Cavaco e Sócrates: outras semelhanças
publicado 29 Junho 2007 em reflexões.Já hoje escrevi que continuo a pensar existirem boas condições para José Sócrates repetir uma vitória em eleições legislativas, apesar de tudo. Como a de Cavaco, a sua é uma governação que deixa mossas em vários sectores, mas que é essencial noutros. A estabilização das condições económicas no contexto internacional (se preferirem, a política de favor ao grande capital que delicia os financiadores da direita, o que ajuda a explicar a dificuldade desta em afirmar-se oposição) está para ele como o betão e as auto-estradas para o cavaquismo: essenciais, gostemos ou não (eu não gostei então nem gosto agora, porque sou um anarquista menos convicto do que inabalável, apesar de tudo).
As semelhanças estendem-se, curiosamente, também aos tiques autoritários. Não é novidade isto, o que temos visto ultimamente é a demonstração do que alguns (eu incluído) pensaram assim que tiraram a esquadria aos primeiros 3 meses de Sócrates como Primeiro Ministro, relativamente às semelhanças na rigidez. O Rui Cerdeira Branco capta, numa síntese feliz, o que Pedro Sales (Zero de Conduta) e Paulo Gorjão (Bloguitica) escreveram sobre “o avolumar das provas de intimidação política” (em como se perde o controlo por excesso de controleiros) e a evocação do autoritarismo cavaquista e da prepotência de Dias Loureiro faz-nos pensar, efectivamente.
Eu não perfilho totalmente as palavras do Rui, reflicto sobre elas (porque considero o Rui uma pessoa sensata).
Eu dou para o peditório da “asfixia democrática” por razões parecidas com as que Vital Moreira aponta — mas considero este um momento charneira para quem governa. Por enquanto é a clique “classe média com instrução” (5 a 10 % dos eleitores) a mostrar-se indignada, mas se não curarem a Sócrates os ritos de rigidez, o copo enche até às classes médias remediadas, ao operariado (”serviçariado” fica horrível - mas como descrever a mole humana que vive de biscates a meter dados onde calha, com 600 e 500 euros de soldo?, quantos andam nisso há dez anos?) e ao lumpen e pum, adeus maioria. E adeus oportunidade de recompor um pouco o país depois do ciclone “social-democrata” de Barroso-Lopes. Como Cavaco, eu não perdoarei a Sócrates — e sabem os deuses de todos os quadrantes como eu nunca imaginei escrever uma tal frase! LOL!
NOTA posterior: onde está “eu dou para o peditório” devia na verdade estar “eu não dou para o peditório”. Porquê uma nota rectificativa e não a emenda directa? Porque a falta de revisão do texto é da minha responsabilidade; entretanto, este texto foi enviado para o e-mail dos assinantes de Certamente! e citado, precisamente na passagem que está mal, por pelo menos um blogue, o Adufe. Entendi ser preferível manter a coerência de versões e deixar aqui a nota. Resumindo: não penso que haja “asfixia democrática”, mas há seguramente comportamentos que estão a enervar um sector da sociedade, que responde emitindo sinais de alerta.


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