‘Blogar’ dá trabalho, muito trabalho, e requer tempo e paixão
publicado 9 Julho 2007 em reflexões.Candidatos à profissão de bloggers há vários, mas os entusiasmos fátuos não levam a lado nenhum. Para estabelecer um blogue é preciso trabalho, muito trabalho, paciência para o tempo que leva até atingir um patamar de sucesso e paixão pelo assunto principal, ou tema, do blogue.
Esta verdade é conhecida empiricamente por alguns bloggers mais antigos, que reconhecem o esforço dispendido ao longo do tempo. Há quem julgue que isto dos blogues é só chegar, armar a tenda, copiar uma lista de blogues e espetá-la na coluna da direita e ‘tá a andar. Não é.
Já foi assim, nos “bons” tempos de 2003/2004, quando bastava efectivamente chegar a uma comunidade ainda pequena. Hoje, estabelecer um blogue é uma tarefa árdua, muito árdua. Começa na impenetrabilidade que o meio entretanto adquiriu no percurso, com a maioria dos blogues históricos a encolherem-se e a cristalizarem templates, audiências, links. Passa pela extrema “concorrência”, com centenas de blogues novos que criam uma dificuldade suplementar na hora de escolher o assunto (e um blogue de generalidades hoje simplesmente não obterá audiências fora do circuito pessoal do autor, e mesmo aí sabe-se lá…).
Isto a propósito do que escreve Richard MacManus no Read/Write Web, Turning Blogging From Hobby to Career.
“So what does it take to turn blogging into a full-time living? Basically it takes a whole lot of hard work, knowledge and passion about the topic you’re blogging about, patience, and some ‘being in the right place at the right time’ luck. Also, as the DomPost article stated, you need to frequently update your blog - although I think a lot of tech blogs have taken that to a worrying extreme recently - and reach out to the blogging community.
It’s worth pointing out that I started this blog in April 2003 and it took at least a couple of years to make money.“


Pois é…
(altura para um ‘desabafo’: interrogo-me se o “Carreira da Índia” tivesse aparecido em 2003, se estaria mais ou menos no anonimato como continua a acontecer agora, ao fim de 6 meses de actividade - bem sei que tem um ‘target’ que se resume a um ‘nicho’ muito estreito, mas…).
Por outro lado - e noutra perspectiva (a de “veterano”(!)) - também admito os meus ‘pecadilhos’: a sensação, que experimento com alguma regularidade, de descobrir novos blogues com interesse, mas de não ter já tempo para os ler, como acontecia em 2003, em que a oferta era imensamente menor; ou, dito de outra forma, o grau de exigência para ‘admissão na lista de links’ (para vencer a inércia de ir mexer no template…) é agora substancialmente maior…
No ponto, Leonel. O cansaço é uma das razões para aumentar o “fee” de entrada no clube. Atrevo-me a pensar que nem último caso de excepção à regra, o blogue dos hiper-conhecidos Vasco Pulido Valente e Constança Cunha e Sá, alcançaria hoje a notoriedade medida em links que obteve no início de 2006. E estamos a falar de uma dupla com muita aceitação na bogosfera. Mesmo figuras com peso mediático não conseguiriam hoje vencer a inércia dos links.
O Carreira da Índia é efectivamente um nicho estreito, mas em 2003 tinha sem dúvida obtido mais notoriedade.
E que pensam os outros leitores?
Interessante a sua reflexão e válida sobretudo para quem tenha, como é manifestamente o seu caso, uma aproximação profissional (ou profissionalizante) deste tipo de ferramentas. As audiências, a eficácia da comunicação e a pertinência dos conteúdos são parâmetros de análise a ter em conta.
Acontece, e isso é a beleza de todos os saltos tecnológico-civilizacionais, que há uma multidão imensa de pessoas que vê no blogue uma espécie de caderno diário com virtualidades estéticas acrescidas. É certo que quase sempre são projectos de circulação/divulgação restrita mas como dizem os franceses “il faut de tout pour faire un monde…” e também esses dão trabalho (veja-se oexemplo do Modus Vivendi).
Está por fazer a análise desta fatia não despicienda da, passe o palavrão, “blogosfera”…
Abraço.
Caro Jorge AS, essa fatia (blogues de ambição restrita, por assim dizer) é o grosso da coluna, sem dúvida alguma, e eu tenho-o escrito e repetido incansavelmente. Mas permita-me discordar de si num ponto: essa é a blogosfera esmiuçada e analisada em Portugal onde falta, isso sim, alguma sistematização de pensamento e alguma discussão sobre os blogues de ambição maior, por assim dizer, os que apontam a um projecto com outro fôlego, dimensão e objectivos.
Aliás, em geral os que têm projectos maiores escudam-se no “amadorismo” e no diarismo íntimo como se fosse um pecado terem e apresentarem as suas ambições.
uma bonita ideia.
eu não tenho palavras preferidas.
Quem corre por gosto não cansa. Claro que, como em tudo, há dias melhores e dias piores, mas quem bloga por prazer e não por ‘obrigação’, acaba por encarar isto como um agradável pedaço de si mesmo.
É a sua opinião que respeito. Talvez me tenha expresso mal. Isto não passa de uma ferramenta. Qualquer um pode ir a uma loja e comprar um jogo de pincéis, tela e tintas. O que se faz com isso varia evidentemente em função da persistência, do talento e da seriedade. Concedo que em relação a projectos de maior ambição faltam estudos e análises que permitam uma compreensão mais plena do que esta revolução representa, mas não iria ao ponto de afirmar o que afirma na sua última frase. Parece-me demasiado esquemático e redutor.
Abraço.
Caro Jorge A.S., as máquinas de escrever eram usadas tanto por jornalistas como por escritores como por secretárias como por cidadãos e as folhas escritas tanto podiam dar a volta ao mundo como ficar na gaveta. Certo. Eu limitei-me a opinar que penso que temos falado sobretudo dos usos pessoais desta ferramenta e está por fazer algum levantamento e debate da sua utilização para finalidades com outra dimensão, refiro-me em concreto a Portugal.
É esquemático enquanto não lhe colocamos nomes, decerto. Coloquemos então alguns. Acha que os seguintes blogues (lista imediata, de cabeça) cabem na definição de blogues pessoais, diarísticos?
31 da armada
Blasfémias
GLQL
Glória Fácil
Miniscente
Indústrias Culturais
E quantos destes seis não se escudam, como eu disse, na classificação de amadores? Eu digo-lhe: dois.
Há muitos outros exemplos.
Agora, e respondendo também a Bruno Couto, pode “blogar-se” por obrigação e prazer ao mesmo tempo, quer se persigam objectivos do âmbito pessoal, diarístico, quer se aponte a um público maior que a esfera pessoal.
“Eu limitei-me a opinar que penso que temos falado sobretudo dos usos pessoais desta ferramenta e está por fazer algum levantamento e debate da sua utilização para finalidades com outra dimensão, refiro-me em concreto a Portugal”.
Estamos de acordo. E quanto à sua demonstração prática, aceito que tenha razão, mas diga-me na frase,
“(…)escudam-se no “amadorismo” e no diarismo íntimo como se fosse um pecado terem e apresentarem as suas ambições”
o que entende por “ambições”? Um projecto editorial com publicação continuada e recursos consequentes a la 31 da armada? Receio bem que não tenhamos “ainda” em Portugal “massa crítica” para tal, ou então somos todos uns poetas com propensão para o isolamento…
Grato pela atenção e pela pseudo-controvérsia…
Eu identifico-me com o tema porque o meu blog ainda é relativamente novo. Começou em Setembro de 2005 mas levou tempo a ganhar ritmo.
Cometi erros ao começar. Não tinha o tema bem definido, conhecia poucos blogs com o nível a que eu quero chegar e nem sempre arranjava tempo para escrever.
No entanto, cada vez vejo menos os outros blogs como concorrência na procura de tráfego. Muito pelo contrário, quanto mais leio outros blogs, mais fácil se torna encontrar angulos novos e informação interessante. (É fácil notar quando um assunto está a ser excessivo, basta que 3 blogs ou mais abordem o tema em menos de 1 semana)
No que diz respeito à postura dos bloggers, Portugal ainda não mostra pro-bloggers com a garra e ferocidade editorial da blogosfera inglesa. Nós ainda caimos muito no erro de deixar guerrinhas pessoais invadir a linha editorial dos blogs.
Em breve o Salgador da Pátria será remetido para um nicho muito alargado do mercado. O daqueles que não se interessam por blogs patetas e o porão de lado como mais um produto mal acabado de um ser muito conturbado pelo seu vil humor. Humor esse sem sentido nem respeito pelos orgãos democráticos, pelos valores patrimoniais da nação e pelas altas figuras históricas e contemporâneas nascidas no luso quadrado.
Mas eis que há-de renascer num dia de nevoeiro. E aí, meus amigos - aí é que vão ser elas (ou eles) porque este blog é muito liberal!
Caro Paulo,
Revejo-me no que escreve. O blog que tenho neste momento é a minha segunda experiência na blogosfera. O primeiro era generalista e teve muita dificuldade em implantar-se em termos de leitores. Este segundo blog, centrando-se mais nos temas de Braga e do Minho (regiões carentes de blogs de referência) tem conseguido manter mais leitores e estimular muitas mais discussões.
Muito bem: “(e um blogue de generalidades hoje simplesmente não obterá audiências fora do circuito pessoal do autor, e mesmo aí sabe-se lá…)”
A especialização, em praticamente todas as “profissões” e áreas já é o caminho, e assim, continuará num futuro próximo.
Cumprimentos
Caro Golfinho, a especialização — lá dizia o avô de Lazarus Long — é para os insectos. Mas ao longo do seu curso o homem tem tido momentos em que estreitar o foco da atenção é necessário. Em termos de web, vivemos efectivamente um tempo em que o enfoque num determinado assunto — o assunto em que nos sintamos mais à vontade, melhor preparados — produz melhores resultados. É normal. Se falo de um assunto que domino mal num ambiente onde existem candidatos que o dominam melhor, corro o risco de ser ignorado. Logo, se concentrar a minha atenção e tempo nos assuntos que domine melhor, a rede tenderá a prestar-me maior atenção.
Mas isto não foi sempre assim e tenho a certeza que voltará a não ser. Sou um fundamentalista do ecletismo