A Internet está a matar os profissionais
publicado 10 Setembro 2007 em Geral.A leitura de The cult of the amateur está a perturbar algumas cabeças. A Internet está a matar os profissionais, é mais ou menos a ideia retida.
O livro de Andrew Keen é na realidade uma bela porcaria. Parte de premissas falsas, que mistura com algumas verdadeiras lapalissadas, e a seguir tudo faz para confirmar o preconceito de partida para o livro.
Aqui, tiro-lhe o chapéu. Keen identificou correctamente um nicho de mercado por explorar, dizer mal de um sistema que vive muito do auto-elogio e está cegamente apaixonado por si próprio, que à superfície parece ter pouca auto-crítica (sublinho: à superfície).
O que lamento é a abordagem ao nicho. Ken não conseguiu melhor que recorrer a uma mistificação: o livro parte do lamentável e inútil princípio de que um canudo é SEMPRE melhor que canudo nenhum e um detentor de canudo é SEMPRE um ser superior a todos os não-detentores de canudo, apresentados como um bando de macacos imbecis e aparentemente incapazes de apertar os atacadores sozinhos. Não estou a brincar com as palavras, leiam-no, Keen diz isto em cada frase.
Keen oblitera, simplesmente, o pequeno exército de especialistas nas mais diversas áreas — muitos dos quais com graus académicos, — que acorreu à publicação digital tirando partido da democratização dos meios de produção de comunicação de massas (é isto que a blogosfera é, para o bem como para o mal).
E efabula a posição dos media enquanto garantes da verdade e da confiança: para não ir mais longe, basta passar os olhos pela programação das televisões de todo o mundo desde a Segunda Guerra Mundial, da alienação pelo mau gosto nos EUA ai papel como arma de propaganda na ex-União Soviética, para destruir esse mito em que o livro assenta, o da superioridade “natural” dos media, todos iguais.
Adiante, que quero é fazer uma citação.
“Quando anuncia um corte de 750 milhões de dólares na produção de noticiário e ficção, a NBC planeia também investir 150 milhões em novos projectos digitais e oferta Internet como sites específicos para banda larga, blogues de actores e “webisodes” consumíveis apenas na Internet, mais baratos de produzir e usando actores desconhecidos em vez das actuais estrelas“.
Como se vê, os profissionais são uma pontualidade, uma casualidade — trabalhadores contratados quando há necessidade e despedidos quando deixa de haver necessidade. Ou antes, como não se vê: a citação é de… The cult of the amateur, tradução minha, segundo parágrafo da página 125 da primeira edição hardcover da Doubleday.
Não deixem de ler a crítica de Lessig — ele próprio atacado por Keen.
- 1 Pingback on Set 11th, 2007 at 15:55


Há cerca de um mês, referi o mesmo livro num post meu (http:// blog.jlandrade .com/?p=124).
Reconheço que não li o livro e basiei-me em algumas frases soltas que li por ai, por isso não posso defender o seu ponto de vista, mas algumas das tais frases fazem algum sentido (ainda não tinha lido a que o Paulo traduz) e não creio que esteja para breve algum genocidio de profissionais, mas acho que a internet está realmente a mudar muita coisa e até a refinar profissionais.
Agora que a internet está a matar pseudo-profissionais e a criar novos amadores, não tenho dúvidas.