No rescaldo do SOPCOM, a que não fui (é muito longe), o Luís Santos perspectiva três das dicotomias com que o jornalismo actual se interroga (‘Casual games‘ - oportunidade para o jornalismo). Aproveitando para o saudar pelo feliz acontecimento pessoal por estes dias, recapitulo as questões aqui — com breves respostas reflexas. Matéria para reflectir fora do mando do tempo e por isso mesmo aqui arquivo a nota.

  1. reafirmação do profissional ou abertura ao amador?
  2. recentrar a actividade em torno de princípios, valores e modos de produção estabelecidos ou abri-la a construções discursivas mais próximas da coloquialialidade, mais arbitrárias na agregação de factos, mais experimentais em termos de partilha de inputs?
  3. apostar numa reforma de géneros tradicionais ou em estratégias informativas mais fluidas?

Respondendo:

  1. reafirmação do profissional, claramente. O amador tem os seus caminhos. Não estou certo que a integração do USG na produção de um jornal seja uma coisa boa. O objectivo essencial deve ser a participação e a discussão dos assuntos do jornal, sem que este abdique da orientação e do controlo de grau de exigência. No meu blogue mando eu, mas no Expresso manda o meu editor.
  2. Como diz o próprio Luís, aqui não é ou mas sim e. A actividade dispersou e precisa recentrar-se nos seus valores de fundação, modernizados precisamente pela via do experimentalismo de inputs — e de outputs também: há um mar de coisas interressantíssimas por produzir!
  3. Fluidificar as estratégias. Não é preciso reformar a entrevista ou a reportagem, que continuam a fazer todo o sentido tal e qual as conhecemos. Eu quero ler as perguntas e as respostas, e o diálogo que delas decorre, entre um jornalista traquejado e preparado e uma figura com algo para dizer, não quero nenhum sucedâneo disto. Eu quero uma reportagem com investigação e cruzamento das pistas, dispenso discursos de aviário embrulhados em fotografias. Agora, filmamos também a entrevista? Sure. Ou vice-versa, publicamos a versão texto. Fazemos teasers. Isolamos materiais que possam ser isolados sem descontextualizar e usamos noutra lógica. Sim. Mas eu ainda quero a entrevista como ela foi feita, não se esqueçam.
  1. 1 CJT

    Opinião leiga:

    O jornalismo não pode [não deve], pura e simplemente, ser amador.
    Embora compreenda as acções de certos jornalismos [como o do The Economist, por exemplo, a fezer o spin das matérias políticas em blogs escolhidos, antes da sua publicação], não há-de ser porque um fulano qualquer “até leva jeito”, este pode vir a ser jornalista. Pode comportar-se como tal. Não o pode ser.
    A actividade jornalística, como a entendo, deve continuar reservada aos profissionais. Não faz sentido uma carreira sem um estágio, sem a aprendizagem dos cânones pelos quais a actividade se rege - sem querer entrar na polémica acerca da necessidade ou não de um curso superior, que não acho estritamente necessário. Falo de ética, a deontologia, a forma, o processo, o método e, em última análise, a responsabilidade de uma edição que supervisione a publicação.

    Creio, no entanto, estarmos prestes a conhecer ainda uma outra e nova forma de jornalismo. Uma forma que não contempla apenas o fornecimento de conteúdos ou notícias, mas sim uma forma mais interactiva e, porque não, opinativa mesmo da parte do próprio jornalista. Não sei onde concordo, nem se concordo, mas é o que vejo. Fazedores de opinião, tanto do lado do jornal, como do lado da sua leitura.

    É por isso que estou um pouco céptico em relação à fluidificação em detrimento da reforma dos géneros tradicionais. É um pouco como ser contra a globalização, em vez de apostar numa globalização alternativa, num contexto em que sabemos que esta não vai ser parada.
    É que, a meu ver, a fluidificação é inevitável por si mesma. Basta “isto” onde escrevo. E talvez seja esta mesma fluidificação, como a entendo, que venha a ser a justificação última para a tal reforma.

    Como disse, é opinião leiga [e é por isso que não deu em post…], deixo-vo-la à vossa [jornalistas profissionais e amadores] consideração, com uma firme convicção:
    Pela parte que me toca, nunca hei-de considerar jornalismo a arte de mandar umas notícias para a praça. Há mais a fazer que isso.

    Abraço,
    CJT

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