A economia do Second Life e o uso leviano do termo “virtual”
publicado 18 Janeiro 2008 em Um jantar em Nova Iorque.Sempre achei que usávamos mal o termo “virtual” aplicado a tantas situações da Internet. Os jogos e, com eles, os novos ciberambientes (à falta de melhor) são virtuais no sentido etéreo e por oposição a analógicos, mas são reais porque têm impacto real na vida das pessoas. Ou nas vidas, se quisermos: na vida íntima, na experiência sensorial, na acumulação de conhecimento, na vida profissional, na vida psicológica.
E na vida económica.
Não apenas porque podemos gastar dinheiro bem analógico em produtos e serviços digitais dos quais desfrutamos tanto como dos seus pares físicos, como porque podemos ganhar se nos propusermos trabalhar (ou produzir, ou especular e acumular) nos ciberambientes.
Há que diferenciar o “jogo a feijões”, esse sim, bem virtual, em que a unidade monetária é ficcionada, dos jogos reais com unidades que compram coisas — mesmo que dentro de espaços limitados. (No mundo dos átomos passa-se o mesmo; o rublo só compra coisas dentro do espaço limitado da Rússia.)
Em última análise, a realidade é uma convenção em que (quase) todos assentamos para podermos viver em sociedade. Nestes termos, nada distingue a convenção da nossa realidade da convenção da realidade do ciberambiente Second Life. Embora as duas sejam distintas nas operações e nos resultados.
Deixando de lado a reflexão teórica, chamo a atenção para um artigo muito interessante do Second Life Herald sobre a “economia virtual” do Second Life, Op/Ed: Financial Myth Busting Edition.
Com a excepção do comum preconceito de desconfiança face a tudo o que “é Internet” e seja qual for o ângulo por que olhemos os Linden Dollars, estes não são mais nem menos virtuais que as acções de bolsa ou qualquer transacção que não use numerário (e o próprio numerário, lá estamos de novo nas convenções).
Respigo o que me parece mais interessante — a distinção entre as práticas de ganhar/gastar no mundo dos átomos e no Second Life:
“All of the real world protections, insurance, bankruptcy liquidation, government oversight, are lost if you invest your real world assets in Second Life. Linden Lab takes many steps to keep the Linden dollar seen as a digital right and not a currency, so they will not step into the shoes of a government to protect your investment. Additionally, it raises issues as to tax consequences for investments in SL with RW assets. It is better to leave your money outside unless you need it in-world for something that you personally are going to use, such as purchasing land or starting your own business, as opposed to investing in others” (Jessica Holyoke em Op/Ed: Financial Myth Busting Edition).


O Second Life vive quase exclusivamente da sua economia. Certo que há quem faça debates políticos virtuais e passe os dias a construir coisas, ou mesmo a “dançar” em discotecas.
Mas a verdade dos factos é que o SL acenta sobre dois pilares, sexo e dinheiro.
O que só vem demonstrar que o jogo espelha a realidade fielmente.
Desde que exista um câmbio entre o dinheiro de brincar e o bom e velho US dollar, o jogo irá sempre ser virado para a economia e em como transformar os bens virtuais em dinheiro real.
Joguei SL durante cerca de 1 ano (2004/2005) e fiz bom dinheiro (real) com o isso. A dada altura entrar no SL para mim representava trabalho, contactar clientes, resolver problemas.
E dei comigo a pensar se valeria a pena tudo aquilo, e pura e simplesmente saí.
E desde então tenho regressado ao SL pontualmente para ver o desenvolvimento do jogo, que é nulo ou próximo disso.
A Linden Labs, que é quem desenvolve o jogo, nunca teve grande interesse em inovar muito.
Para eles o SL representa uma fábrica de fazer dinheiro.
Eles controlam a economia virtual e podem vender dinheiro ficticio em troca de dinheiro real. É uma galinha dos ovos de ouro, e enquanto essa fórmula funcionar eles não tem motivos em fazer grande alterações, que os obrigariam a grandes investimentos.
Certamente alguém da comunidade portuguesa do SL irá vir em defesa dos projectos de colaboração, das amizades que fizeram online, etc.
Fico feliz por haver quem pense assim. Mas não é demonstrativa da maioria.
Pegando no que o comentador anterior disse, e baseado na minha própria experiência na Internet lusa, duvido que tenham nascido alguns projectos de colaboração reais. Almoços, encontros, amizades etecetera e tal isso não duvido um segundo, agora colaborações efectivas em projectos é coisa tão rara que só vendo (nunca frequentei o SL, a minha opinião é baseada na experiencia pessoal noutras plataformas).
A palavra “Virtual” em “Mundo Virtual” é usada como equivalente a “simulado por computador”, ou seja, quando se diz que o Second Life é um “Mundo Virtual”, não se está a dizer que tudo o que nele ocorre (como relações e interacções) é virtual, mas sim que tudo o que “lá” ocorre, ocorre “lá”, num “lugar virtual”, num “ambiente simulado por computador”. É o “mundo”, o “local” que é virtual, não o que lá ocorre…
Lá isso é verdade: o virtual é bem real. Mas entende-se o uso do termo, embora possa induzir nalguns casos em “erro”. No caso de Second Life, aplica-se, embora os seus frequentadores possam correr o risco de perder o mundo e o bom senso!
O que eu nunca percebi foi porque é que dizem que o SL é um “jogo”. É um mundo virtual, pronto. Aquilo é basicamente um chat room com adereços. Como o é o Habbo, por exemplo. Por ser um mundo virtual não quer dizer que seja um “jogo”… jogo e mundo virtual é o world of warcraft, lineage, city of heroes/villains, tabula rasa, etc - ou mais propriamente MMORPGs…