Quase todos os governos passam um período inicial de popularidade, atingem um pico e a partir daí entram em queda livre nas sondagens e na inclinação da população. Atirar o pico para o segundo ano do mandato é um dos primeiros objectivos de qualquer governante. Adiar o mais possível o momento em que deixa de poder contar com o “povo” e com a indiferença, ou benefício da dúvida, dos editorialistas. Verdadeira sabedoria política é gerir a queda, de forma a suavizar a linha do invitável gráfico. As descidas abruptas são horríveis (Cavaco) e podem acabar de forma trágica (Guterres). Também podem ser geridas de forma a conseguir um segundo mandato (Cavaco). Continuo a pensar que existem boas condições para José Sócrates repetir a dose.
José Sócrates tem “estrelinha”, como se diz no futebol. Sem ela não teria atingido o pico só a meio do mandato. Mas tem também um bom sentido de gestão dos tempos, um sentido profissional.
Se eu já tinha estranhado a falta de sensibilidade no relacionamento com uma fatia que hoje tem significado na vida mediática (ia escrever pública, mas não tenho a certeza: como alguém hoje me dizia, tanta coisa para criticar na economia, na saúde e no trabalho e andam a ocupar o tempo com assuntos de carácácá), fiquei com a certeza que o radar de Sócrates avariou algures desde Fevereiro para cá.
A prova?
Lançar o projecto Linha Alerta Internet Segura numa altura destas.
Admitindo que o projecto tenha utilidade, o que não é de todo uma certeza (tendo a olhá-lo com uma acção de marketing da União, muito politicamente correcta, com bom impacto comunicacional mas sem grande impacto na realidade), atirá-lo aos leões nesta altura é condená-lo à partida. Vai ser preciso muita engenharia social e marketing para lhe recuperar a imagem, dentro de uns tempos (bem… a menos que a ideia seja essa… o que nos leva para um campo um bocado diferente).
Aliás, basta ver como a má repercussão da Linha Alerta ofusca um projecto igualmente filho de boas intenções mas de utilidade reconhecida, a Internet Segura.

Quizz: porque lançaram o projecto num altura destas?
a) José Sócrates está farto e quer apressar a queda.
b) Alguém, com um cargo não eleito, dentro do aparelho de Estado está farto e quer apressar a queda.
c) A equipa encarregue de tomar a temperatura à web social não está a trabalhar bem.
d) Não há tal equipa.

  1. 1 Steve Serigado

    Adoro, adoro, adoro simplesmente adoro este blog, apesar dos temas que mais gosto de ler são sobre informática, sobre opinioes e criticas. Um abraço e força nisso, continue ;)

    http://www.codificacoes.blogspot.com

  2. 2 marco

    Há coisas que não se percebem. Definitivamente. Quem é que toma este tipo de decisões? Serão só coincidências infelizes? Sinceramente, como eleitor que contribuiu para a eleição deste executivo e que aprova a esmagadora maioria das suas decisões e, caso houvesse eleições hoje, voltaria a votar neste primeiro-ministro, sinto que há aqui algo que não está bem.

    Se me é permitido o abuso, temo pelo país e pelo o que irá acontecer a nível doméstico durante e, principalmente, depois da presidência da UE… Toda gente anda a dizer o mesmo, eu sei. E o PM deve ter noção disso. As pessoas à sua volta devem ter noção disso.

    E o que é que tudo isto quer dizer?

    Durante muitos meses a oposição era absolutamente inofensiva para o Governo, que repetidamente marcava a agenda política, mas agora nem precisa de falar: a OTA (ou o movimento anti-OTA) ganhou vida própria; já há dois casos de afastamentos para agitar isto durante algum tempo e entretanto vamos todos de férias… Se o verão for “quente”…

    Estou mais ansioso que curioso. Genuinamente pensei que o actual PM teria capacidade para prosseguir um caminho que realmente mudasse a nossa sociedade a vários níveis. Não creio que haja aqui um padrão de concentração de poder na pessoa do PM, atentados à democracia, etc… Mas perdi parte da fé que tinha em que depois de 2 governos liderados por José Sócrates, o nosso país tivesse, finalmente, deixado para trás os seus “fantasmas”, tivesse virado a página e a nossa sociedade entrado no séc. XXI.

    Desculpem-me os devaneios.

  1. 1 Certamente! Cavaco e Sócrates: outras semelhanças
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