Halfbaked.com em Portugal: anatomia de uma notícia
publicado 15 Setembro 2007 em reflexões.Dois excertos da primeira notícia dada nos media portugueses sobre o halfbaked.com. É também a primeira menção na Imprensa portuguesa à BarCamp.
“A verdadeira prova do Halfbaked, realizado em Coimbra, é mostrar que boas ideias não precisam de meses de preparação”
“Somos dez pessoas escolhidas ao acaso, a maioria não se conhece, dão-nos uma lista com dez palavras e nos próximos 30 minutos iremos seleccionar duas, compor com elas o nome de uma «dot.com», engendrar um plano de negócio subordinado ao nome e apresentá-lo a uma audiência impiedosa“, em Meia hora para um plano de negócios, na Economia do Expresso de hoje.
Publicarei depois a versão integral da notícia, que teve de sofrer os necessários cortes de ajustamento ao espaço em papel.
Terei mais oportunidades de voltar ao assunto e ainda explicarei melhor a origem dos BarCamps, em si mesma uma reportagem apaixonante — e curial no momento em que descobrimos o livro de um Andrew Keen ofendido com o que chama de culto do amadorismo. BarCamps e livro são como que gémeos dipolares: nascidos da mesma origem genética no mesmo momento — e opostos.
Três notas:
1. A proposta inicial (e que foi aceite) era para um artigo de 3.000 caracteres sobre a BarCamp de Coimbra com dois textos laterais de uns 750 a 1.000 caracteres cada, com perguntas a Frederico Oliveira e com o halfbaked.com. O “real estate” do papel, porém, é uma actividade de complexa dinâmica que envolve outras notícias e outros jornalistas, todos a “competir” pelo espaço finito de um jornal, e o espaço reservado acabou por ser diminuído até 1.850 caracteres, optando eu e o editor por nesse caso concentrar a peça no halfbaked tendo em conta a cabeça, ou secção, da página (Gestão). Enviei um pouco mais, devo confessar, obrigando o Jorge Nascimento Rodrigues ao esforço de cortar.
Para quem lá esteve, como eu, ou quem esta por dentro, a peça é manifestamente curta e diz o óbvio; informação acrescentada, zero. Eu escrevo no Expresso para uma larga maioria de pessoas que não fazem parte da cibercultura, e para quem o halfbaked.com é uma novidade absoluta.
2. É mais difícil do que parece, a actividade de cavar nos jornais algum espaço para o que consideramos ser importante nas áreas que investigamos. Há 14 anos mudei de ramo no jornalismo, passando de “analista” no desporto para “divulgador” nas tecnologias de informação e conhecimento. Durante a última década o meu semana-a-semana tem sido composto essencialmente por este misto de alegria e frustração.
Alegria de cumprir o meu papel de informar.
Frustração por não o conseguir cumprir na íntegra. O facto de me poder escudar nas características da máquina refinadora que é a Imprensa — a forma que tantos camaradas meus encontram para superar o desgosto da amputação da peça redigida com esforço e voltar ao teclado no dia seguinte — nunca me serviu de lenitivo.
3. O acontecimento BarCamp é marcante, compreender a sua génese e a sua aceitação é meio caminho para entender o mundo produtivo dos próximos anos com a entrada no mercado de trabalho e a ascensão dentro das empresas de uma geração educada no contexto fervilhante da chamada web social. Gente habituada a laços soltos e fluidos (íntimos, sociais e profissionais). Gente formatada num contexto de pares que se movimentam horizontalmente e pouco disponível para contextos de relações verticais. Gente que faz sem precisar que alguém faça por eles.
Gente que — focando o tema — se auto-organiza com grande facilidade, sem esperar pela próxima convenção ou congresso para apresentar as suas ideias e projectos.
As un-conferences vieram para ficar e vamos ter, ainda, muitas notícias sobre o seu impacto nos aspectos da organização e gestão do trabalho.


Já li acerca das Un-conferences, o barcamp nem por isso. Mas sou muito desconfiado acerca destas coisas no mundo do trabalho real. Sinceramente, tudo isto me parece coisas feitas entre iniciados e pouco mais.
E depois, para a minha área predilecta que é a criação artística isto deixa-me um bocado indiferente tendo em conta o ambiente geral português.
Pah, isso da Barcamp é bom e ainda bem que existe mas… sabes da história do Steve Wozniak e dos seus camaradas “hackers”.
Era tudo muito giro mas quando se torna profissional aí as coisas mudam de figura, pois a espionagem é lixada.
Ao fim e ao cabo, depois de entrarem no mundo do trabalho NUNCA poderão existir essas Barcamps. Seria entregar o ouro ao inimigo…
Mas ainda bem que existem enquanto não chega a competição a sério!
Pá, não sei. Ao fim e ao cabo as BarCamps são organizadas por gente que trabalha. Ei, pssst, repara, o principal organizador é um empreendedor, fez a sua própria empresa e tudo!, vê lá pá, o descaramento, tem uma empresa, trabalha para todo o mundo, não é um daqueles gajos que se julgam importantes porque sabem ler e escrever em Inglês e compraram um livro do Seth Godin (na Amazon) e são modernos — e ainda faz BarCamps, tsc tsc, não vai nunca arranjar um emprego na zbrtelecom cá do burgo.
Pá, não sei… Metade dos gajos que deram conferências trabalham nas suas empresas. Olha, havia um gajo do Sapo, pá, vê lá tu. Foi lá entregar o ouro ao inimigo — só é pena que o inimigo não estava lá, ficou em casa a ler a /. enquanto acariciava o ecran do seu iPod e sacava na mula o último capítulo de “como masturbar o ego de um geek em cento e setenta e oito lições, espelho não incluído”.
Pá… deves ter razão, topas? Dah.
Mário, embora estejam ainda no limiar das pessoas ligadas à cibercultura, esta vai largando os seus círculos.
A BarCamp está para as conferências como os Wikis para o Lotus Notes. É uma forma aberta, económica e participada de promover um evento.
Não vejo porque não há-de ter aplicabilidade nas áreas em que te movimentas. Só se não houver vontade — lá está. Ou massa crítica.
A ideia parece interessantíssima mas, tendo em conta a mentalidade que estamos habituados, dúvido que vá muito longe. Quantos First Tuesday terão havido, por exemplo?
Mas é uma grande ideia, sim. E sabe mesmo bem estar a dar uma novidade dessas.
Uma pergunta, não directamente relacionada com o evento em si:
Porque é que considerou, na ‘adaptação’ para o português, a palavra ‘Barcamp’ no feminino? Não devia ser ‘o Barcamp’ já que se refere a um evento? Eu não fui ao evento, mas pessoas que conheço que foram referem-se a ele no masculino - penso que a organização inclusivé.
Noutro exemplo, também tenho visto muita gente referir-se à palavra ‘widget’ no feminino, quando é algo masculino no inglês.
Meramente curiosidade acerca da regra/raciocínio usado, já que é normal haver alguma disparidade no copywriting de termos de internet, ou outros novos termos de qualquer área, na adaptação para Português.
Caro João Antunes, considerei ambos os géneros. Umas vezes escrevi o, outras a, o que está errado. É o BarCamp, sem margem para dúvidas.
Já em relação ao widget… Também tenho visto o género feminino e eu próprio optei por “a” widget. Talvez por ser “a” coisa… No inglês não é masculino, é neutro (it).
Acho que o problema estará na massa crítica, mas é uma forma a ir acompanhando.
Carissimos,
sinceramente entristece-me o pensamento cá do burgo e deixo-vos apenas uma frase que é na verdade a chave a meu ver de tudo isto, barcamp included!
Ideias geram ideias
se é verdade que eu posso ir levar o “ouro” ao inimigo, garanto-vos que em cada apresentação que partilhei, recebi sempre mais do que dei, isto porque as conversas e apresentações que tanto faltam cá no burgo, servem essencialmente para consolidar ideias e claro dar-nos a capacidade de ver quando não estamos a ver.
Aos que não foram, deviam experimentar! Acho que para o próximo não falta muito..

A única regra que eu gostava de ver “implementada” nos barcamps cá do burgo é a regra de ouro de que todos apresentam, eu sinceramente tou é um bocado farto dos “ouvintes”!
Pedro,
ideias geram ideias, completamente de acordo.
A vice-versa é também verdadeira: o obscurantismo promove o obscurantismo. Essa lição, poucos aprendem (suspiro).