Tal & Qual o Luiz Carvalho descreve
publicado 29 Setembro 2007 em Imprensa, curtas.Um bom texto do Luiz Carvalho sobre o Tal & Qual, jornal que esta semana chegou ao fim. O Luiz trabalhou lá e faz a história breve do jornal.
Não tenho pena que o Tal & Qual tenha acabado. Teve o seu tempo — e que tempo! Naquela altura era um produto sem par e teve fases em que era do melhor jornalismo que se praticava por cá. Noutras, nem tanto. Ultimamente, nem por isso — mas os dias de hoje penalizam o jornalismo em profundidade e desprezam a reportagem com tomates. Simplesmente não paga. É a vida, azar, temos pena.
O segredo para o sucesso era simples: criatividade, dedicação, estrutura simples e pensar sempre no leitor.
Temo que esses tempos de entrega, de fervor pela reportagem, nunca mais voltem a ter essa militância. Vivíamos para o jornal e a nossa vida era excitante. Encontrávamos histórias em todo o lado.
Éramos respeitados, temidos e muito bem pagos. Era uma forma de estar na profissão que não se compadecia com fretes a fontes, amiguismos. Havia rigor na escrita e exigência nas fotografias. Posso dizer que era um jornalismo independente e sério. Nos três anos que lá estive o jornal nunca teve nenhum processo e foram bem escaldantes alguns dos temas publicados” (em Acabou o jornal que me fez repórter, negrito meu)
Eu não trabalhei no Tal & Qual. Uma vez, ao tempo de Rocha Vieira, ainda se pensou nisso, mas o interesse das duas partes não era convincente. Conheci no entanto alguns dos jornalistas que o fizeram, pelo que sei um pouco de como aquilo funcionava. Não era um espectáculo lá muito recomendável — no mesmo sentido em que não é visitar o balneário de uma equipa de futebol vencedora ou o camarim de uma superestrela, se é que me faço entender. Houve alturas em que gastavam mais (dinheiro e atenção) em advogados do que em jornalistas.


O Tal & Qual entrevistou-me este ano, a propósito do Joost. Comprei-o nessa altura e pareceu-me um jornal estranho. Não mau, mas estranho. Parecia que estava à procura de rumo, de target, de nicho, mas ainda não se tinha encontrado.
Os temas abordados e o formato surpreenderam-me. tratava-se mais de um jornal de reportagem do que de notícias.
Ora ai está o que mais falta faz na imprensa portuguesa: reportagens. Jornalistas a contar os factos, sem ser pelo que ouvem ao telefone, confortavelmente sentados nas redacções. De opinião, análises e acontecimentos contados pelas partes envolvidas está o jornalismo nacional a transbordar. É baratao, mas não dá milhões. E vai sair muito mais caro do que os patrões possam imaginar. Experimentem publicar boas reportagens, investiguem as histórias que vos chegam por confirmar e…não poupem mais do que o necessário. Pode ser que aconteça o milagre do aumento dos leitores. Assim, a reportar o que nunca se viu, vai ser difícil…Tenham esperança, muita esperança…
Abraço
É bem verdade, António. Há um caminho da viabilização do comércio de notícias que é o caminho da excelência da qualidade. Aliás, isso começa a ser falado entre os pensadores desta coisa. O caminho tem sido feito para baixo, nivelando os media pelo “conteúdo gerado pelo utilizador”, sem grandes resultados. Ao invés, os poucos que têm ido para cima (topa The Economist por exemplo) estão a adaptar-se mais depressa ao novo paradigma.