Blogosfera: uma análise pertinente

Feita por quem sabe do que fala: Carlos José Teixeira traça em A Sociedade nos Blogs um quadro sem dogmas nem preconceitos de classe social (o que é mais raro do que parece) acerca da cultura contemporânea reflectida a partir dos blogs.
Só continuo a achar que é cedo para tiradas como “a blogosfera é actualmente o meio preferencial de partilha e troca de conhecimento“. Mas na mesma frase diz o essencial das transformações: “mais importante ainda, o meio que dá a necessária voz a quem a não tinha até hoje“.
É muito Marx e tal, já sei, mas o marxismo continua a ser uma das mais válidas ferramentas de análise do real e da sucessão de factos. A pulverização da propriedade dos meios de comunicação de massas (MCM) vem destruir qualquer veleidade de os usar enquanto instrumentos de demagogia ou propaganda por parte das minorias que, ao longo do século XX, (ab)usaram do privilégio de acesso a esses mesmos meios em benefício dos seus negócios e interesses. Fossem políticos, fossem económicos — entrando aqui no campo da espectáculo e do entrenimento em que se transformaram os mais poderosos dos MCM na transição dos monopólios “de estado” para os oligopólios de mercado.
(A “democraticidade” do capitalismo é uma palhaçada; a cada fluxo de inovação que venha descentralizar um pouco a gordura da produção sucede-se um refluxo com origem na colossal força centrípeta do capital e a grande maioria da gordura espalhada volta às mãos do fechado grupo dominante; às gotas de água que ficam de fora em cada maré chamam os liberais de “grandes avanços” na distribuição de riqueza, que é outra palhaçada do circo montado para entreter as massas, extraindo delas “lucro” mesmo nos imprescindíveis períodos de folga.)
Lembro-me das conversas nocturnas e ambulantes que mantive José Magalhães há 10, 12 anos, sobre a “democracia directa” que as tecnologias de informação nos trariam. Tinham a mistura de entusiasmo e ingenuidade próprias do pioneirismo, é certo, e a democratização veio — inequivocamente — mas trouxe um bom quinhão de questões.
Não tenho ilusões sobre os torniquetes que subsistem, nem sobre os novos que as tecnologias trouxeram consigo — mas é inequívoco que os meios com grande potencial de intervenção social já não estão reservados às elites que se julgam detentoras da verdade (e vão morrer a afirmá-lo).
Ou como escreveu Carlos José Teixeira, “o que se passa, e que agonia os intelectuais conservadores e os dirigentes políticos, é que a informação e os seus veículos já não são exclusivos seus“.
É complicado — sobretudo na fase inicial em que tudo parece confundir-se na ausência de uma linguagem que evidencie as diferenças — e ajuda o mundo a ficar mais perigoso. Mas não conheço liberdade sem vertigem.

  1. 1 rds

    Muito bem escrito.

    Boa passagem de ano.

  2. 2 CJT

    Pois, caro Paulo, creio chegada a altura de mais conversas com a “mistura de ingenuidade e pioneirismo” que tinhas com o José Magalhães. Porque a blogosfera, sem uma boa dose de ideologia democrática- no verdadeiro e mais radical sentido do termo - deixa de fazer sentido. Pelo menos para mim, que sou ainda ingénuo e tento conservar-me assim, por via de algum idealismo “fora de moda”, sem dúvida devido ao amadorismo que represento.
    Sem isso, este meio é apenas uma mistura de intelectuais disfarçados ou outros disfarçados de intelectuais.
    Continuo a apostar na partilha de conhecimentos desinteressada e voluntariosa, na forma última de construção, senão da cultura, pelo menos da sua percepção. Porque talvez se torne importante, um destes dias - seja-nos permitido, ainda - confrontar o que foi dito com o que foi entendido e, sobretudo, com o que foi sentido.

    Abraço,
    CJT

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