Scolari e as virtudes

Só mesmo a necessidade de dar nas vistas gesticulando a qualquer pretexto levou os homens da bola que vão à televisão àquelas atitudes apressadas de condenação a qualquer preço de Scolari e seu famoso murro que não existiu. (Tiro daqui Dias Ferreira, que foi cauteloso repetindo sempre o óbvio, que estavam a julgar imagens e ninguém sabia o que se tinha passado, só vendo o relatório do árbitro; ele disse e repetiu isto, valha a verdade).
O que eu vi na televisão, ad nauseum, e nas fotos, algumas delas muito boas, de ângulos realistas, foi uma vontade deliberada de dar um murro e este teria sido consumado se o jogador não tivesse recuado.
Ora, o relatório do árbitro vem fazer alguma luz sobre os acontecimentos, que até agora só víramos relatados por gente apressada e desejosa de se vingar do homem e da equipa, porque os resultados não aparecem ou por outra razão menos clara.
Segundo o árbitro, que não tem motivo algum para vir em defesa de Scolari, bem pelo contrário, o seleccionador português reagiu a uma provocação. O relatório aponta no sentido de Scolari ter atenuantes objectivas (nem estou a contar as atenuantes do carácter, registo histórico, etc) para o mau comportamento. É claro que Scolari não devia ter reagido a uma provocação de um jogador experiente que sabe o efeito que tem o empate a três minutos do fim e quis deliberadamente tentar a sua sorte. Faz parte do jogo, faz parte de todos os jogos, a virtude não está em fechar os olhos aos golpes nem na hipocrisia de substituir a realidade fluída pelas regras escritas. A virtude está em ser leal dentro do jogo em causa.
Parecer paradoxal que seja o árbitro — juiz do jogo e do que se passa dentro das quatro linhas, incluindo os murros e as tentativas — a dar a Scolari uma “pena” bem menor do que a assistência da casa. Mas não é.
Tenho lido por aí na blogosfera e nos jornais e na televisão uma teoria segundo a qual se a campanha portuguesa estivesse a correr melhor, não teria havido tentativa de murro.
Vamos colocar a questão ao contrário. Se por acaso Portugal estivesse a fazer uma boa campanha e Scolari no final de um jogo perdesse por um instante a decência e avançasse na direcção de um jogador que o provocou, teríamos o país futebolístico a condená-lo nas horas seguintes, armado num tribunal de virtudes?
Foi o exaspero por dois empates que fez um campeão do mundo e um dos treinadores mais experientes do planeta perder a cabeça e ter um ataque de fúria?
Ou é a frustração de não ver a selecção ganhar, para podermos sentir-nos triunfantes na vida, que nos faz erguer o dedinho acusador ao homem?
Como irá esta espécie de tribunal de morro reagir à decisão da UEFA, que se espera bem mais sensata e modesta que as acusações dos moralistas de bancada?
Também ouço e leio os mais insanos disparates acerca de os desportistas, com os futebolistas à cabeça, terem um “dever de exemplo”. Este “dever de exemplo” baseia-se em quê? Nos ordenados chorudos que ganham? Na dimensão mediática que as principais estrelas atingem? No facto de, como era o caso, envergarem um uniforme do Estado? O Estado não lhes paga para serem exemplos. Pelo menos, não desde Salazar. O Estado paga aos desportistas, na maioria dos casos miseravelmente, para representarem o país desportivamente. É claro que lhes exige uma atitude e alguns deveres em troca.
Nunca percebi muito bem. Um jogador de futebol é um jogador de futebol é um jogador de futebol. Joga à bola e faz vender camisolas e sonhos. Quem sonha ir a seguir cobrar porque sonhou virtudes onde não devia — eis algo insano.
Sem querer vitimizar os jogadores e as gentes do futebol, que têm os seus exércitos de defensores, devo recordar que a coberto deste nosso ímpeto de cobrança dos “deveres” deles para com “a sociedade” porque são “modelos”, assistimos na última década a uma série de castigos e punições tidas por exemplares.
Francamente, gostava que cada empresário do golpe, cada financeiro do engodo, cada político da mentira sofressem, como Sá Pinto, João Pinto, Paulinho Santos, Abel Xavier, castigos exemplares pelos seus imperdoáveis pecadilhos.
O castigo, quando nasce, não é para todos.

  1. 1 Rebeca Flor

    É uma pena a tendência para misturar implicâncias pessoais no juízo acerca dos factos reais. Ainda mais quando isso tem-se verificado em (quase) toda a imprensa portuguesa.

  2. 2 Paulo Querido

    Uma pena? Uma pena porquê?
    E, cara leitora, isto é um webzine pessoal cujo autor publica simplemente o que lhe vem à cabeça (juízos pessoais portanto, com ou sem implicâncias, de preferência com — cazso contrário não serão opiniões pessoais).
    Eu não sou essa tal de “imprensa portuguesa”.

  3. 3 Rebeca Flor

    Não, não me referia a si. :) Até porque a sua opinião me pareceu bastante racional.
    Refiro-me, sim, a todos os noticiários e jornais que têm feito, praticamente, uma campanha anti-Scolari. Achei o cúmulo os debates, as enquetes por sms, as notícias sem fim sobre o assunto. Uma brincadeira. Essa, sim, é a imprensa portuguesa que tem desiludido.
    Foi a primeira vez que visitei a sua webzine, e acredite que gostei muito. Num próxima vez, vou tentar ser mais clara nos meus comentários. :)

  4. 4 Bruno Pinto

    Já muito se falou do soco que Luíz Felipe Scolari aplicou no jogador sérvio Dragutinovic, no final do Portugal-Sérvia de quarta-feira. Como sempre acontece em casos semelhantes, mais a mais tratando-se de uma figura que objectivamente divide a sociedade portuguesa, as opiniões divergem. Uns pedem a demissão do seleccionador nacional. Outros não acham caso para tanto, mas já não disfarçam a sua antipatia pelo carácter polémico e conflituoso de Felipão. E há também os que o defendem com unhas e dentes, declarando até compreensão para com aquele acto intempestivo. No meio de todo este imbróglio, é visível que, na maioria dos considerandos, não há uma separação entre o murro e a visão de cada um acerca da realidade actual da Selecção Nacional. Os detractores de Scolari, servem-se do triste acontecimento para pedirem a cabeça do técnico. Os seus fiéis seguidores não perdem a oportunidade para dizer que o erro faz parte da condição humana, lembrando depois que Scolari é o treinador mais bem sucedido da história da selecção de todos nós.

    Eu separo as águas. A atitude que o ‘Sargentão’ tomou foi vergonhosa, inadmissível e patética. Um treinador a agredir um jogador adversário é surreal. Por outro lado, penso que, após o Europeu’2008, Scolari só tem um caminho que é a saída. Ressalvo, porém, que estas duas opiniões são completamente independentes uma da outra, ou seja, não é por Scolari ter agredido o defesa do Sevilha que defendo a sua saída no ano que vem. Nem é por achar que o tempo dele aqui está próximo do final que acho aquele soco mais ou menos vergonhoso para o futebol português, ou merecedor de uma pena maior ou menor.

    De facto, aquele gesto de pugilato foi miserável. É certo que Drago não foi dar os parabéns a Scolari no final, nem dizer ao Quaresma que é um fã incondicional das suas trivelas. É óbvio que a frustração provocada pelo empate sérvio conseguido à beira dos 90 minutos, mais ainda com um golo irregular, terá facilitado à paralisação momentânea do cérebro do brasileiro. Todos devemos admitir que se formos insultados na cara, numa situação de tensão, não teremos propriamente reacções meigas ou gestos de carinho em resposta. Só que Scolari tem um cargo de responsabilidade e se aufere 150 mil euros por mês, não é só para orientar a equipa nacional, mas também para servir de exemplo aos seus jogadores, aos adeptos, a todos os que acompanham o fenómeno desportivo. Não pode ter uma atitude daquelas! Merece um castigo condizente com o erro que cometeu, o mesmo é dizer uma suspensão temporária. De quanto tempo? A UEFA deve decidir estes casos através de critérios já definidos, digo eu. A FPF, essa, limitar-se-á a assobiar para o lado, uma vez que Gilberto Madaíl não tem pulso para colocar Scolari em sentido ou porque simplesmente não quer gerar ainda mais instabilidade que a que já existe. Daí que não seja de espantar a diferença de tratamento dado pela Federação em relação ao caso de Zequinha: primeiro porque um incidente com a equipa de arbitragem é sempre considerado mais grave que com um adversário, depois porque Zequinha é um ‘zé ninguém’ e é irrelevante para os objectivos federativos, o mesmo não se passando evidentemente com Scolari. Quer queiramos ou não, seja eticamente mais ou menos reprovável, a verdade é que as coisas se processam desta forma e os fortes têm sempre maior margem de erro que os fracos.

    A punição justa para o técnico brasileiro será portanto uma suspensão temporária e uma multa a condizer com o seu salário. Falar-se do seu despedimento imediato é despropositado. Apesar da gravidade do acto, não é razão para um castigo tão severo e, convenhamos, seria uma medida nefasta para a Selecção Nacional atravessar um período de transição técnica numa fase tão importante e decisiva como esta. E se o Presidente da FPF foi eleito para defender os interesses da futebol português, tem então o dever de lidar com esta situação com algum cuidado. Esta é a minha opinião e, como fervoroso adepto da selecção portuguesa, digamos que pertenço à facção dos moderados. E sobre o murro, apesar de tudo, fraquinho, estamos conversados.

    Outra discussão completamente diferente prende-se com a realidade actual futebolística desta selecção. Na minha opinião, pior não podia estar. Nunca gostei da personagem-Scolari e acho-o limitado a nível táctico e estratégico. Mas também lhe reconheço méritos na sua capacidade de liderança, motivação e aglutinação de massas em torno de uma meta comum. Achei descabidas, por exemplo, diversas opções que tomou (preterir Vítor Baía em 2004 e Quaresma em 2006 chegou a ser escandaloso), além do ridículo de ter sido necessário perder o jogo inaugural do Euro em Portugal, para perceber que Carvalho, Maniche ou Deco tinham que estar no onze inicial. No entanto, recordo as alegrias que me deu nas boas campanhas no Euro’2004 e Mundial’2006, em jogos verdadeiramente memoráveis com a Inglaterra, Holanda ou Espanha. Isto para dizer que a minha ‘relação’ com Scolari sempre foi algo ambígua e instável.

    Ora, a fase de qualificação para o Euro’2008 está a ser um desastre e Luíz Felipe Scolari é obviamente o primeiro responsável, da mesma forma que foi o principal exaltado nas excelentes campanhas passadas. Tendo um conjunto de jogadores absolutamente notável ao dispôr e comandando claramente a equipa mais forte do seu grupo, Felipão tinha a obrigação de ter já o apuramento assegurado, poupando-nos ao uso da máquina de calcular. Tem denotado uma gritante falta de ambição e espírito de conquista (as contas a pensar nas vitórias em casa e nos empates fora nunca me agradaram), não tem conseguido dos jogadores uma total concentração competitiva e atitude profissional, demonstra insuficiências confrangedoras a ler o jogo e a agir durante o mesmo no sentido de melhorar o desempenho colectivo, teima em deixar no banco jogadores melhores que os seus concorrentes, entre outras lacunas. O jogo com a Sérvia foi disto um bom exemplo. A passividade com que Scolari olhou para o adormecimento dos jogadores no relvado foi a razão fundamental para aquele empate e, depois da atitude pouco ambiciosa com o resultado em 1 - 0, é descabido utilizar a desculpa da arbitragem. Depois, podemos sempre lembrar a derrota e o empate com a Polónia, o empate estúpido na Arménia, e até mesmo os empates na Finlândia e na Sérvia, onde se podia ter ganho com outro tipo de mentalidade.

    Na minha opinião, o tempo de Scolari ao comando da Selecção Nacional chegará ao fim com a realização do Euro’2008. Não haverá mais condições para a sua continuidade, dado o desgaste de ambas as partes. Quando partir, não rejubilarei de alegria, nem sentirei qualquer nostalgia. Contribuiu para o engrandecimento do futebol luso, mas não sentirei saudades.

    Concluindo, estou com vontade de ver outro seleccionador no comando técnico nacional a partir do Euro’2008, mas a ‘esquerda’ aplicada a Dragutinovic nada tem a ver com isso. É uma questão meramente futebolística. Até porque ninguém me garante que o seu sucessor não possa fazer melhor.

  5. 5 ...

    o meu amigo escreve que se farta….

  6. 6 Cosaje

    Escreve e você também escreveu. É o futebol…
    Pessoalmente quero lá saber o que o Scolari fez ou vai fazer?
    Os políticos também não andam á pancada?
    Já repararam o dinheiro que o país ganhou com o dito “murro”. Jornais, TV’s, Blogs etc. etc….
    Continue a escrever que eu por acaso gosto de lêr alguns textos.

    Já agora por acaso continua maravilhado com o seu macbook?

  7. 7 Paulo Querido

    Caro Bruno Pinto, no essencial concordo com as suas posições. Também separo as coisas. O assunto foi tratado com muita leviandade e sobretudo irresponsabilidade, em especial de quem devia estar habituado a estas coisas (Imprensa desportiva e seus comentadores) mas também pela — uso o termo de propósito — populaça.

    Caro Cosaje, é verdade, já nem me lembro que mudei de computador, LOL! Isto deve dizer tudo, não é? Sim, estou agradado. Este computador vale o que custa. O sistema operativo e o sistema de janelas são maravilhosos, nunca usei nada tão bom.

  8. 8 rss

    oi, me faz o favor de recomendar a todos estes implicantes a jogar os tais “matraquilhos” sei lá se é esse o nome..
    Aí todos podem ser jogadores, tecnicos, arbitros e tecnicos .. :)))))))
    que tal? sei que vai adorarrrr .

  9. 9 rss

    os jogadores portugueses sabem fazer a jogada “foquinha”??

  10. 10 rss

    e onde está o comentario sobre os matraquilhos que todos devem jogar? pois aí vão ser tecnicos, jogadores, torcida, arbitro, etc etc

  11. 11 CJT

    Ora… mas certamente que sim.
    Que sim, que eu, se visse alguém a dirigir-se com má cara para mim ou para um conhecido meu cederia aos mais impulsos primários e lhe despacharia um murro nas ventas antes que ele mo despachasse a mim;
    Que sim, que não me perderia em justificações estúpidas, quero dizer, quem não se sente não é filho de boa gente;
    Que sim, que existe quem não tenha mais nada para fazer - porque não sabe - a não ser a tanatologia da notícia;
    Que sim, que tudo isto é uma grande treta que não interessa a ninguém;
    Que sim, que isto tudo anda a alimentar a blogosfera há muito tempo - aos jornais já estamos habituados;
    Que sim, e sobretudo, que foi uma lufada muito fresca no marasmo McCann.

    Enfim, acabo a graxa.

    Abraço,
    CJT

  12. 12 Paulo Querido

    CJT, ;) bom texto.

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