Liberalismo económico: uma utopia
publicado 24 Dezembro 2007 em Um jantar em Nova Iorque.Há instantes invulgares.
Estava a verificar os resultados de um novo sistema de estatísticas que possa usar na TubarãoEsquilo e reparo que uma das pesquisas em que Certamente! aparece nos primeiros 10 resultados do Google é por liberalismo económico. No momento em que escrevo tenho a sétima posição com este texto: Para a crítica do liberalismo económico, onde a propósito das opas do ano passado evoquei um notável livro de Ralston Saul, The Collapse of Globalism: And the Reinvention of the World.
Mais invulgar que tantas pessoas entrarem no Certamente! por este texto é o facto de não o terem comentado: ali se faz uma observação ao mundo pós-capitalista proclamado pelos liberais, que na prática — como defende Saul e eu alinho — pretendem substituir os capitalistas pelos amanuenses.
Não levar em conta as molas motivadoras dos indivíduos que acumulam a riqueza produzida pela sociedade é desaconselhável. O capital não pretende viver sem regulação, bem pelo contrário! Tudo o que almeja é substituir a regulação exógena, política ou de mercado livre, pelas suas próprias regras. Da mesma forma que nos casamentos para conveniência das famílias ricas, é nesta luz que devemos “ler” os laços entre quem detem (ou se adivinha que vai deter a seguir) o poder político e quem tem fortuna: defendê-la do meio ambiente hostil e acautelar os interesses.
O liberalismo económico é uma utopia — como tal tem o meu carinho ![]()
Já não é o poder político que “controla” os excessos do poder económico-financeiro, mas sim o contrário. Esta sim, é uma perversão da democracia. Que não veremos debatida entre quem desistiu da luta de classes para se concentrar nas causas com público e quem nunca se sentiu à vontade no sistema que dava (algum) poder aos não-proprietários dos sistemas de produção (vulgo trabalhadores) e às classes médias.


«Já não é o poder político que “controla” os excessos do poder económico-financeiro, mas sim o contrário.»
Já é o contrário que acontece há muitos anos. Em regimes liberais e não liberais.
Compreendo mal essa atitude benevolente em relação ao Blasfémias. Também eu os julgava uns puristas. Mas são apenas estúpidos. A defesa acéfala do liberalismo económico não é uma convicção, é uma estupidez. É o lema: tirem todos os sinais de trânsito da cidade para que os carros circulem mais facilmente…
Caro Diogo, de acordo, já é o que acontece há alguns anos. Aliás, penso que é a evolução normal: ao período mais ou menos revolucionário com que as classes sem poder conseguem instaurar para, através do modelo democrático, fazerem valer alguns dos seus direitos segue-se um período em que os detentores do poder o recuperam, à medida que se habituam a jogar as novas regras.
É o que estamos a passar nesta altura do campeonato da história portuguesa, receio bem.
Quanto ao Blasfémias, não se trata de benevolência mas sim de eu por fim a uma injustiça. Algo meu. Não discuto as considerações de cada um acerca do blogue, nem quis sequer colocar as minhas em discussão: continuo a manter sérias divergências de olhar. A defesa do liberalismo económico (ali defendem-se outras coisas mas esse é o core business, de facto) tem muito de retórico e nisso o blogue é servido por dois dos Melhores Combatentes da retórica da blogosfera lusa. Essa parte por vezes é divertida de desmontar
É também um esforço digno de nota: o Blasfémias tem um percurso próprio e a direito. Aqui e ali equivoquei-me quanto a isso, that’s all.