A blogosfera e a opinião
publicado 16 Agosto 2007 em reflexões.“Paulo Querido, o que faz você no Certamente! e no Cibercidadania, a não ser opinião?” — pergunta-me o Carlos José Teixeira num artigo onde critica com atenção o meu texto no Expresso online os jornalistas e os blogues.
Resposta rápida, tipo título e lead: escrevo opinião, no primeiro caso em tom pessoal, no segundo caso em tom profissional. Mas não escrevo apenas opinião: faço “comunidade”, crio, destruo e mantenho laços com os leitores.
Resposta um pouco mais lenta: quando no Expresso escrevo “um blogue não é uma coluna de opinião na net” estou a dizer a leitores menos óbvios o que os leitores óbvios (como o CJT é, basta lê-lo) já sabem: um blogue é um diálogo com os leitores (mesmo os bloggers que não usam caixa de comentários dialogam, seja por posts cruzados, seja em resposta a mails, artigos, posts e outras “provocações”).
Se o Certamente! fosse um website onde publicasse a minha opinião pessoal sem cuidar do que nele respondem os meus leitores, das citações que me fazem na blogosfera (como esta, de CJT) e em geral de intervir nas conversações que decorrem pela web, então eu estaria a ter uma mera coluna de opinião na net e não um blogue (o webzine comporta o lado blogue, ao lado de outros conteúdos que escapam à lógica da publicação diarística e conversacional).
Já no Expresso a coisa é mais complicada. Demoro a encontrar o tom certo (como diz o Luís Carmelo, com grande felicidade na escolha do termo). Aind mantenho uma posição rígida e formal na abordagem quer dos posts, quer dos comentários. A minha opinião ali expressa, se bem que opinião e pessoal, está mais trabalhada em termos das práticas jornalísticas, desde a investigação à verificação dos factos. Com o tempo tenho também cuidado mais do Certamente!, a diferença está em que aqui ainda publico posts totalmente diarístico-pessoais, como as fotos de viagens e notas familiares ou de amizade, coisa que não me passa pela cabeça fazer no Expresso.
Mas num caso e noutro estabeleço laços quentes — sendo essa a grande diferença entre o meio web, onde tudo é quente fervente, e o meio papel, que é frio, a frouxa interactividade é intermediada pela Redacção e, deixemo-nos de merdas, totalmente controlada por um dos lados.


Ficamos então pelas principais diferenças: a interactividade com os leitores e o controlo feito pela redacção, segundo entendi.
Mas, assim, surgem mais algumas perguntas:
- Não poderemos estar a pensar numa nova e emergente forma de jornalismo - digamos, jornalismo interactivo - em que exista a liberdade do leitor comentar a notícia? Claro que aqui se impõe perguntar se o jornalista deve ou não responder aos comentários.
- Um blog que tenha a caixa de comentários fechada deixa de o ser?
- O conceito de Web Social poderá considerar-se nos casos em que os jornais, oferecendo um site com possibilidade de discussão e comentários, abrem essa interactividade ENTRE o público?
Grato pela atenção ao post,
Abraço,
CJT
Caro CJT,
principais diferenças entre o quê? Se é da diferença entre emitir opinião no jornal papel e num blogue, então sim, a interactividade é uma diferença grande.
Mas esse não era o ponto, pelo menos para mim. O meu ponto, na passagem em questão, era: os jornalistas não estão a aproveitar a ferramenta blogue para fazer jornalismo, mas sim para terem um comportamento similar à dos restantes cibernautas, usando-os para as suas opiniões e conversas. Isto, claro, tem matizes e refere-se a uma tendência maioritária, não à totalidade.
Respondendo às novas questões:
1. o jornalismo tem de facto a ganhar maior interactividade e proximidade com as audiências e o jornalista deve responder, ou não, aos comentários consoante os critérios que forem definidos e ele achar convenientes.
2. Não. Um blogue não se define por ter ou não caixa de comentários, nem estas são a única (nem, imho, a mais nobre) forma de interactividade. Repare no nosso próprio exemplo: tivemos duas interacções antes do diálogo passar para uma caixa de comentários.
3. Sim. É um dos critérios para avaliar o grau de envolvimento com o social networking.
Caro PQ,
Perdoe-me a insistência que advém somente do facto de ser picuínhas e gostar de compreender as coisas - o que, no caso da comunicação já começa a ser uma obsessão…
Não quero, de resto, transformar a sua caixa de comentários num fórum, mas… cá vai:
Eu creio ter compreendido o teor do seu artigo no Cibercidadania e, interpretações aparte, a única coisa com que não concordei foi com o facto de afirmar que um blog não é uma coluna de opinião na net. Claro que você diz que não é, não diz que o não possa ser. Daí a minha pergunta à qual responde precisamente o que eu esperaria de si.
Segundo entendo, o Paulo Querido divide a sua actividade na blogosfera em duas formas de exercício: a de opinião - livre e assumidamente pessoal - neste seu blog [que se tornou "de referência" precisamente por isso, seja de que assunto trate] e a de exercício jornalístico no blog do Expresso.
Peço-lhe que me desculpe mas, no mesmíssimo artigo em que escreve que um blog não é uma coluna de opinião, creio estar a fazer isso mesmo. Creio ainda que, de uma forma geral, é quase impossível não o fazer, mesmo considerando a objectividade, a recolha e confirmação da informação, etc.
De resto, estou mais de acordo consigo que outra coisa: é uma realidade que os jornalistas não estão a APROVEITAR esta ferramenta enquanto tal. Esquivam-se um pouco a uma tomada de posição enquanto profissionais de informação e fazem isso mesmo, colunas de opinião. Não vejo, no entanto, que venha grande mal daí ao mundo.
Creio que o principal problema será o da distinção “entre personagens”, séria questão que por vezes tenho abordado. Na minha opinião, um jornalista não tem, não deve ter que sê-lo as 24 horas do dia. No entanto, deve deixar saber inequivocamente “com quem estamos a falar”. Coisa que, de resto, o Paulo Querido sabe gerir. Todos temos direito a opinião e a divulgá-la.
Já deve ter reparado por esta altura que eu escrevo um pouco “avant la lettre”, por isso, se estes comentários [juntamente com os posts] são um pouco confusos, bom… tenha um pouco de paciência.
Para finalizar:
Creio que o jornalismo tem na blogosfera um potencial muito grande de transformação da actividade. A interacção com os públicos serve para os mais variados propósitos, inclusivamente como recolha de opinião e informação.
Acho que a opinião do jornalista deve ser exercitada quando hajam condições para tal e que, nessas condições, deve ser livre de constrangimentos editoriais e que, se para tal necessita de um blog, seja bem vindo.
Também creio firmemente que pessoas como o Paulo Querido e muitos outros, jornalistas de profissão e bloggers por paixão, devem sentar-se à mesa e organizar a coisa por forma a constituir uma rede de informação na blogosfera que, independentemente das votações do género digg’s ou assim, confira a necessária credibilidade a essa mesma rede. Digamos que um TubarãoEsquilo da Imprensa…
Um abraço,
CJT
Off-Topic
Deixo o desafio:
http://blogotinha.blogspot.com/2007/08/desafio-factos-casuais.html