Paradoxo: a web encolhe

Experimente procurar por José Sócrates no Google. Ou por Bill Gates. Manoel de Oliveira. A primeira resposta do motor indica a mesma fonte para os três: a Wikipedia. Esta hegemonia indica que a web encolhe, apesar de crescer. Um paradoxo? Na realidade, não.
Pense nos seus próprios gestos. Quando abre o browser, onde vai? A maioria começa pelo Google, ou pelo YouTube, ou pela Wikipedia, ou pelo MySpace ou outro site de social networking. São estes os sites de que os jornais e a televisão mais falam, são estes os que têm mais links (e este artigo cumpre as duas “regras”).
Uma grande quantidade de pesquisas acaba, aliás, nalgum deles — com maior preponderância para a Wikipedia. Com efeito, uma pesquisa nos buscadores por uma personalidade acabará quase de certeza nessa enciclopédia aberta e livre. Experimente “clicar” nos seguintes nomes: Bill Gates, Manoel de Oliveira, José Sócrates — ou Francisco Pinto Balsemão. (Já o meu nome, Paulo Querido, não produzirá obviamente um link para a Wikipedia porque é — felizmente para mim — destituído de fama; experimente googlar também o seu.)
Há outros exemplos de pesquisas que têm forte probabilidade de, entre 100 milhões de domínios com milhões de milhões de páginas indexadas, acabarem na Wikipedia: pessoas, lugares ou coisas. Como solidão. Ou Portugal
«A hegemonia da Wikipedia», defende o investigador e escritor Nicholas Carr na sua coluna desta semana no Guardian, «é somente a mais surpreendente manifestação de um fenómeno mais amplo: a world wide web está a encolher».
Carr exemplifica com o nosso tempo, gasto na sua maioria nos «megasites» que por sua vez são em número cada vez menor. «As florestas selvagens da Internet estão a ser transformadas em grandes fábricas de informação» (fonte).
Há um número cada vez maior de domínios e possíveis fontes de informação e os existentes por sua vez também crescem. Os grandes tornam-se brutalmente maiores, enquanto os pequenos crescem à sua medida.
Nicholas Carr socorre-se dos números sobre a expansão Internet que Richard MacManus tinha juntado já há alguns meses. MacManus verificou que entre final de 2001 e final de 2006 o número de domínios cresceu mais de 75 por cento, de 2,9 milhões para 5,1 milhões. Juntou outro dado desse período: «a predominância dos domínios mais populares cresceu substancialmente. No final de 2002 os dez websites do topo tinham 31 por cento das páginas vistas na net. Em finais de 2006 o top ten contabilizou 40 por cento dos pageviews».
Há mais fontes de consulta, mas visitamos menos. Por outras palavras, a web está a encolher. Este fenómeno de concentração é tudo menos novo e está presente em todas as actividades económicas ligadas ao capitalismo (está mesmo na génese deste, que consiste precisamente em acumular o capital a partir do trabalho). Na sua apreciação têm sido usadas ferramentas de análise como a curva de Pareto, também conhecida por 80/20 (20 por cento da população concentra 80 da riqueza, 80 por cento das vendas vêm de 20 por cento dos clientes, e por aí fora).
O que a Internet e o digital trouxeram de novo foi o baixíssimo preço de produção e distribuição de produtos de informação. Enquanto na economia da escassez é sensato aplicar os esforços para aproveitar o potencial dos 20 por cento dos produtos que vão proporcionar 80 por cento das receitas, na economia da abundância há um mundo de 80 por cento de produtos para vender — é, tanto quanto o posso dizer numa frase, o que explica Chris Anderson em A Cauda Longa, traduzido em Portugal apenas há três meses.
(Expresso, 26/05/2007)

publicidade
Neste momento, a actualidade nacional numa única página
Mercado das Previsõeso jogo da sabedoria das multidões


Editado sobretudo com Wordpress
Desenho de página: trabalho TubarâoEsquilo
derivado do original 3K2Redux klein
Validar XHTML, CSS.
Topo