística oram antes de se tornar escrita. «A obra de Homero viveu através da palavra muito antes de qualquer registo numa página. Ouvir um poeta interpretar o seu trabalho é uma experiência única».

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Apesar das inúmeras sessões de leitura de poesia que ocorrem um pouco por todo o lado, a gravação oral é geralmente reservada a actores, alguns dos quais se especializam no assunto. «Os actores podem, ou não, ler bem poesia, mas os poetas têm direitos únicos sobre os seus trabalhos e ainda visões particulares de cada poema, razão para os escutarmos no seu idioma, ritmo, tom e ênfase», sublinha Andrew Motion na página de apresentação.
Poetry Archive conta exclusivamente com autores anglófonos, a maioria dos quais britânicos. A abordagem apresenta-se sobretudo pedagógica, com secções dirigidas a professores e a alunos com suestão de planificações para a leitura na sala de aula, dicas e outras actividades. Uma secção especial, animada pela poetisa inglesa Jean Sprackland, é dedicada às crianças e divide os poemas por áreas apelativas ao imaginário infantil, dos animais às flores.

A presença de Kipling numa galeria específica de “historic recordings”, ombreando com William B. Yeats, Allen Ginsberg e Alfred Tennyson (entre outros), deve-se à ideia do projecto de recolher gravações antigas que se encontram dispersas pelo mundo, desde os arquivos da BBC aos sótãos das raras editoras que editaram obra a poetas. Muitas são difíceis de localizar ou mesmo impossíveis de recuperar depois de eliminadas dos catálogos; quando são encontradas surgem outras dificuldades, como a qualidade das cópias e mesmo a limitação do número delas. O Poetry Archive pretende estruturar um arquivo destas gravações de forma a preservá-las no ambiente digital.
Mas o cerne do projecto é mesmo o trabalho dos poetas vivos. Fazendo a ponte entre laureados de dois séculos, o actual Nobel da Literatura, Harold Pinter, é um dos autores que em breve lerá partes da sua obra para os ouvintes internautas. A maioria das gravações contemporâneas será composta por novas gravações feitas especialmente para o projecto, umas em estúdio, outras nas residências dos autores. A posterior venda dos CDs é uma das fontes de receita pensadas para sustentar o Poetry Archive, que pode também ser apoiado através de donativos.

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