Ibéria: a razão de Saramago

Hoje estou do contra. Desconfio sempre dos unanimismos. As duas coisas, talvez. Ontem no meu barbeiro: “eu sempre disse, isto o nosso erro foi 1640″. Fiquei estupefacto: pensei que só eu pensava assim. Penso mesmo: o erro histórico dos portugueses foi recuperaram a independência de Castela, de outra forma teriam vivido muito melhor como espanhóis. E hoje eram bastante mais abastados. E felizes.
As palavras de José Saramago deixaram o país escandalizado — e eu, que não nutro por Saramago propriamente sentimentos positivos, só posso mesmo estar do lado dele. Desde logo, contra este uninimismo doentio, expresso nomeadamente na blogosfera (consultar aqui). Faz todo o sentido pensarmos na Ibéria. As diferenças entre as diversas partes que compõem o todo da península são as diferenças esperáveis entre, enfim, quaisquer províncias de um país de alguma dimensão territorial.
Faz todo o sentido pensarmos em termos ibéricos quando o mundo está globalizado. Faz sentido cultural, faz sentido económico, não vejo forma de não fazer sentido.
O único “problema”, aquilo que impede que as palavras de Saramago se tornem proféticas no curto prazo da História político-cultural da Europa, foi identificado por Vital Moreira: ao contrário do que se passa na economia, onde a tendência é centrípeta, politicamente vivemos num movimento centrífugo. Separatista, fragmentário. Ao contrário de Vital, porém, penso que a prazo a evolução da península pode muito bem passar pelo esbatimento de uma fronteira que já só existe verdadeiramente ao nível simbólico formal, não contando para a actividade económica e estando aceleradamente a perder a importância no plano cultural.
Há outro unanismo incongruente, mas fica para depois que tenho pressa de ir para Sul.

  1. 1 O Salgador da Pátria

    Não posso de todo concordar consigo. Perderia o hobby… :-) Fora de brincadeira, acho natural o ressurgimento do integracionismo numa época em que a globalização assombra as nações mais pequenas, ou minúsculas como a nossa.
    Não acho, no entanto, que a União Ibérica fosse a solução - a Península em si nunca teve nem terá futuro, excepto dentro de uma Federação Europeia. Nisso eu acredito e acho até muito provável. Não faz sentido absolutamente nenhum pensar em Ibéria dentro da União Europeia. É redutor.
    Agora gostaria era de ver a Galiza em Portugal. Isso sim faz sentido e seria muito bonito.

  2. 2 João Massapina

    Meu Caro
    Paulo

    Também eu desconfio sempre de unanimismos, pois invariávelmente conduzem a curto prazo a minimalismos terriveis.
    Passa-se de Bestial a Besta num milesimo de segundo, veja-se Saramago…
    Reconheço que existe uma grande diferença entre o Saramago escritor, e o Saramago pessoa, politico, pensador da Iberia.
    Sou suspeito, pois de certa forma admiro o Saramago escritor, ou melhor algumas das suas obras, por outro lado vivi 5 anos em Espanha, na Andaluzia, ali mantenho contacto, amigos, e porque não dizer; alguma paixão por aquele Pvo e País. Digo bem País!
    Da mesma forma que nasci em Lisboa, num outro País, Portugal, e que embora o meu coração seja por opção familiar 49% Portugues - 51% Italiano, não me consigo vêr envolvido numa enorme centralidade Iberica, como aquela que Saramago preconiza, desde jà algum tempo.
    Sim jà à algum tempo que ele assume essa sua opção Iberica, mas somente agora se lembraram de atacar as suas opções, por isso eu digo que de Bestial a Besta vai um “ratito”.
    Da mesm forma que não concordo com a perda de alguma soberania nacional, com a integração de pleno direito na Comunidade Europeia, ainda mais agora, alargada até aos limites geograficos da Europa, não posso também concordar com esta ideia de centralidade madrilena, que tornaria ainda mais redundante tudo quanto Portugal enquanto nação ainda representa no contexto Mundial, embora já não seja muito, diga-se também, em abono da verdade.
    Talvez que sejamos muito pequenos no pensar, ou muito grandes no nosso reafirmar de caracter e orgulho, para continuar a defender que quem nasce em Portugal, é ainda um Português, e não um Iberico.
    Sim porque pessoas só são numeros para estatisticas, para tudo o resto continuam a ser seres pensantes.
    E obviamente cada um pensa por si!
    Deixemos então, democraticamente, pensar (em voz alta) o laureado Saramago, porque quem pensa - pensa!…
    João Massapina

  3. 3 João Rafael

    Eu acho que o Paulo Querido já devia estar num combio a caminho de Badajoz. Aliás são teorias do contra que nos diferenciam tanto dos outros, num mercado global aqui pensa-se em Ibéria (taditos). Acho que de certa forma o Saramago tem algo a ver consigo, ambos escrevem ao potes, mas quando pensam muito ou tentam dar nas vistas, só dizem disparates. A difrença entre um portugues e um espanhol é precisamente essa, a absurda mentalidade do raciocinio pequinino, mas ele vem debaixo… “esses” são os piores erros deste país, mas infelismente temos que viver e conviver com eles e só por isso somos maiores.

  4. 4 Paulo Querido

    Caro João Rafael, obrigado por me ter feito rir! :) Dos espanhóis, não sei, tenho uma ideai diferente da sua — mas você, não sei se por ser português, ibérico ou outra coisa, tem efectivamente uma mentalidade pequenina e quando escreve só diz disparates.
    Deduzir-se-ia, por exemplo, que para si o mercado global é uma razão para a não-existencia de políticas regionais, de nações, quiçá mesmo de organizações federalistas (Brasil, EUA e UE, nomeadamente). Um disparate.
    Fazer uma comparação, mesmo que pela quantidade, entre eu e Saramago também é, desculpe que lhe diga, um disparate sem pés nem cabeça. É público e notório que eu ao menos sei onde ponho as vírgulas, e Saramago escreve muitíssimo mais que eu.
    A Iberia é uma realidade geográfica e económica. Geografia e economia são duas das melhores razões para gerar uma organização de defesa de interesses — por outras palavras, um governo, directorado, colégio decisor, whatever.
    Não pensar além da nossa banheira, como parece ser manifestamente o seu caso, João Rafael, é “de certa forma” uma incapacidade cultural e até humana. Infelizmente, comum.

  5. 5 João Rafael

    Não deduza, porque quem confunde questões territoriais e culturais com uma injecção de economia de mercados regionais expansiveis, é muito… digamos, paralelo.

    Mas deixe lá, que isso com o tempo passa-lhe.

  6. 6 Paulo Querido

    A confusão, meu caro João Rafael, não foi minha mas sim sua: “são teorias do contra que nos diferenciam tanto dos outros, num mercado global aqui pensa-se em Ibéria”.
    As questões territoriais e culturais são — e você, culto como é sabe-o melhor que eu — transitórias na escala da História. A divisão “territorial” ibérica (falo da fronteira entre as duas nações de juri) não existe: existe uma fronteira política e artificial. Que, de resto, é a principal causa da diferenciação cultural que se prolongou por pouco mais de 3 séculos: 18, 19 e 20. A tendência no século 21 é para esbater a diferenciação — até na língua, pois que no resto essa tendência já vinha de trás e entre as gerações abaixo do 25 é uma incongruência.

  7. 7 Paulo Vilela M. Costa

    Algumas objecções ao iberismo:

    1) Espanha está em desagregação. O País Basco e a Catalunha estão cada vez mais separadas de Espanha. Então, a quem é mesmo que nos queremos juntar?

    2) As empresas inglesas, alemãs, francesas, quando se implementam em Portugal, colocam cá quanto muito o Administrador-delegado. Os quadros são normalmente portugueses.
    Quando uma companhia espanhola se implementa em Portugal, implementa-se a partir de .. Madrid. Que ganham os portugueses com isso?

    3) Já assisti à “iberização” de muitas multinacionais. Em praticamente todos os casos as decisões de topo começam a ser tomadas em Madrid. As chefias intermédias desaparecem em Portugal, e as decisões intermédias também começam a ser tomadas em Madrid. E sistematicamente essas empresas começam a perder terreno no mercado português face às empresas que tomam as suas decisõem em Portugal, baseadas na realidade e no mercado português.

    4) Outra consequência da “iberização” das empresas é o”desaparecimento” da língua portuguesa. Quando as decisões são tomadas em Madrid, a língua de contacto., a língua das reuniões, a língua dos documentos passa a ser o ibérico, perdão, o espanhol, perdão, o castelhano.

    5) Já estamos a integrar Portugal numa entidade multinacional. Chama-se Europa. Aí, temos uma representação, um comissário, 1 lugar no Conselho de Ministros, e durante estes seis meses, até vamos ser presidentes da Europa.
    Alguma vez nos deixariam ser presidentes de Espanha, mesmo por 1 dia ? (ou de Iberia, vai dar ao mesmo)

  8. 8 Paulo Querido

    Caro Paulo Costa, boas objecções, sem dúvida. Tentarei responder aos seus argumentos, ou pelo menos aos que puder.
    1) não se trata de juntar. Talvez tenha sido essa a leitura das palavras de Saramago, mas não é disso que falo. Para mim, o iberismo é um facto pouco assente e admitido, mas cada vez mais um facto à medida que novas gerações surgem, sem as referências do passado às nacionalidades (o século XXI deverá ser marcado nas primeiras décadas pela perda da referência habituais da geografia; nas décadas seguintes dependerá da evolução da energia e da água).
    Nós já estamos juntos. Na península ibérica — um lugar de tribos, se quiser.
    Politicamente, não vejo diferença de maior entre existir um ou dois governos na península: o que é estratégico para o continente é decidido no Parlamento Europeu, o que é local é decidido ao nivel autárquico.

    2) Há de tudo. O quadro não é exactamente esse. E o management ( que eufemisticamente chamam de empresários e “líderes” hoje em dia) não tem nacionalidade, não quer ter (quer é fins de semana em Londres e Nova Iorque e férias na América Central) e tem raiva a quem queira — a menos que isso signifique poder cortar nas despesas e fazer economias de escala (o que hoje pomposamente passa por “gerir”).
    A segunda parte da resposta é mais fácil: ganham gestores mais competentes e melhores salários.

    3) No mercado global, o que diz não faz sentido. Temos empresas portuguesas a operar um pouco por todo o mundo. Ou o mercado é global, ou não é. Não podemos dizer que é para umas coisas e que não é para outras (este é actualmente um dos grandes “truques” do discurso político sobretudo à direita e centro-direita).

    4) Iup. Conscientes da importância do castelhano no mundo, no século XXI, cada vez mais estudantes portugueses do secundário está a aprendê-lo como segunda língua. Curiosamente, o mesmo se passa nos EUA…
    Com mais de 400 milhões de falantes de português no mundo, não consigo aceitar o argumento da língua.
    (Veneno puro: quando as decisões são tomadas pelo presidente dos EUA, a língua dos documentos passa a ser o Inglês.)

    5) Sem dúvida. As minhas prioridades: sou algarvio, português, ibérico e europeu. Posso muito bem deixar cair o português, por achar que perdeu o sentido manter um artificialismo cultural e económico, mas o mesmo não sucede com o algarvio, o ibérico e o europeu. As raízes no Algarve são fortes ainda assim, a geo-política regional define-se pela bitola da península ibérica, onde estão os vizinhos naturais, e à Europa reservo o papel macro: macro-político, macro-estratégico e macro-económico, na lógica de 3 2 blocos em que se desenham as forças internacionais.

    Enfim, argumentos a favor e contra. Esta é uma boa discussão, que aceito. Não aceito, como disse, é o unanismo em torno da crucificação de Saramago (fosse outra figura, sem Nobel, e com lastro à direita, e não teria havido metade do barulho sobre o homem).

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