O papel dos miúdos no quadro familiar está a ser redefinido pelas suas competências digitais. Nos EUA, 14 por cento das crianças e adolescentes preencheu o impresso dos impostos online e mais de um quarto foi chamado a ajudar nas compras online.

Mais de três quartos dos jovens americanos entre os 8 e os 14 anos já finalizou operações financeiras através da web, a maior parte delas a favor do pai ou, principalmente, da mãe. Os dados provém de um estudo da Stars for Kidz, empresa dedicada a pesquisas sobre os comportamentos dos jovens na Internet. O inquérito teve âmbito nacional e englobou 6.064 indivíduos de ambos os sexos.
Entre as principais tendências reveladas está o crescente recurso aos filhos, mais experientes e ambientados no mundo online, para ajudarem nas compras realizadas nas inúmeras lojas de comércio electrónico, bem como a quase paridade de género, com a meninas um tudo-nada abaixo dos rapazes nos principais quadros. Uma em cada quatro raparigas (25 por cento) faz compras a pedido de alguém do agregado familiar. Quando mudamos para os rapazes, a percentagem sobe para os 29 por cento.
“Cada vez é mais evidente que a nova equação do marketing é mãe + filho = uma entidade consumidora. Esta pesquisa indica com clareza que mães ocupadas e filhos info-instruídos juntam esforços como compradores online”, referiu a presidente da Stars for Kidz, Adele Schwartz.
A opção de deixar os miúdos participar nas compras online da família já se tinha notado no início deste século; tem é vindo a evoluir. Entre outros realizados na altura, um estudo de 2001 conduzido pela NFO WorldGroup demonstrava que três quartos dos adultos que compravam os livros escolares deixava os filhos mais novos participar apontando os livros, e metade deixava-os escolher primeiro as lojas onde pretendiam fazer as compras, bem como todo o processo de selecção, intervindo apenas no momento de pagar. Somente um terço dos pais desse tempo respondia confiar o pagamento aos fillhos, fosse qual fosse o método – mas como os estudos não seguem a mesma metodologia, a comparação com a actualidade (77 por cento dos miúdos efectuou pagamentos autorizados) deve ser tomada como meramente indicativa.
Hoje, mais adultos confiam os seus cartões de crédito aos filhos, depositando maior confiança à medida que estes crescem. De acordo com os números da Stars for Kidz, aos 14 anos 30 por cento das raparigas e 26 por cento dos rapazes usa o cartão dos pais para as compras, números que sobem respectivamente de 11 e 19 por cento aos 8 anos.
Este quadro indicia, ainda, que os rapazes são mais rápidos a aquirir conhecimentos sobre as lojas e as transacções online; as raparigas começam mais tarde, mas acabam por ser de maior confiança. Eventualmente, por cometerem menos erros que os rapazes…
Ainda que este estudo tenha o defeito, muito comum no mundo da tecnologia, de valorizar os números que mais jeito dão à indústria, as tendências de consumo não podem porém ser ignoradas. “Crianças que ajudam as mães e pais em tantas tarefas online”, algumas delas delicadas e que revelam um grau de confiança, “podem exercer maior influência no consumo familiar do que pensamos”, diz Adele Schwartz. “Todos os marketeers deviam reconsiderar os processos de construção do relacionamento dos consumidores com as marcas, especialmente entre as crianças”.
Jovens que não se limitam a ajudar a família, também compram por conta própria. Preferem quase exclusivamente entretenimento e as lojas favoritas são, por ordem decrescente, as de música, video-jogos, filmes, leitores de MP3 e merchandising relativo a celebridades. Já para os pais, ajudam regularmente no processo de aquisição de automóveis, consultas médicas, planeamento de férias, mercearias e prendas.
Um tanto surpreendente é a percentagem de americanos desta faixa etária que já possuem um cartão de crédito próprio, que evidentemente usam nas suas compras: 9 por cento dos rapazes e 8 por cento das raparigas. Mesmo para um americano, mais confortável com a ideia do crédito, o número faz disparar a campainha de alarme. Michael Block, um analista de comércio electrónico e marketing (Tamming the beast.net), chama a atenção para a importância do estudo também para os pais, e não apenas na perspectiva das empresas. “Está certo, os miúdos compram com a confiança dos pais a espreitar por cima do ombro, mas não nos devemos esquecer que também o fazem quando estão sozinhos. E há lojistas por aí atentos em particular ao comportamento de comprador impulsivo que caracteriza os jovens”. Block refere explicitamente um exemplo “clássico: os toque e outros serviços de telefonia móvel”.

(Expresso Economia, 28/07/2007)

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