Redes P2P emergem da ilegalidade

Tidas por anátemas nas indústrias de entretenimento, as redes peer-to-peer (P2P), mais celebrizadas como os grandes ramais da pirataria musical e cinematográfica na Internet, começam a deixar as zonas cinzentas da lei abrindo-se à prosperidade empresarial.
[ Nota: artigo publicado no Expresso em 6 de Janeiro de 2007. Reprint aqui, para efeitos de arquivo — e com uma pitada de sal, tendo em conta mais uma cena triste que nos foi proporcionada pelos auto-proclamados defensores dos artistas. ]
A BBC entra o ano de 2007 com um acordo impensável de celebrar há escassos meses – e mesmo hoje alvo de espanto. O seu braço comercial, a BBC Worldwide, e a empresa Azureus firmaram uma colaboração que permite à televisão britânica despejar centenas de episódios e programas seus na rede de partilha de ficheiros da Azureus. A vice-presidente de programas e media digitais da BBC Worldwide, Beth Clearfield, referiu que o acordo é parte de uma estratégia para atingir a maior audiência possível e acrescentou algo que faz corar de raiva e remorsos os dirigentes da indústria musical: «estamos muito excitados com a parceria com a Azareus e por irmos distribuir os nossos conteúdos através desta rede revolucionária».
A televisão de Sua Majestade está entre os primeiros grupos de media a aproveitar os tremendos benefícios das redes de partilha de ficheiros popularizadas pela actividade da pirataria musical (ver quadro Cinco vantagens do P2P). Em Dezembro a Twentieth Century Fox chegou a acordo para a distribuição de video com a BitTorrent, actualmente a mais popular destas redes e que recebeu no sapatinho 20 milhões de dólares de capital de risco; tem planos para os conteúdos de outros estúdios de Hollywood e também da MTV, que se juntam à Warner Bros e à Fox. Um gigante da distribuição de video em perspectiva, capaz de, sozinho ou com a “ajuda” da Azureus, remeter a Google e o Youtube a um nicho de mercado.
A principal barreira das empresas face ao P2P tem-se vindo a esbater: o conceito de pirataria, associado à noção de direitos de propriedade sobre um bem intangível como um ficheiro video ou audio, tende hoje para a irrelevância e em breve será substituído na escala de valores económicos – pelo conceito de atenção, provavelmente. As vantagens de um circuito de distribuição maduro tecnológica e socialmente são demasiado apelativas, sobretudo quando pairam ainda incertezas quanto aos modelos comerciais dos grupos de media e Imprensa.
Para quem andou estes anos a suportar o ónus da pirataria, alguma credibilidade proporcionada por estes acordos é uma benção. «Isto vai ser uma experiência muito diferente para as redes de partilha de ficheiros», congratula-se Gilles BianRosa, CEO da Azureus. Não apenas porque os ficheiros serão legais e protegidos de forma a não poderem ser revendidos por terceiros, apenas partilhados. Mas também porque a empresa vai usar neste acordo uma nova versão da tecnologia de sharing com interface e filosofia semelhantes ao YouTube mas que permite videos de alta definição, o que Youtube é impensável devido ao tamanho dos ficheiros.
Os utilizadores mundiais da Azureus, cujo programa teve mais de 130 milhões de downloads, poderão em 2007 puxar e ver versões em video de alta qualidade de programas de audiências como Red Dwarf e Doctor Who, e clássicos do género Fawlty Towers. Esta é outra vocação das redes de partilha: permitir o reaproveitamento comercial de séries que já sairam da programação através de novos “canais” de custos mínimos.

Cinco vantagens do P2P
1. Custos de distribuição perto do zero – Os ficheiros residem nos discos dos utilizadores, dispensando investimentos pesados em armazenamento e leoninos em largura de banda
2. Redes de consumidores estabelecidas – ao longo dos últimos anos as redes de pirataria fidelizaram centenas de milhões de pessoas, facilmente convertíveis agora em clientes
3. Custos de promoção mínimos – promover um episódio ou programa neste circuito é praticamente gratuito; os próprios entusiastas de cada show se encarregam de difundir as novidades
4. Avanços tecnológicos assegurados – as técnicas peer-to-peer estão maduras mas ainda têm margem de progressão, com a vantagem de serem “transparentes”: sendo quase exclusivamente lógicas, não há um “parque informático” para renovar
5. Propriedades camaleónicas – uma rede P2P distribui qualquer conteúdo digital. Por exemplo, a telefonia em IP (Skype, entre outros) assenta em P2P. De software a jogos, aceita tudo – incluindo video de alta definição

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