Vai por aí uma enorme confusão e começa a ser difícil acompanhar. Os dados e alguns pensamentos:
1. José Sócrates processa Balbino Caldeira por difamação (eu como governante não o faria, teria desprezado o caso no momento certo e com firmeza, mas respeito as decisões alheias e dentro da lei e das normas);
2. Balbino usa como defesa o contra-ataque anunciando querer processar Sócrates por atentar à sua liberdade de expressão (vai perder porque é um contra-senso: se não tivesse liberdade de expressão não poderia ter escrito livremente o que pensava e eventualmente o que não pensava ao longo dos últimos quatro anos, e muito menos o deixariam processar o Primeiro Ministro, se pode é porque a tem, não tendo assim pés nem cabeça esta sua teoria);
3. Caldeira sustenta a teoria, muito chavisticamente conveniente, de que se forem processados pelos detentores do poder, os cidadãos não devem amochar — o que dá direito a curiosos pensamentos, como: e se eu for processado por um não-detentor de poder (partindo do princípio que alguém sem algum tipo de poder me consiga processar…), devo porém amochar? E se me é coarctado o direito de processar quem me vilipendie, porque hei-de eu sujeitar-me a esta espécie de ditadura “popular” em formação nalguns quadrantes da blogosfera?
4. Há um levantamento popular a favor de Caldeira, expresso através dos mais variados e inusitados meios, considerando em geral tais gentes que vivem num estado repressor (juro que me é tremendamente difícil perceber como podem pensar e dizer semelhante tal pessoas com acesso ao tudo o que é meio de comunicação e através dele condicionarem o exercício dos governos e dos tribunais como nunca tinha acontecido em nenhuma democracia);
5. Se um cidadão tem a ousadia de criticar este movimento ou o seu carismático líder, ou simplesmente dizer-se de lado e que não dá para a petição, é alvo da ira popular e apodado dos piores qualificativos - outra atitude sem dúvida marcante destes novos defensores de um sem dúvida novo conceito de liberdade de expressão;
6. Pacheco Pereira, conhecido por entre muitas outras coisas defender a liberdade de expressão e o direito ao anonimato, é violentamente criticado por pedir responsabilidade aos bloggers, nomeadamente a responsabilidade de tentarem evitar que o anonimato seja usado de forma indigna, ilegal e imoral. Manuel, da GLDQL, “cola” Pacheco a Sócrates numa mesma “ganga do Olimpo” e isso é uma pirueta tão rasteira como as que denuncia, uma forma de obter o apoio do “povo” que aparentemente “odeia” o Olimpo e regurgita sempre que um “deus” é gozado no páteo da vilória.
7. Tudo este burburinho em torno da “liberdade de expressão” da “censura” e da “perseguição”, tudo isso e muito mais, se passa na blogosfera,
um meio de comunicação de massas descoberto pelas elites mais modernaças e sem poiso certo na infoesfera, cujo poder, diz-se com orgulho, chega a suplantar o do jornalismo e dos media “convencionais”,
meio ao qual literalmente qualquer cidadão tem acesso, onde cada um diz literalmente o que lhe apetece onde lhe apetece como lhe apetece (palavra escrita, imagem, desenho, fotografias, video, audio, gráficos, whatever), com o nome que lhe aprouver, numa atmosfera de total liberdade (e excessiva impunidade, mas ai de quem escreva isto!), sem a mínima hipótese de controlo férreo,
meio a reboque do qual andam, baratinadas, as várias polícias atrás de meliantes ubíquos e invisíveis,
do qual pouco percebe o aparelho judicial,
o qual o meio político olha de soslaio sem saber por que ponta lhe pegar pois tudo é redondo nesta esfera,
no qual as empresas entram o mais cuidadosamente que podem não vá a sua reputação pegar fogo devido a um palerma qualquer,
meio ao qual o Estado chegou tarde e tarda em assimilar, quanto mais “controlar”,
um meio, enfim, que tem todas as virtudes, alguns defeitos E DO QUAL É EXTRAORDINÁRIO um português queixar-se de censura, ameaça à liberdade de expressão e por aí fora. Experimentem contar esta história — os factos, comprováveis, não a alucinação colectiva em que vivem algumas caixas de comentários — a um cibernauta estrangeiro desinteressado.
A esquizofrenia deixou de ser latente e passou a vigente.

  1. 1 "Manuel"

    Que raio de confusão vai nessa cabeça.

  2. 2 Paulo Querido

    Pois vai, caro “Manuel”, pois vai. E não só nesta cabeça.

  3. 3 Wilson José Neves Morgado

    Destaco no seu texto o ponto número 4, e acrescentaria ainda o nome de Fernando Charrua, o indivíduo que chamou de bananas, ou algo do género, a quem lhe paga o ordenado.

    Muita revolta na blogosfera para nada. Na maioria dos blogues que já vi sobre este assunto, o que mais me chamou a atenção foi uma pequena imagem com a frase:

    “Este blogue aderiu à greve” … e mais não digo.

  4. 4 Paulo Querido

    Caro Wilson José Neves Morgado, o Estado português não é visto como um patrão a quem se deve algum respeito, mas como aquela tia maluca e rica e benevolente, que vai dando umas coroas para os charros do sobrinho que lá aparece em casa quando está liso, e a quem a bondosa senhora tudo perdoa. Não admira que esteja quase falida, enquanto os parvos dos sobrinhos continuam na borga.

  5. 5 Wilson José Neves Morgado

    Boa analogia!

    No entanto, quem escolhe a “tia” somos nós!

  6. 6 Paulo Querido

    Eu disse tia (Estado), não o seu funcionário ocasional (Governo).

  7. 7 O Salgador da Pátria

    Acho muito sinceramente q a Internet escapou ao controle das democracias ocidentais sem elas se aperceberem disso. Foi criada qq coisa de abstracto q, para o bem e para o mal, está aí para ser usada por quem quiser e como quiser em qq parte do mundo; desde o Hassan q quer colocar uma bomba na medina de Rabat até ao Robert q publica o último paper sobre um bacilo potenciador de uma cura para a malária.
    Acho este assunto da crítica a José Sócrates uma coisa q deveria ter morrido logo à nascença… Afinal há tanta coisa em q este cantinho se deveria preocupar. Porque é q ninguém fala, por exemplo, da proposta do director de Serralves de reduzir o Ministério da Cultura a Secretaria de Estado? Isso sim, é de importância vital para o país!
    Para rematar: tudo isto porque para ser alguém em Portugal tem q se ser o Sr. Doutor - essa doença coimbrã retrógrada indelével de séculos e q Eça (sim, no séc. XIX!) retratou tão bem.
    Enfim, farto de bater em Portugal já estou eu. Será q serei condenado por isso? :-)

  8. 8 Jotacê

    Passei …parei (porquê?) e li.
    Com sua licença e o devido respeito, permita-me dizer-lhe que…
    Fiquei preocupado, por si (sei que não carece…) mas, mesmo assim, olhe que fiquei preocupado…
    Eu…divirto-me, entre outras, por aqui. Mas, que eu saiba, vc vive disto. E, ao ler afirmações (ainda que contextualizadas) de “…excessiva impunidade… sem a mínima hipótese de controlo férreo…”, “…meio ao qual o Estado chegou tarde e tarda em assimilar, quanto mais “controlar”,
    …” fico preocupado, não carece mas, mesmo assim, fico.
    Autoflagelação ou ignorancia (no sentido estrito e respeitoso do termo)?
    Eu sei quanto custa escrever “sob controlo” e conheço as consequências (o que não faz de ninguém herói, apenas, “sobrevivente”) e vc? Faltou a essa “aula” ou era pititinho?
    Com respeito “democrático” pelas ideias alheias.
    a) Jotacê

  9. 9 Paulo Querido

    Caro JotaCê, agradece-se o respeito, mesmo com as aspas na democracia (pois… é o que lhe querem meter, pelos vistos… aspas…) E agradeço também a sua preocupação, mas na verdade é infundada: não escrevo sob controlo, felizmente para mim nunca passei por isso. Tinha 14 anos no 25 de Abril.
    Anyway, julgo serem situações extraordinariamente diferentes, não lhe parece? A web é um meio absoluta e rigorosamente propício à liberdade — é isso que aqui digo, é isso que sei, é isso que pratico, é isso que vejo, e daí a minha consternação por ver gente com idade para não cair na facilidade do imediatismo andar aos gritos de ai lobo. Nem no Jardim Zoológico estamos, quanto mais no mato.

  10. 10 martins

    Muito bem , Paulo Querido. Felizmente há na blogosfera quem seja lúcido e moderado. Também não é por acaso que este seu blogue e o Abrupto são das poucas coisas saudáveis e inteligentes que se pode ler na blogosfera.

  11. 11 Golfinho

    Caro Paulo e caríssimos leitores deste blog (dirijo-me principalmente a estes),

    Num último comentário que deixei neste blog, *falava* da distinção entre interpretação literal e autêntica, sendo esta última a que realmente o autor de um texto quis expor. Em minha humilde opinião, o que está escrito aqui deve ser lido nesse sentido e não *julgar* pelas frases e certas palavras.

    Apesar de, certos *fait-divers*, com o PQ, admiro-o. E, se houvessem mais razões, uma bastava: as críticas que ele faz - gostemos ou não das suas opiniões -, são construtivas, não são destrutivas, ou do famoso *bota-abaixo*. Fundamenta-as sempre.

    Lá por termos opiniões diferentes, não implica que as não aceitemos, desde que feitas dessa forma; e o PQ tem respeitado - pelo que me tenho apercebido -, as críticas construtivas dos outros.

    Afinal, isso tudo é Liberdade de Expressão numa Democracia.

    Cumprimentos.

  12. 12 joao pedro

    que raio de pry minister se deixa envover nas blogosferas e não sei que mais … que se passa? hum! muito esquisito, Viva ademocracia. não a ameacem carago.

  13. 13 kimmi

    ai, zé ferrão,
    sim, mas ferra pra lá,
    pá, que eu não sou a tua mãe,
    figurão. e olha, pensar é assim como
    um ter opinião, independente de chavões
    de balbino-petições, anos e anos em calúnia
    rastejante, ratazana, e mal se lhe pede contas,
    aqui d’el rei que me prendem, a mim, balbino das tocas…

    e esta escrevi-a eu

    amélie

  14. 14 pedro silva

    Caro Paulo querido:
    Quando o Sr Caldeira anuncia que processa, isso não significa que processe efectivamente. Há que fazer uma distinção. Ele pode fazer reconvenção e impugnação dos factos apresentados pelo sr pinto de Sousa na petição inicial e com isso estar a processar e a fazer contra ataque jurídico no mesmo processo de tribunal que o sr pinto de Sousa lhe infligiu.
    Coisa diferente é o sr caldeira mandar inserir uma petição inicial (meter o caso em tribunal) especificamente para o caso em questão.

    Quanto ao sr pinto de Sousa não acredito nem sequer por 1 milésimo de segundo que tenha feito a licenciatura dele em condições “razoáveis”, isto
    porque eu frequentei uma outra universidade de Lisboa naquela época, de onde transitaram alguns dos cromos que depois assinaram diplomas ao domingo com o nome do sr pinto de Sousa, e soube muito bem como as coisas lá se passavam. E como quem “era político” ou “candidato a político”, ou pessoa com “um nome de família” era diferenciadamente tratado.
    Era e é.

    O que se pode censurar é a obsessão do sr caldeira com aquele assunto. Mas isso é outra questão diferente.

    Quanto ao seu ponto 4 não é verdade que haja um levantamento popular a favor de caldeira. Há é algum “ruido” acerca do assunto. Misturado com a aversão ao actual governo.

    Quanto ao seu ponto 6 e à defesa do sr pereira lamento muito mas acho inaceitável e inexplicável qualquer tipo de defesa que seja feita ao sr pereira especialmente depois do que ele fez em Abril do ano passado- salvo erro em Abril.
    Além disso, o Caro Paulo Querido percebe bastante de informática ( e bem mais do que eu…) para saber o que é SEO. Ou pagerank.
    há um ano atrás o sr pereira tinha “x” visitas e “X” influencia. Actualmente tem “x” menos 40% visitas e “x menos 40% influencia.

    Portanto os pedidos dele em relação ao anonimato esbarram claramente coma falta de ética dele, falta de princípios dele, e falta de personalidade dele em função do que ele fez em Abril passado. E com as notórias deficiências de pagerank/seo apresentadas actualmente, tendo como ponto de comparação o ano passado.
    Em que escreveu um artigo no Jornal público que revelou a total falta de carácter que tem. E pessoalmente lamento imenso nada saber de hacking de sistemas, porque senão tinha-lhe mesmo ido rebentar com o blog dele só pelo que ele fez em Abril passado.

    Ele agora fez um reload e um upgrade habilidoso ao discurso mas a tentativa de mistificação das pessoas está toda lá tal qual estava em Abril do ano passado.

    Quanto ao seu ultimo ponto isso também começa a não ser inteiramente verdade relativamente a cada um dizer o que quer. Falo por mim, que por vezes dou comigo a escrever alguma coisa e a auto censurar- me em relação ao que estou a escrever. Há dois anos atrás isso não sucedia. Outras pessoas que conheço pensam o mesmo.
    É isto indissociável do actual gang de políticos que foi parar por sorteio ao poder?
    Penso que não.

  15. 15 Rivoli

    Se o Sr Paulo Querido se lembrar, também falou do curriculum do Primeiro. Graças a quem? Ao Caldeira, pois então.
    E agora vem criticá-lo e defender que deve ser acusado, quando o Paulo Querido mencionou factos e opiniões baseados precisamente no Caldeira?
    Percebe-se… quer estar bem com Deus e com o Diabo, mas ética não funciona assim.
    Para a próxima, seja coerente. Com os Bytes, se não se for, dá crash. Com o futuro deste país, também dará.
    Já deu.
    Mas não cotribua.
    Sabe que isto comparado com a liberdade blogosférica de outros países, parece o terceiro mundo.

  16. 16 Paulo Querido

    Caro Rivoli: não, não sei. E estou certo que você ainda sabe menos do que eu sobre a “liberdade blogosférica de outros países” e não será capaz de fazer nenhuma comparação desfavorável a Portugal.

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