Como deixei de fumar em 4 passos

Deixei de fumar já fez dois anos no Verão. Ontem mesmo decidi recapitular os 4 pontos que resultaram comigo porque ao final da tarde passei um longo teste de duas horas entalado entre um fumador inveterado à minha frente e fumadores que se revesavam atrás de mim. Se Diogo Infante deixa de fumar e faz uma campanha publicitária, eu posso fazer uns posts. Não temos os mesmos públicos e eu de qualquer forma tenho alvos melhor definidos, nichos por assim dizer; talvez dê força ao Daniel Oliveira — não para já, que ele não tem condição de dar o primeiro passo, mas quem sabe para um futuro não muito distante.
Um dos medos que sempre se ouve aos ex-fumadores é o medo de um dia voltar a pulsão por pegar num cigarro; o candidato a deixar de fumar adora estes motivos para se agarrar ao vício, pelo que as histórias continuam a circular. A minha experiência ao longo destes dois anos faz-me crer que tal medo é em larga medida um mito. E ontem à tarde tive uma nova prova disso: apesar das incessantes baforadas do Daniel e da barreira de fumo cruzado que suportei sem um ai (não correspondo, de todo, ao retrato-robô do ex-fumador), em momento algum me passou pela cabeça voltar a fumar. Não tive nenhuma vontade. Não senti nada — excepto algum desconforto, um pouquito de falta de ar e o cheiro, senhores, o cheiro, aquele cheiro nauseabundo de que nenhum fumador está consciente. Sei do que falo, fumei durante mais de 30 anos e nos últimos 15 o meu consumo médio diário ultrapassava os 40 cigarros — facilmente uma centena em noite comprida.
A vontade que tive foi de escrever este post. Ou melhor, uma curta série deles, porque ando com pouquíssimo tempo e de qualquer forma quanto mais compridos os textos, menos lidos são, dizem.
Vamos então ao primeiro dos quatro passos:

  • 1. Avalie a sua vontade de deixar de fumar

    É um clássico e, acredite-me, neste caso é um clássico comprovado. Sem força de vontade não deixará de fumar — não importa quanto dinheiro gaste em comprimidos, pastilhas, operações, curandeiros & feiticeiros e o diabo a sete.
    Mas eu dou-lhe mais que a frase feita da força de vontade.
    Na realidade, é a sua vontade que o candidato a ex-fumador tem de avaliar. Sopesar a força para escolher o melhor momento, optimizar o balanço. Ao longo do nosso percurso de fumador temos alturas em que a vontade é maior que noutras. Muitas vezes relaciona-se com o nosso momento, seja do que for: no emprego, em casa, o stress, o patrão, o projecto. Sei como é. Não vou contradizê-lo e ainda menos contrariá-lo; não sou um médico, o leitor não me está a pagar a consulta, não tenho nenhum contrato a defender, nenhuma marca a promover, não preciso de inventar nada. Da mesma forma, não vou invocar os argumentos do costume para deixar de fumar. Quero lá saber disso. Estamos todos FARTOS de saber os argumentos TODOS para deixar de fumar e não se passa nada, não é?
    Não é uma questão de argumento (talvez o seja em situações clínicas avançadas, mas eu estou a falar a um nível muito anterior a esse. Espero).
    Nessas três décadas só em duas ocasiões pensei que queria deixar de fumar. Avaliei mal. Numa vez passei três semanas lastimáveis e na outra acabei misericordiosamente com a palhaçada ao fim de quatro dias.
    Deixe a semente da vontade germinar em si livremente. Acumule pontos. Este combate raramente se ganha por KO, só os Grandes Campeões (eufemismo para Fingidos que Nunca Gostaram Verdadeiramente De Fumar), mas essa não é a minha história nem é a sua, desiluda-se. Um dia…
    Um dia descobre que tem vontade. Muita. Sente-se no ponto. Está revoltado com a tirana da nicotina. Farto da merda do fumo.
    Não faça nada!
    Acumule mais um pouco. Fume mais um maço. Nada de lamechiches, não se trata de uma despedida, só vale a pena despedirmo-nos do que gostamos. Ora, o leitor não gosta do fumo. Fuma por vício (quem por esta altura estiver a abanar a cabeça, céptico, esqueça: não está pronto para vestir o equipamento, não está sequer na primeira pré-eliminatória da Taça dos Campeões). Tem a ideia, vaga, que há uns anos valentes tirava prazer do fumo. Talvez depois do almoço. Agora só quer ver-se livre do vício. Fume mais um maço. Mais uma semana. Contenha-se — e aumente a sua revolta. Vai precisar dela — ou julga que isto basta ter força de vontade?!?
    A vontade é fundamental, mas a vontade não é suficiente.
    Esta sexta-feira conto-lhe o meu segundo passo. Por volta das 16:00.
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    Ah, quase esquecia. O Daniel não tem vontade de deixar de fumar. A bem da qualidade de vida dele e dos que lhe são próximos, espero que um dia tenha — sei que terá, melhor dizendo ;)

  1. 1 r s

    Q-U-a-R-E-N-T-A-????????????????????///

  2. 2 Paulo Querido

    Em média, sim. São dois maços. Nada de invulgar entre fumadores. Já os cinco maços em alturas de pico (i.e.: noitadas & excessos) são menos frequentes. Tristes números, é verdade. Mas a fonte de orgulho e de prazer não esses números: são o zero que lhes sucedeu.

  3. 3 JMF

    Também concordo que é essencial querer, para conseguir deixar de fumar. Por mim, ando a ver se quero…
    :P

  4. 4 CJT

    Bom… eu não sou um bom exemplo.
    Aqui há uns anos, em 2002, tive que ser operado. Gosto muito de dizer, por piada, que “tirei a tiróide” e, por tal, impunha-se que não fumasse pelo menos 15 dias antes da operação e até esta, mais um mês após ir à faca.
    Andei a pensar no assunto e não me conseguia resolver.
    Um feliz acaso surgiu: uma gripe daquelas que deitam um gajo abaixo dava-me vontade de tudo menos de fumar. Deixei o tabaco nessa altura.

    No entanto, há uma coisa que devo confessar e que acho de extrema importância: DEIXEI DE FUMAR MAS NUNCA DEIXEI DE SER FUMADOR. Não havia santo dia em que, após o café da manhã, não desejasse um cigarro. Psicológico? Concerteza. Mas não só.
    É que eu gosto do tabaco. Mesmo nesse tempo sem fumo, uma das coisas que me dava prazer era o do cheiro de charuto e cigarrilha [a minha perdição], especialmente juntos com um brandy [a minha outra perdição] e preferencialmente em amena cavaqueira.

    Então… após 2 anos sem fumar, a coisa aconteceu: uma cigarrilha de vez em quando, mais outra por aqui e por ali e, o que se passa, é que desde 2004 venho a tornar-me uma vez mais um dos melhores clientes da Real Feytoria…
    Estúpido? Claro! Mas, digamos, com prazer. E com vício também. O pior de todos: o do ritual. O do “fecho do dia”. O de não saber o que fazer às mãos quando não há nada para fazer.

    Enfim… como diz o PQ, e com MUITA RAZÃO, ando à procura do meu dia. Daquele em que hei-de dizer NÃO QUERO MAIS.
    A ver vamos.

    Agora vou fumar uma cigarrilhazita…

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