É simplesmente espectacular. Um trabalho notável, o do ElPais.com, sobre o acidente no aeroporto de São Paulo, publicado ontem (via Ponto Media). A reconstituição envolve um trabalho complexo ao nível da recolha e selecção dos momentos chave para a compreensão do sucedido, do fabrico dos fotogramas em Flash, conjugando os mapas do Google com a animação dos gráficos do jornal espanhol, e até da incorporação de uma peça de video — tudo servido pela mestria em Flash e pela simplicidade que só se consegue alcançar com muita experiência e num ambiente propício (ler: com profissionais pagos).

Nota à margem, 1: já há algum tempo que venho falando das novas profissões que a web veio dar ao jornalismo. Uma equipa multidisciplinar necessita de pessoas com formação em Flash, que compreendam e absorvam os princípios do jornalismo, bem como de gente com competências ao nível do HTML e do PHP e outras linguagens de scripting. Além de conscientes do básico da OpMB (optimização para motores de busca), os futuros jornalistas saberão escrever um script de ocasião da mesma forma que a geração anterior aprendeu a escrever no Word e, antes disso, a usar o fax e, antes deste, a fazer fita de telex e, antes deste, a paginar em offset e, antes deste, a escrever à máquina (etc). Dentro de pouco tempo as redacções não poderão dar-se ao luxo de esperar que “os gajos da informática” façam as coisas. Até porque “os gajos da informática” têm o seu próprio trabalho a fazer, para o qual foram contratados.

Nota à margem, 2: o El País passou a incorporar no final dos textos, videos, sons e gráficos os links regulares do social networking: Digg, del.icio.us, Yahoo!, Technorati e Meneame! Está entre os primeiros jornais do mundo a descerem à terra no que toca a integração com as novas audiências info-estimuladas, isso já se sabia. Eu não tinha ainda visto, porém, a integração dos botões de partilha. Algum leitor nos pode dizer desde quando é que o El País tem estes botões nas páginas? Que outros jornais, ou televisões, fazem o mesmo?

  1. 1 WebDesigner

    Concordo que cada vez mais as equipas tenham de ser multidisciplinares, no entanto no caso desta reconstituição, muito dificilmente poderemos esperar que uma equipa tenha alguém disponível a 100% para fazer algo do género, e aí terá mesmo de se esperar pelos “gajos da informática”. Este tipo de reconstrução requer muito mais do que simples formação em flash.
    Mas é mais do que certo que tendo em conta a velocidade a que nos chegam novas formas de publicação e divulgação, a integração, por parte dos media, de pessoas com conhecimentos mais profundos a nível de tecnologias Web, é uma necessidade e deixou há muito de ser algo em que se pense como dar-se ao luxo ou não.

  2. 2 Paulo Querido

    Caro WebDesigner, é claramente uma necessidade.
    Questões:
    Onde os ir buscar?
    Como os integrar? Não basta ir ao mercado, sacar pelo currículo e atirar os candidatos para uma Redacção. Pobres resultados.
    Como os formar?

  3. 3 Tiago Almeida

    Parte do problema de arranjar estes profissionais parte também de que muitos responsáveis, compreensivelmemte, vêem a animação a correr no Flash Player e assumem que a animação foi feito em Flash - quando não o foi (bem, afirmo isto com 99,9% de certeza…)

    Foi sim feito usando uma versão Pro do Google Earth (como indicado no inicio da animação), exportando os mapas para um formato vídeo e depois fazendo a composição num programa tipo After Effects/Combustion/Motion com os outros vários elementos - nomes de cidades, o avião em 3D, o lightning do avião que causa a sombra, etc.

    A composição final foi então exportada para um ficheiro .flv (flash vídeo). Foi então inserido no software Flash para fazer o ecrã inicial, loading e o controle de play - mas sem isto ter impacto na animação em si - e exportando para o ficheiro .swf final, visionado através do flash plugin dos browsers.

    Onde então arranjar estes profissionais? Procurá-los nos mercados de animação gráfica, cursos de vídeo/cinema, televisões, etc.
    Para se saber de quem se vai à procura, é preciso se saber primeiro quais as competências que se procura para não sair gato por lebre - quando muitas vezes é isso que acontece.

    Hoje em dia é complicado: requere-se aos funcionários actuais de jornais que aprendam novas tecnologias e ao mesmo tempo cumprem o horário normal. Os novos formandos das Universidades são a ‘Geração WYSIWYG’ - entram nas universidades, não com a intenção de aprender a produzir conteúdos mas para aprender Dreamweaver, Flash, FreeHand, etc… saiem máquinas que conseguem reproduzir coisas feitas, mas não com capacidades criativas muito extensas.

  4. 4 WebDesigner

    Não importa muito em que é que foi feita a animação, importa é ter alguém que com essas ferramentas ou outras consiga obter o resultado pretendido.

    É mais do que sabido que em todas as áreas relativas à informática, os responsáveis não têm bem a noção daquilo que procuram ou precisam, ainda há um pensamento muito intrínseco de que os “gajos da informática” sabem fazer tudo.

    No entanto, o que se pretende é que as pessoas consigam ganhar conhecimentos extras sem ser apenas através dos percursos universitários , por exemplo, no meu caso, que me interessa a mim contratar alguém para a área de programação web se a pessoa não tiver os conhecimentos mínimos de photoshop ou fireworks ? se eu precisar que se faça uma alteração a um layout, o programador tem que “chatear” alguém do departamente de design? não me parece.

    É óbvio que para questões mais avançadas, há a necessidade de alguém com mais conhecimentos, mas também não se pode estar a espera que alguém acabadinho de sair da universidade, com o curriculum em branco seja atirado para uma redação sem acompanhamento, é preciso saber, ou pelo menos ter alguma noção dos resultados que se esperam e como atingi-los.

    O que fazer num caso destes ? bem acho que antes de contratar alguém seria melhor contratar uma empresa ou um freelancer já com alguma experiência. Com os resultados obtidos já é possível saber o que esperar de uma pessoa que se queira contratar.

    Relativamente à geração WYSIWYG, espero que as pessoas não entrem em cursos de jornalismo para aprender dreamweaver ou flash, não precisam de entrar para a universidade para isso muito menos para cursos de jornalismo

  5. 5 Paulo Querido

    Caro WebDesigner, pelo contrário, eu espero que as pessoas entrem em cursos de jornalismo para aprender jornalismo e como usar ferramentas, como o Flash, na profissão.
    Não sei se é ou não numa universidade, nem isso me parece relevante. É onde existirem cursos.
    O meu ponto era, aliás, esse: não existindo cursos que formem jornalistas com aptidões em áreas da programação relevantes para o jornalismo, o que pode um órgão de comunicação social fazer para os formar?

  6. 6 nikonman

    Estes jornais alemães integram já links de social networking:
    FAZ - http://www.faz.net/s/homepage.html (não em todos os artigos)
    STERN - http://www.stern.de/

  7. 7 Paulo Querido

    Thanks, nikonman!

  8. 8 Desalinhado

    Caro Paulo Querido,
    Queria salientar uma passagem do teu texto que toca num outro ponto. Referes com profisisonais pagos como elemento valorizador da peça (que na realidade, está espetacular).

    Queria perguntar se o facto de o software também ser profissional (e pago - naturalmente) também poderá ser um factor determinante para a qualidade final da peça.

    Google Earth Pro e todo aquele software que um comentario anterior refere é pago - não?

    Obrigado,

  9. 9 Paulo Querido

    Caro Desalinhado,
    o software profissional não tem de corresponder a software pago. Ou pelo menos, não pago no sentido tradicional do termo, e que foi aplicado anteriormente aos profissionais de jornalismo.

    Na verdade, a world wide web assenta em servidores onde corre software que não foi pago.

    No que toca ao software, os modelos de negócio são variados e decorre da co-existência ao longo de décadas de modelos proprietários e modelos abertos que a excelência se encontra dos dois lados — provavelmente, mais do lado dos modelos abertos.

    Já no que respeita aos serviços de informação, não se pode dizer o mesmo. Não falo do tratamento por grosso, que hoje não poderíamos efectuar sem o apoio das máquinas (a maioria das quais a correr software gratuito), mas do tratamento fino.

    A web social vem, de resto, suportar a tese de que os amadores tendem a produzir abaixo dos profissionais. Hoje, passada a maior euforia do user-generated content, começam a vozes críticas a apontar os “defeitos” da produção pelos amadores. E por outro lado os melhores amadores, ou talvez seja melhor dizer os amadores mais interessados em continuar, juntam-se em grupos que buscam recompensas de outro tipo que não o reconhecimento social.

    A minha lateralização tem a ver com o cerne da sua questão, pelo menos como eu a entendi.

    Sendo um pouco mais específico: O Google Earth tem uma versão pro paga, que eu saiba, desconheço se foi usada, mas provavelmente foi. Há variadas formas de produzir ficheiros Flash sem usar software pago, muitas delas profissionais (no sentido em que são ferramentas usadas por profissionais do webdesign e da informação). Desconfio, porém, que os profissionais do El País usam uma colecção de ferramentas que incluem software pago e software gratuito.

  10. 10 Desalinhado

    Só mais um comentário, ainda no mesmo tema.

    Não há aqui uma inconsistência no contexto descrito?

    Explico-me: por um lado profissionais / jornalistas pagos e um serviço de qualidade.

    Por outro lado software não pago. Quem suporta? Quem dá os serviços profissionais de TI que sustentam os profissionais/jornalistas? A comunidade?

    É um modelo sustentável?

    já agora pergunto: qual é a tendência? quem ganha quota de mercado e quem perde? sw pago, ou sw não pago?

  11. 11 Paulo Querido

    Eu bem me parecia que sabia onde você queria chegar. Era fruta a mais… Ok, vamos a isto.

    É evidente que os defensores do software fechado e do respectivo modelo de desenvolvimento e sustentabilidade vêem aqui uma inconsistência e tentam explorá-la. Exploram qualquer coisa, por estes dias em que o modelo vai mostrando a sua irrelevância na maioria dos campos em que actualmente há desenvolvimento.

    Eu não vejo inconsistência.

    O modelo de desenvolvimento da produção de informação é muito diferente do modelo de desenvolvimento de software e tentar misturá-los só gerar confusão.

    Eu não sou a pessoa mais indicada para lhe dizer como funciona, e porque funciona tão bem, o modelo do código aberto. Posso no entanto dizer-lhe que é muito mais complexo do que falar em software não-pago.

    Posso também dizer-lhe que tudo indica ser um modelo sustentável. Com efeito, o software não-pago anda por aí desde 1980, pelo menos. Há mercados onde tem quotas fantásticas (olhe, o browser que usa para ler este blogue; olhe, o servidor que lhe serve esta página, bem como toda a tecnologia de scripting associada a ela). A web 1.0 assentou na sua maioria em software livre, aberto, não-pago, e a web 2.0 também segue essa via de desenvolvimento.

    Quota de mercado: há flutuações, é complicado dizer a longo prazo quem ganha e quem perde. Penso que os dois modelos vão continuar por aí durante muito mais tempo, sem que um deles se sobreponha ao outro, porque há razões para ambos.

    Repare no meu exemplo: uso um processador de texto não-pago, mas o programa onde guardo as passwords é pago. Para bater texto, não necessito de uma super-aplicação: apenas de um bloco notas esperto, com uma formatação mínima. Afinal, todo o texto que eu produzo é posteriormente editado nalgum processador profissional adaptado às necessidades das publicações, porque hei-de estar a pagar duas vezes?
    Já o programa que grava as minhas passwords é essencial para o meu trabalho e não há grandes alternativas no software livre. Prefiro pois pagar, não vejo porque não. (E eu sou dos que paga. Não tenho software pirata no meu portátil nem nos meus servidores.)

    Penso que o mesmo se poderá dizer da infomação… Uma boa quantidade dela pode ser consumida sem necessidade de pagamento, seja porque é gratuita, seja porque é sustentada através de modelos que permitem um nível de gratuitidade para o destinatário (a publicidade, por exemplo; recordo-lhe que o meu webzine é um webzine com um modelo de negócio em que as receitas pagam parte das despesas, sendo a outra parte um investimento pessoal de tempo).

    A produção de informação a este nível pode produzir peças de grande qualidade, mas tenderá a produzir sobretudo informação de qualidade menor. Ao contrário, de um produtor de informação com melhores níveis de rendimento, esperamos a produção de peças de grande quantidade em larga escala, embora aqui e ali, episodicamente, haja também lugar a peças menores.

    Respondendo no contexto da sua anterior pergunta, o profissional pago não é condição necessária à produção de uma peça do calibre da aqui citada, que pode ser produzida por um amador. Mas não espere de um amador a produção contínua deste tipo de peças, enquanto tem a garantia que um profissional a tenha — ou então o mercado encarrega-se de o punir.

    Isto para não entramos no campos especulativos do que é ser-se profissional e amador.

  12. 12 Desalinhado

    Eh, eh.
    Não leves a peito.

    Quanto à incosistência, e às questões que levantei, eu propunha - no estrito sentido de fazer um reality check - que pudesses apurar no caso concreto, qual é o peso de sw livre sw proprietário na construção daquela peça que ambos consideramos de grande qualidade.

    Repara que o elpais es até é um site elaborado em sw livre, pelo que partes com essa vantagem. Mas na realidade, tenho uma certa curiosidade. E com os teus contactos jornalisticos poderás fazer este reality check mais facilmente com a redação do elpais.

    Seria interessante ter este indicador…

    Quanto à 2a questão sobre o quem ganha e quem perde quota, depois de alguma pesquisa creio que encontrei um indicador insuspeito que dá um indicardor interessante: Vê o Market Share for Top Servers Across All Domains August 1995 - July 2007 disponivel em http://news.netcraft.com/archives/web_server_survey.html.

    Vejo os servidores web em sw livre em declinio e o do sw proprietário em crescimento. Ou seja, independentemente dos argumentos pro e contra, o mercado reage como reage.

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