Três questões do jornalismo actual (com respostas rápidas)
publicado 28 Setembro 2007 em Jornalismo online.No rescaldo do SOPCOM, a que não fui (é muito longe), o Luís Santos perspectiva três das dicotomias com que o jornalismo actual se interroga (‘Casual games‘ - oportunidade para o jornalismo). Aproveitando para o saudar pelo feliz acontecimento pessoal por estes dias, recapitulo as questões aqui — com breves respostas reflexas. Matéria para reflectir fora do mando do tempo e por isso mesmo aqui arquivo a nota.
- reafirmação do profissional ou abertura ao amador?
- recentrar a actividade em torno de princípios, valores e modos de produção estabelecidos ou abri-la a construções discursivas mais próximas da coloquialialidade, mais arbitrárias na agregação de factos, mais experimentais em termos de partilha de inputs?
- apostar numa reforma de géneros tradicionais ou em estratégias informativas mais fluidas?
Respondendo:
- reafirmação do profissional, claramente. O amador tem os seus caminhos. Não estou certo que a integração do USG na produção de um jornal seja uma coisa boa. O objectivo essencial deve ser a participação e a discussão dos assuntos do jornal, sem que este abdique da orientação e do controlo de grau de exigência. No meu blogue mando eu, mas no Expresso manda o meu editor.
- Como diz o próprio Luís, aqui não é ou mas sim e. A actividade dispersou e precisa recentrar-se nos seus valores de fundação, modernizados precisamente pela via do experimentalismo de inputs — e de outputs também: há um mar de coisas interressantíssimas por produzir!
- Fluidificar as estratégias. Não é preciso reformar a entrevista ou a reportagem, que continuam a fazer todo o sentido tal e qual as conhecemos. Eu quero ler as perguntas e as respostas, e o diálogo que delas decorre, entre um jornalista traquejado e preparado e uma figura com algo para dizer, não quero nenhum sucedâneo disto. Eu quero uma reportagem com investigação e cruzamento das pistas, dispenso discursos de aviário embrulhados em fotografias. Agora, filmamos também a entrevista? Sure. Ou vice-versa, publicamos a versão texto. Fazemos teasers. Isolamos materiais que possam ser isolados sem descontextualizar e usamos noutra lógica. Sim. Mas eu ainda quero a entrevista como ela foi feita, não se esqueçam.


Opinião leiga:
O jornalismo não pode [não deve], pura e simplemente, ser amador.
Embora compreenda as acções de certos jornalismos [como o do The Economist, por exemplo, a fezer o spin das matérias políticas em blogs escolhidos, antes da sua publicação], não há-de ser porque um fulano qualquer “até leva jeito”, este pode vir a ser jornalista. Pode comportar-se como tal. Não o pode ser.
A actividade jornalística, como a entendo, deve continuar reservada aos profissionais. Não faz sentido uma carreira sem um estágio, sem a aprendizagem dos cânones pelos quais a actividade se rege - sem querer entrar na polémica acerca da necessidade ou não de um curso superior, que não acho estritamente necessário. Falo de ética, a deontologia, a forma, o processo, o método e, em última análise, a responsabilidade de uma edição que supervisione a publicação.
Creio, no entanto, estarmos prestes a conhecer ainda uma outra e nova forma de jornalismo. Uma forma que não contempla apenas o fornecimento de conteúdos ou notícias, mas sim uma forma mais interactiva e, porque não, opinativa mesmo da parte do próprio jornalista. Não sei onde concordo, nem se concordo, mas é o que vejo. Fazedores de opinião, tanto do lado do jornal, como do lado da sua leitura.
É por isso que estou um pouco céptico em relação à fluidificação em detrimento da reforma dos géneros tradicionais. É um pouco como ser contra a globalização, em vez de apostar numa globalização alternativa, num contexto em que sabemos que esta não vai ser parada.
É que, a meu ver, a fluidificação é inevitável por si mesma. Basta “isto” onde escrevo. E talvez seja esta mesma fluidificação, como a entendo, que venha a ser a justificação última para a tal reforma.
Como disse, é opinião leiga [e é por isso que não deu em post…], deixo-vo-la à vossa [jornalistas profissionais e amadores] consideração, com uma firme convicção:
Pela parte que me toca, nunca hei-de considerar jornalismo a arte de mandar umas notícias para a praça. Há mais a fazer que isso.
Abraço,
CJT