Tenho assistido de longe, entre o divertido, o estarrecido e o perplexo, à sucessão de falta de acontecimentos políticos que é conhecida genericamente por a crise do PSD. Raramente a palavra crise foi tão bem empregue: o que vai no PSD é um verdadeiro desnorte total, como se tem comprovado repetidamente desde as eleições intercalares para a Câmara de Lisboa — as longínquas e esquecidas eleições que acentuaram a crise.
Escrevo acentuaram porque a crise já vinha detrás, estava era afogada na barrela em que o partido mergulhou desde que José Manuel Barroso agarrou a sua oportunidade. A paz mendista atirou a crise para debaixo do tapete, como as antigas criadas desleixadas faziam ao varrer o pó.
Como se não bastasse, a crise do PSD insere-se num fenómeno cíclico da democracia com que a direita costuma constipar-se: a alternância democrática. Veja-se o estado cataléptico em que mergulhou o CDS/PP, de tal forma que nem o vulcão Portas conseguiu sacudir. Espero que tenham percebido que estão melhor assim, é preciso tempo fora da ribalta para redecorar o texto.
A derrota lisboeta acabou com a paz mendista. Para desespero dos barões, dos dois intelectuais (eu explico o plural: palmei Marcelo Rebelo de Sousa ao lado dos barões, acho que já é tempo) e para grande contrariedade das “forças vivas” da sociedade que, embora costumeiras apoiantes do centro-direita, estão a viver bem com Sócrates e querem tudo menos agitação.
Do ponto de vista destes, aliás, mais vale o preço público da actual crise do que a existência de candidatos credíveis.
Entre os dois actuais candidatos, a minha escolha — rigorosamente facultativa e obviamente irrelevante — seria sempre Marques Mendes. É fastidioso e desnecessário enumerar razões — nenhuma delas relacionada com as qualidades e os defeitos das duas personalidades e ainda menos com algum vestígio de ideias que, por um extraordinário acaso ou indesculpável descuido, tenha assomado ao discurso de cada um dos candidatos desde que a “corrida para o fundo” começou, no Verão.
O mais curioso na crise é que ela continua a não ser assumida pelo partido e seus militantes. Todos disfarçam, embarcando com grande gáudio no combate de insultos entre as duas personalidades, assistindo ao desfile de horas e horas com notícias e reportagens sobre esse assunto de capital importância para a vida política nacional que é a polémica das quotas — uma questão administrativa que, sem dúvida espelho das necessidades do país, tem sido O Grande Tema das directas do PSD.
O país, reconhecido, agradece. Com o telecomando.

  1. 1 JMF

    «Escrevo acentuaram porque a crise já vinha detrás»

    É estranha essa conclusão, já que até desde a vitória de Sócrates até Lisboa, o PSD ganhou tudo que havia para ganhar…

    Se a derrota de Lisboa foi uma derrota do PSD, as vitórias eleitorais desde Sócrates foram vitórias do PSD…

    De resto, a crise do PSD é a crise de um partido na oposição a um governo com maioria absoluta! Nada que o PS não tenha experimentado durante os 10 anos cavaquistas e não tenha superado, como se vê!

    É a teoria dos ciclos. Este é o ciclo do PS, com maioria absoluta. A ver vamos se se aguenta tanto como o do PSD com Cavaco…

  2. 2 Paulo Querido

    Caro JMF, só não vê quem não quer. Como se comprova pelo seu comentário-pingue-pongue, é o caríssimo livre de não ver ;)

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