Spinning transgénico
publicado 27 Agosto 2007 em tomem os comprimidos!.Nota de abertura: nada me move a favor dos arruaceiros de Silves nem estou aqui a defendê-los, ou à palhaçada que fizeram. Em princípio, sou cautelosamente a favor do uso de transgénicos. Cautelosamente também, considero-me mal informado sobre o que se passou e sobretudo sobre o enquadramento local (Algarve) da questão dos alimentos transgénicos.
Mário Crespo está a fazer péssimo jornalismo: agressivo sobre o entrevistado, paternalista sobre o jovem, mais juiz que um “tribunal popular”, a recorrer a todos os truques para cortar o discurso ao entrevistado e expedientes para o ridicularizar. E no entanto será aplaudido e certificado pelos comentadores do costume.
Mário Crespo está a fazer desinformação. Estou há vinte minutos a ouvir reprimendas sobre a acção e os propósitos de quem a pratica e não consigo retirar uma frase informativa. E no entanto receberá palmadinhas, as palmadinhas nas costas típicas de uma certa direita que, subtil, mede o sucesso pelo barulho das palmas que dá.
Sempre que o entrevistado — a quem manifestamente não falta consistência argumentativa de base, mesmo que vacilante e (na minha perspectiva) profundamente equivocada — estava a conseguir articular uma ideia, Crespo cortava a fala com “você saberá melhor disso que eu”, matando o assunto. Mesmo que para a ele voltar, qual galinha decepada, 30 segundos depois. Crespo que mostrou estar muito mal preparado para o tema, sendo incapaz de avançar para lá da linha de água das frases feitas tiradas à pressa da “blogosfera”.
Isto é uma não-entrevista, é um debate ideológico entre extremistas — sendo Mário Crespo o pior, porque mais hábil com a palavra em televisão. Sujeito desde o primeiro dia a uma cortina de spinning que procurou a) desvalorizar ou até evitar o debate sobre os transgénicos, b) engrupir os leitores e enrodilhar nas mesmas águas grupos distintos que, no calor da refrega, se puseram a jeito para ficarem indistintos, c) pressionar o o governo e d) levar às manchetes um assunto com o potencial mediático para de lá tirar, piedosamente, o mau espectáculo das directas no PSD, o acontecimento de Silves — sem peso, só por si, para trepar e ficar nos noticiários — depressa se tornou em material de guerrilha ideológica para consumo das elites ociosas.
Não há debate sobre vantagens e desvantagens, sobre necessidade e alternativa, sobre a instrumentalização política de nações para vergar outras. A intervenção, meticulosamente preparada para colocar o arnês nas repercussões mediáticas e cavalgar o assunto na direcção pretendida, inquinou o espaço público e livre.
A partir desse momento em se pega fogo à notícia, cada pessoa contará a história que mais lhe agrada ouvir. Mário Crespo está a contar-nos a história em que ele acredita. Não está a procurar contar a verdade — seja ela qual for.
Qualquer relação deste episódio de terrorismo sobre a opinião que se publica com o país real é mera imaginação.
- 1 Pingback on Ago 28th, 2007 at 11:53


Desde cedo sempre olhei com alguma desconfiança para o jornalismo feito por Mário Crespo, apesar de ultimamente me ter surpreendido pela positiva pela forma desinteressada e mais ou menos imparcial com que, quando tinha oportunidade de o ver na televisão, parecia comentar as notícias (se é que um jornalista se poderá dar ao luxo de as comentar sendo na mesma consideradas notícias e não opiniões… a velha questão que o jornalista deve dar notícias/factos e não opiniões).
Não tive oportunidade de ver essa entrevista conduzida por ele, mas tive oportunidade de ver um jornal que admirava pela sua imparcialidade, Diário de Notícias, veicular durante uma semana artigos de opinião de pessoas que só sabiam falar deste assunto, para dizerem todas o mesmo. Nem sequer reflectirem um pouco no que possa ter levado aquela acção e se, de uma forma algo retorcida, não terá sido benéfica para um verdadeiro debate que certas associações que se demarcaram do acontecimento, têm vindo há anos tentar trazer a público sem que lhes seja dado tempo de antena.
Pior que isso, vejo editoriais do mesmo jornal com “a mesma conversa” e depois mais artigos de opinião a ridicularizarem os grevistas da Groundforce, de uma forma completamente inapropriada e sem respeito nenhum por um direito que nos assiste e sem o qual muitos trabalhadores seriam bonecos nas mãos dos seus patrões (ainda mais do que são, não sem saber que também muitos trabalhadores abusam dos direitos que lhes são concedidos…). A juntar a isso só mesmo as rídiculas afirmações que aquela greve só servia para provar que os trabalhadores eram dispensáveis.
Há já algum tempo que deixo de ler certos jornais pela tamanha falta de jornalismo evidente nos mesmos, apresentado artigos de opinião como notícias, isto é, realmente alguns factos estão lá, dispensavam-se eram os comentários muitas vezes jocosos e a denegrir pessoas e instituições ou a ocultação de alguns factos que dariam outra perspectiva sobre a notícia). Algo que também me fez deixar de ler de forma mais atenciosa alguns jornais é o leque de comentadores que possuem, sendo uma grande falange pertencente a uma mesma facção/flanco político, mais parecendo jornais de partidos que jornais independentes.
Está cada vez mais difícil encontrar jornais/televisões onde se possa ler/ver-ouvir notícias redigidas e conduzidas de uma forma imparcial e completa… negros vão os tempos do jornalismo (e falo do puro, não daquilo que normalmente se chama de “jornalismo”) em Portugal, cada vez mais controlado por interesses económicos/políticos, algo útil, pois quem controla a informação controla o mundo, neste caso, o país.
Pelo menos é a minha opinião, não sou detentor de toda a verdade nem isto é uma notícia, apenas a minha opinião.
Queria só acrescentar que se os jornais e algumas televisões continuarem assim, mais vale seguirem o exemplo do “Avante!” ou outros jornais de propaganda similares de partidos/grupos económcios… ao menos quando/se o lemos sabemos por que filtro passaram as notícias podemos ter um filtro nosso para compensar.
Caro S.V.,
eu não dou para o peditório dos jornalistas controlados
No caso vertente, talvez convenha adiantar que conheço o Mário Crespo há imenso tempo, era ele director de A Capital (uma maldade que lhe fizeram), e tenho-o seguido até na SIC. É o noticiário que mais vejo, de longe.
O Mário é capaz do melhor e do pior. Hoje esteve francamente mal. Mas são mais as vezes em que está bem.
Mas de alguma forma as suas palavras ecoam. Também eu acho que há alguma (muita) confusão entre o que é notícia e o que é opinião. Hoje os papéis confundem-se: os jornalistas não resistem aos encantos de opinar (influenciar, deixar uma marca), enquanto os opinadores não resistem aos encantos de “noticiar” (revelarem a sua visão do mundo, sujeita a uma agenda determinada, como se fosse A Verdade).
Com efeito, os cronistas também sofrem com esta crise que desceu sobre o modelo de negócio dos media. Em vez de explicarem acontecimentos, andam zaranzas a inventá-los e a contar histórias em cima das invenções — querendo moldar a realidade à sua visão do mundo. Vem-me agora à cabeça o exemplo de Marcelo Rebelo de Sousa a opinar sobre a Wikipedia, algo que ele desconhece e não compreendeu. Mas isso não o impediu de contar a história em que ele acredita no caso da ficha de Sócrates alterada (também) por alguém com acesso à rede gov.pt. Condenou a acção com base em dogmas partidários, sem nenhuma espécie de relacionamento com a realidade (o que é aquele meio).
A ânsia de dar respostas a tudo determina em grande medida este frenesim louco dos opinion-makers, antigamente pessoas reflectidas com que se podia contar. Algumas, ainda pode. Descontados os seus defeitos e barroquismos, Pulido Valente é um valor seguro, por exemplo.
Eu vi a entrevista, achei que por vezes se ultrapassou o limite, ainda assim foi bastante esclarecedora e dará certamente um bom ponto de partida para se discutir os transgénicos, o activismo e até o jornalismo. Qualquer um destes temas não se fecham em 30 minutos. Aliás o Gualter em determinada deu uma bela réplica ao confrontá-lo, se sabia o que era o open-source (já que não era especialista!).
O Mário Crespo é um jornalista iniciado na SABC da África do Sul, aí, as entrevistas ou debates são confrontos sãos, claros e incisivos. De escola anglo-saxónica, onde existem linhas editoriais, não ilusivamente equidistantes. Ao contrário temos em Portugal entrevistadores que deixam o protagonismo completo ao entrevistado, com perguntas abertas, deixando-o normalmente em roda livre, como que deslumbrados, muitas vezes sem sequer fazer algumas perguntas importantes e incisivas, à procura de respostas claras.
Talvez desde os tempos de Margarida Marante e Miguel Sousa Tavares, que não encontro um, único, bom entrevistador em Portugal. Eventualmente não será o Mário Crespo, mas é sem dúvida o que mais se aproxima.
http://pequenaloja.blogspot.com/2007/08/entrevistas-encrespadas.html
quando o jornalista parte para a entrevista pouco moderadamente a favor da questão ou sei lá a tentar “defender” a democracia e suas leis, o resultado é o que se viu. O problema é q a notícia não é só um bando de activistas (arruaceiros, ecofascistas, ecoterrorristas para os que não querem ver os trangénicos como uma das actuais lutas sociais que como tal, se reveste de acções que também podem ser ilegais…) a invadir uma propriedade privada e o ridículo apoio de um ministro a um agricultor indefeso.
Esse pobre agricultor desrespeitou a decisão dos seus pares em manter o Algarve fora dos transgénicos.
O milho é uma das culturas mais dramáticas em termos de contaminação uma vez que poliniza pelo vento a km de distância! Se eu tiver um campo de milho biológico nas imediações, contaminado por esse milho “legal” , onde é que fica a minha propriedade privada??? quem me defende? o senhor ministro??? se não me obrigarem a pagar royalties à Monsanto por furto de sementes patenteadas como aconteceu no Canadá estou com sorte…
Quanto á questão de não haver provas dos riscos para o ambiente e saúde toda a gente assobia para o lado. Há cada vez mais estudos preocupantes, é só procurar. Alguém por acaso já consultou os estudos existentes sobre os efeitos deste milho na saúde dos ratinhos e, já agora, na saúde dos humanos que lidaram de perto com a toxina BT??? Porque será que nesta questão dos transgénicos o princípio da precaução nunca se aplica???
http://stopogm.net/
Isto foi um pequeno acontecimento transformado em escândalo-inadmissível-numa-democracia, como se as democracias não se fundassem em movimentos mais ou menos ilegais, tou-me a lembrar de um tal de 25 de abril… estou do lado dos arruaceiros eco-qualquer-coisa-que-desejem pois não quero que me obriguem a comer aquilo que não quero, se continuarmos calados e quietinhos comeremos as sopas transgénicas todas que nos puserem no prato…