Tiago Barbosa Ribeiro está convencido que Carlos Santos Ferreira e Armando Vara foram escolhidos pelo mercado“, diz (*) João Miranda, que por sua vez se manifesta convencido da impossibilidade do mercado escolher (um facto absolutamente extraordinário, quiçá irrepetível): “mas isso só seria possível se existisse liberdade no sector bancário português. A verdade” — sustenhamos a respiração — “é que as escolhas dos accionistas foram condicionadas ao que o Estado lhes impôs.

É da prosa menos cuidada que tenho lido a João Miranda. “Condicionadas” ao que foi “imposto”, é um bocado arrevesado. Mas não me detenho nesses pormenores, que são facilmente levados para o lado dos “ataques”, e vou quedar-me pela argumentação. A verdade segundo João Miranda está fundamentada em quatro pontos que vou reproduzir e comentar.

1. Para se fazer negócios em grande escala em Portugal é necessário ter a benção do Estado. Grande parte dos accionistas do BCP têm outros negócios e estão condicionados por essa via.
João Miranda deve estar a referir-se aos pequenos accionistas, ou detentores de participações não qualificadas, para usar a terminologia própria. Só isso explica a frase, pois não estou em crer que João Miranda se tenha socorrido da expressão “é necessário ter a benção do Estado” por dá cá aquela palha. A frase, aliás, é do extraordinário rigor a que JM nos habituou, separando delicadamente os negócios de “grande escala”, que são benzidos um a um, dos negócios de pequena escala, aprovados a olho com uma oração comum.
A grande parte dos accionistas com participações qualificadas (ler: os que contam em termos das escolhas para o board) não parece porém susceptível de condicionamento pelo Estado. Ao olharmos para a estrutura accionista do Millenium bcp, não por este Estado português em todo o caso.

  • Grupo Eureko, total 261.503.924 acções num total de 7,241% do capital do Millenium bcp (na realidade tem mais por via da participação da JP Morgan, tem 9,96%, os dados que aqui coloco são os constantes do website do Millenium bcp e estão desactualizados)
  • Grupo BPI, 264.464.668, 6,194%
  • Grupo Teixeira Duarte, 223.702.852, 6,194%
  • Fortis Bank, 149.647.535, 3.950%
  • Grupo José de Mello 110.630.802, 3,063%
  • Banco Sabadell, 142.647.535, 3.950%
  • Fundo Pensões BCP, 78.127.246, 2,163%
  • Grupo EDP, 106.124.052, 2,939%
  • Fundação José Berardo, 108.151.164, 2,995%
    (somar Metalgest com 107.328.339, 2,972%, em 30 de Junho o capitalista e investidor madeirense detinha 5,968% do capital do BCP)
  • Grupo Caixa Geral de Depósitos, 76.371.035, 2,115%
  • Privado Financeiras, SA (Share swap agreement e Banco Privado Português S.A, sobretudo), 90.307.525, 2,501%
  • Sogema SGPS SA, 72287.864, 2,002%
  • Sonagol, 72.226.593, 2,000%
  • O total das participações qualificadas: 1.863.842767 accções representantes de 51,61% do capital

Benção do Estado?
Eureko, JP Morgan, Sabadell, Grupo CGD, Fundo de Pensões BCP, BPP e Sogema nem sabem quem é o PM e têm horror aos negócios em grande escala (ou em qualquer escala, de resto): são instituições financeiras que compram e vendem dinheiro. “Liberdade no sector bancário português” é, para eles, um título qualquer num jornal qualquer, falem-lhes de coisas sérias.
Restam os grupos Teixeira Duarte e José de Mello, que são condicionados pelo Estado, cliente sem o qual não seriam capazes de existir. Tão condicionados são que mandam na economia do país e põem e dispõem ministros e secretários de Estado, não vá aparecer outro maluco a privatizar esta coisa toda.
E resta Joe Berardo. Erm… Não é, estou convicto, o caso de João Miranda, mas eu preciso de, no mínimo, LSD-25 para ver em Berardo um dependente das benzeduras estatais…

2. O BCP atingiu os limites do seu modelo de crescimento e de governação. A venda a um grupo estrangeiro seria provavelmente a melhor opção para os accionistas. Mas essa opção depende da autorização do Estado.
Não há a mínima evidência de que o Millenium tenha atingido qualquer espécie de limite — excepto o limte da paciência dos seus accionistas. Pressupor isso é aceitar um limite ao crescimento do capital — o que, estou certo, será a última coisa que Miranda pretende. A crise do BCP tem mais de um ano e nada tem a ver com limites de modelo, de crescimento ou de governação — embora esteja relacionada com a governação. Ou desgovernação, melhor será dizer.
Em qualquer dos casos, a venda de participações a um grupo estrangeiro (ou a qualquer comprador) não carece da autorização do Estado, excepto se as participações forem do Estado (que controla directas ou indirectamente menos capital do BCP que, por exemplo, Berardo — isto se fiz bem a contas).

3. Os accionistas do BCP tinham uma opção não política para a liderança do BCP. Essa opção foi vetada pelo ministro das finanças (socialista) e pelo presidente do Banco de Portugal (socialista). Há três características destes vetos que devem ser tidas em conta:
a) denotam excesso de zelo no presente ou incompetência no passado.
b) condenam dezenas de gestores sem julgamento.
c) eliminam todas as alternativas a Carlos Santos Ferreira e Armando Vara.

Eu olho para a JP Morgan e para Manuel Pinho, depois para Vitor Constâncio e para Joe Berardo — e fico tolhido sem saber o que dizer. Nunca esperei… Fico muito desiludido com Berardo, a JP Morgan, a Fortis, o BPI, a Sabadell, não sei… Tinham uma opção melhor para a liderança do BCP e o mercado não soube, foram primeiro ao beija-mão…
Acresce que Constâncio deu corda, corda, corda — a regulação interviu já para além do tempo regulamentar. O que significa que os accionistas do BCP só se podem queixar de si próprios neste jogo, nunca do árbitro, benevolente e de olhos fechados às piores caneladas durante todo o jogo.

4. Os accionistas não escolhem Carlos Santos Ferreira e Armando Vara pelas suas capacidades de gestão numa economia de mercado. Escolhem-nos (se os escolherem) pelas suas ligações políticas pelo simples facto que num mercado condicionado as ligações políticas são mais importantes que as qualidades de gestão.

A dúvida é legítima e é, sem sombra dela, um recomendável exercício de cidadania!
A verdade — não a de João Miranda, bem entendido, mas a minha e, suspeito, a de Tiago Barbosa Ribeiro & outros — é que os accionistas escolhem o que acham mais indicado para fazer render os seus investimentos, sem ligarem a mínima ao que dizem os compêndios, os retóricos, os teóricos e os anti-teóricos e mesmo eu, perdoe-se-lhes a desfaçatez. (Compreensível no actual quadro económico global: vivemos uma situação sem precedentes, pelo que os compêndios e os economistas, mesmo os melhores, são pouca ajuda, ou nenhuma, como recentemente recordou Mira Amaral.)
O factor humano (aqui referido como “política” por João Miranda) é um instrumento de gestão que, em certos casos — nomeadamente cenários de crise de valores e de crença nos dirigentes, como o cenário que vivem os accionistas do BCP — ganha um peso maior que noutras épocas em que é mais “fácil”, por assim dizer, movimentar o dinheiro de uma coluna para a outra sem ter de prestar atenção alguma a factores em geral desprezíveis, como sejam os clientes e a sociedade em que têm o péssimo hábito de se organizar.
Compreender isto e agir em conformidade será sempre uma lição de inteligência — embora eu creia, na minha humilde opinião, que não chegou a ser o caso. Foi mais comezinho (abaixo).

É por isso uma ilusão pensar que foi o mercado que escolheu Carlos Santos Ferreira e Armando Vara. A escolha destes senhores resulta da eliminação das restantes opções e das suas qualidades políticas.
Não é o mercado que vai votar: são os accionistas qualificados. Estes votam em função da realidade que rodeia o seu investimento, usando os conhecimentos empíricos para reforçar a melhor escolha. A melhor escolha era a de Carlos Santos Ferreira — e eu, que não sou o mercado nem um accionista qualificado (ou mesmo desqualificado), entendo facilmente porquê.
Não sendo do céu que caem os presidentes dos bancos, não os podendo alugar no pronto-a-presidir da esquina, não tendo “capacidade persuasiva” para importar cérebro de obra mais qualificado e sendo totalmente desaconselhado recorrer à prata da casa, por excelentíssima que seja a do Millenium bcp, é preciso olhar em redor.
Ir ao mercado. À concorrência.
Olhando em redor ninguém viu, ou se viu não se chibou nestes meses todos, melhor que o homem que deu extraordinários resultados à CGD, liderando uma equipa que reúne a nata disponível, de que é figura de proa o ex-director geral dos impostos (muito portuguesmente, olhámos para o que achámos “pior”, Vara, sem outro fundamento que não a desconfiança da sua filiação política, e não para o que é melhor, as provas de Macedo).
Penso que os accionistas qualificados (e também os desqualificados) estão por esta altura a suspirar de alívio. Mais Berardo, menos Ulrich, mais negociação por lugares, menos recompensas indirectas, Santos Ferreira é — do ponto de vista deles — a melhor escolha para proteger os respectivos investimentos, fazer regressar a paz e salvar a imagem do maior banco privado português. Essa é que é a verdade.


(* em OPA do PS ao BCP III)

  1. 1 Camarada Choco

    Divulgação

    [ cortado ]

    Caro Carlos Colasso: para divulgar neste espaço leia primeiro como anunciar e contacte-me para receber a tabela de preços. E já agora use um endereço que funcione, o seu está inactivo.

  2. 2 LSM

    A análise da situação do BCP sob o ponto de vista dos seus accionistas, do ‘Mercado’ é extraordinariamente redutora.
    O maior activo do BCP (ou de qq outro Banco) são os seus Clientes. A constitituição dos seus orgãos de gestão deve ter em conta os efeitos que essa mesma escolha produzirá no mercado - no mercado que interessa, o dos seus clientes.
    Sei que represento uma migalha, uma gota de água no oceano, mas não me posso calar face à traição aos princípios que nortearam a criação do BCP - a independência face ao Estado e a inovação.
    A integração de Armando Vara numa lista candidata ao Conselho de Administração, é uma traição ao princípio de independência, pelas ligações profundas que o Sr. em causa tem ao tentacular partido do governo.
    Anexo cópia de e-mail enviado por este muito pequeno cliente ao BCP a este propósito.

    Caros Sr.s,

    Tendo procurado outra forma de contacto institucional, por e-mail e não a tendo encontrado (azelhice minha, com certeza), recorro a este meio para apresentar o meu protesto, a que espero se junto o de vários outros clientes, contra a provável governamentalização do Vosso (Nosso) banco.

    Cliente fiel desde 1987, como forma de incentivar a iniciativa privada e escapar ao jugo do estado, aderi ao BCP como o 1º banco privado com um projecto credível, tendo participado também como pequeno accionista. Com orgulho vi crescer o projecto inovador a que me associara.

    Os princípios de independência, pelos quais o Banco sempre se pautou, poderão vir a ser postos em causa com a integração no Conselho de Administração de um destacado militante do actual partido no governo, com profundas ligações à cúpula desse mesmo partido. Caso se verifique este facto, cessarão imediatamente os laços que me unem ao Vosso (Nosso) banco, pelo que procurarei de imediato uma alternativa credível no mercado, para a qual transferirei as minhas relações comerciais com o BCP, ao ritmo em que tal seja viável.

    Procurarei que esta mensagem seja divulgada pelos mais apropriado, na esperança que o bom senso prevaleça, que o BCP e seus accionistas tenham em conta que a sua principal força são os seus clientes e que o sentimento de traição grassa entre muitos de nós.

    Acrescento que não tenho qualquer motivo para pôr em causa a competência e honorabilidade do Sr.Armando Vara, mas tão-somente o que a sua nomeação representaria.

    Atentamente,

    LSM

  3. 3 Compre um Cérebro

    Dentro do BCP houve diversas práticas, eventualmente ilegais.
    Quem detêm essa informação detêm uma bomba atómica. Ou larga tudo na praça e coloca em causa até o próprio banco e cria grande instabiidade na economia, ou mantem as coisas em circulos controlados. Os accionistas estão presos e condicionados a isto, ainda para mais sabendo que esta informação já é detida por algúém há muito tempo e aparentemente só agora parece querer utiliza-la de uma forma muito particular que mete umas Varas pelo meio.
    Os accionistas não querem obviamente ver a destruição e/ou desmembramento do banco e respectivo investimento. Simples. Ou é preciso fazer um desenho ? É que de contrário, meta este seu post na sua tag “Compre um cérebro”. Sem ofensas, que a Tag é sua.

  4. 4 LSM

    Agradecia mesmo o tal desenho, para ficar tudo mais claro é que “I’m a bear with a very little brain and long words bother me” (citando Winnie the Pooh).

    Seja como for, a solução não pode nunca passar pela promiscuidade entre o poder político e o BCP. O efeito desta seria o mesmo que uma bonba de neutrões (usando a sua terminologia): deixaria intacto o exterior, matando toda a vida por dentro das estruturas.

    Simples. Ou é preciso fazer um desenho ? É que de contrário, meta este seu post na sua tag “Compre um cérebro”. Sem ofensas, que a Tag é sua.

  5. 5 LSM

    Caro Paulo Querido,

    Admito que tenha havido um erro na forma como postei o meu último post (o formato do seu blog é um pouco distinto de outros que frequento mais assiduamente).
    A minha resposta não se destinava obviamente a si, mas a um outro post que entendi dirigido a mim, no qual aparece o referido “é preciso fazer um desenho” (refiro-me ao post de 31/12 às 10:11 que não é OBVIAMENTE meu). Só que, olhando melhor, provavelmente não era a mim que era dirigida essa “boca”, mas a si.

    Da mesma forma que eu fiz confusão, tb o caro Paulo fez, já que responde a mim com a referência “presos e condicionados” e outras referências qdo essa afirmação se reporta ao tal post que não é meu e ao qual tb eu reajo. Seguem-se no seu post vários outros comentários assaz agressivos, a mim dirigidos, que julgo que seriam apontados ao tal 3º não identificado.

    Peço desculpa pela minha contribuição para a confusão criada e retiro-me o mais graciosamente que posso, garantindo-lhe que não sou um leitor ressabiado - Já agora, liberal sim sou, não como filosofia económica, especialmente nas suas vertentes radicais, mas como filosofia geral de vida.

    A terminar, gostaria apenas de reforçar aquelas que foram as ideias construtivas (quero crer) do meu post original. Achei interessante a sua abordagem original à situação do BCP. Creio que pecou por não ter em conta o ponto de vista do Cliente. Foi o meu ponto de vista enquanto cliente que tentei transmitir-lhe.

    Cumprimentos

    LSM

  6. 6 Paulo Querido

    Caro LSM, houve efectivamente uma confusão — mas não foi sua, foi minha. Retirei o meu comentário mal percebi, minutos depois de o ter escrito, que me dirigira a dois leitores diferentes como se fossem o mesmo.
    As minhas desculpas.

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