Blogues de nicho: problemas especificamente portugueses
publicado 9 Janeiro 2008 em web social.Os blogues de nichos em Portugal sofrem de problemas especificamente portugueses. Dois, a saber: inveja e pequenez.
A pequenez é um problema estrutural: como o país é pequeno o mercado é pequeno e se estamos a falar de nichos, então, torna-se nalguns casos liliputiano. Isto é um travão conhecido ao crescimento — mas felizmente na web é contrabalançado pelo curioso e bem vindo fenómeno da curva de Pareto (vulgo cauda longa).
Já a inveja — que é outra forma de pequenez, a pequenez intelectual — é mensurável na escassez de links que afecta em geral a nossa blogosfera e em particular, de forma gritante, os blogues bem sucedidos.
Vem isto a propósito de um blog da TubarãoEsquilo que este mês tem sistematicamente ultrapassado as 5.000 pageviews diárias — o que o colocaria no topo do Blogómetro, se lá estivesse, e nos primeiros lugares do seu nicho, ao lado dos melhores jornais e revistas do sector — isto se houvesse medições em Portugal em vez de clubes privados que distorcem as audiências.
E mais: não é o único nessas condições. Temos mais três líderes de nicho com audiências que fazem inveja a qualquer blogger (eu estaria incluído se Certamente! fosse o meu principal interesse na Internet). Felizmente um deles dirige-se a gente bastante jovem e bastante culta (nem parecem portugueses, catano) e sofre menos do segundo problema.


isto se houvesse medições em Portugal em vez de clubes privados que distorcem as audiências.
Já critiquei isso num blog qualquer, não sei onde. Audiências sobre blogs em português, quando as procurei, só encontrei resultados sobre blogs brasileiros e eram resultados do Ibope, portanto de um organismo especializado em audiências, algo que nunca vi a Marktest fazer por cá. Parece que por aqueles lados as coisas andam muito mais animadas. Inclusivamente, tenho verificado o interesse de diversos bloggers brasileiros em cobrir igualmente o mercado português.
Na minha versão anterior da Retorta já não tinha lista de blogs favoritos, mas tinha ligações RSS a alguns deles na primeira página. Pensei um bocado se devia colocar a lista ou não, mas acabei por me decidir a deixar os mini-feeds que correspondiam a blogs aos quais faria links frequentes. Criei também as “Recomendações” que são links puros e simples a entradas que acho merecedoras de atenção. Acho mais justo fazer links a conteúdos específicos do que a tudo que um blog produz. Mas embora tenha sempre conteúdo “fresco” no blog, as entradas pessoais com conteúdo próprio diminuiram fruto da minha ocupação de tempo escassa.
davam jeito os links para esses blogs
Daniel, os eucaliptos secam tudo em redor. É complicado refazer ecossistemas em solos áridos.
Mário, é dos links ditos orgânicos (em posts, a assuntos que o mereçam) que eu falo. Há escassez deles, é gritante nalguns nichos.
Eu já estiva para fazer como o Mário. Só não o fiz por dois motivos: por falta de tempo e porque em nada alteraria o estado das coisas.
Mas acho que o princípio devia ser esse: a fazer ligação, deveria ser ao artigo, pois este pode ser bem representativo do blog ou não.
Só que isso ainda dá mais trabalho…
Agora, os blogs de nicho. Existem muitos nessa situação, a de uma audiência liliputiana. E o mais grave, Paulo, não é isso, pois os seus proprietários já sabem o que esperar. O mais grave é a espécie de boicote de que falas.
É o facto de veres quem lá vai, de verificares que voltam e que lêem um determinado tipo de conteúdo, enfim, que são clientes… e não ligarem pêva, antes pelo contrário. Muitas das vezes, optam até por boicotar o próprio blog.
Enfim… olha que, palavra de honra, devo estar num dia Pacheco Pereira.
Achei engraçado o facto de ter referido a escassez de link.s e ter-se esquecido de colocar o link para o tal blog das 5000 pageviews
Os solos áridos são porreiros para ralis, o gozo está em descobrir os oásis, sem GPS e sem alucinações. Se os camelos não ajudam, vamos a pé, sem medo.
Quanto aos links a blogs. Deixei-me disso, é injusto, é aborrecido, é monótono, é uma lista que não trás benefícios a ninguém. Gosto mais de os destacar nos artigos que escrevo. Ficam todos a ganhar.
Gabriel e Bruno Martins, não fiz links propositadamente. Mas a pedido, ficam aqui os blogs em que estava a pensar quando escrevi o texto, com um aviso: não vou distinguir qual é qual, qual tem de 5.000 (hoje deve passar as 7.000…) pageviews diários e quanto têm os outros. Alguns têm contadores visíveis, mas atenção ao seguinte: o conceito de pageviews que aqui usei é bastante conservador, está até um pouco abaixo do que o Analytics mede (é… hum… pageviews “úteis” e não quero alongar agora o conceito), é provável que os Sitemeters e afins dêem números acima.
Ei-los:
http://remixtures.com
http://bibliotecariodebabel.com
http://economiafinancas.com
http://lowcostportugal.net
http://ideias-soltas.net
http://ludotech.eu
http://a-trompa.net
Daniel, OK!
ups, já agora, um recado para o Daniel: o seu mail está na fila para responder, se o resto do dia me correr bem, ainda hoje, mas é melhor esperar para amanhã. Recado dado, desculpem os demais leitores.
Ludotech foi a minha descoberta de hoje. Recomendável!
Paulo, recado recebido. Dizem que amanhã o tempo vai estar melhor, vamos a ver.
Daniel Marques, como é que podes criticar se pertences a um deles?
Estou (ele está) a falar de ente outras coisas também de agregadores. Ou achas que não são um clube privado?
Rui
o post é um bocado elíptico. a primeira razão já está resolvida (então quais os blogs?). e depois há a segunda - mas que é isso de “boicote”? ok, há a explicação da “pequenez” e da “inveja”. Mas isso é uma “explicação” não uma explicação. Não me vou armar no popper dos blogs mas como posso eu contestar essa explicação?
Seria mais interessante perceber os mecanismos, será possível?, perceber quem são os visitantes dos tais blogs de nicho. Sao eles “linkadores”. Está aí um blog lowcost que se percebo bem é de viagens aéreas - os visitantes são linkadores? ou são leitores/clientes? e por aí adiante
depois acho que estas explicações “psicologistas” “morais” naõ levam a muito - passei que tempos a dar reciprocidade aos elos constantes, mania minha, que dava um trabalhão. Um dia fechei o blog e apareceu um “maduro” em comentar a congratular-se com o fecho, que eu era um ordinário, ele tinha colocado um elo para o meu blog e eu nunca tinha retribuído, um porco que nem merecia ter blog qualquer coisa assim. O gajo, para além de maluco, estava absolutamente convicto da minha “inveja” “pequenez” e “indecência”. Na prática eu tinha falhado na minha mania “linkadora” por defeito de technorati. Lengalenga a relativizar o “psicologismo”
Finalmente, se os gajos têm tantos mais leitores do que eu, malandros, para que querem eles o meu elo, porque não po~em eles um elo para mim (e outros desvalidos) Não serão eles os gabirús?
Rui Cruz, eu não me referia a agregadores.
Hum… o jpt para não variar coloca o dedo em matéria pertinente. Vamos cá ver.
Primeiro, eu nem tinha de dizer quais eram os blogues. Porque o post não era sobre os blogues, mas sobre os problemas dos nichos. Tenho um bom conhecimento da matéria uma vez que giro vários. Acabei por os dar, já nos comentários, porque lateral embora, era uma informação pedida pelos meus leitores e também não era caso para não dar.
Não estou certo de perceber as aspas em explicação. Esta é uma explicação. Pode encontrar outras. Eu posso também encontrar outras — se aprofundar o assunto. Este texto, com (a olho) 1.100 caracteres, não tem densidade suficiente para com ele me arvorar em Grande Explicador. É simplesmente uma abordagem.
A questão dos visitantes: num caso (lowcost) está certo, é um blog com mais leitores/clientes da informação que visitas da casa. Não é matéria para grandes comentários, além de que o nicho em termos autorais é rarefeito (há poucas pessoas a escrever sobre o assunto). Mas não noutros casos. Dois deles são escrito por dois bloggers de relativa importância no contexto histórico da blogosfera e é curioso ver como um consegue links e o outro não — embora este seja referido (a medo) e as matérias que aborda sejam abordadas (admito que com menos perícia e sentido de oportunidade — e talento também) noutros blogues.
(É escusado pedir nomes, já cometi indelicadezas suficientes nesta página.)
jpt, está enganado na porta do moralista. Esse papel é com o auto-proclamado Rei Da Blogosfera, não comigo.
Conheço bem essa cena da “reciprocidade” de links. Comigo não chegou a ocorrer a desfaçatez, mas pessoas próximas passaram por esse mesmo episódio. Uma chegou a ser inquirida por alguém magoado: porque é que eu não estou na sua lista de blogues? O caso era tanto mais palerma quanto o magoado era regularmente “linkado” em posts…
Mas eu não me refiro aos links de cortesia nas blogrolls. A escassez de links passa-se no contexto dos posts. Os portugueses linkam bastante defeituosamente. O link não é um prémio: é um mecanismo de hipertexto. A escolha do texto-âncora (o que é ligado) é em geral má. (Faço notar que não é um assunto do campo da moral; é do campo do método). Mas isto são contas de outro rosário.
Paulo, olha, obrigado pelo link, mas não sinto-me bem em casa, sem receios dos medos nem das invejas se é que as há.
Tenho um blogue para meu prazer, vê lá, e o que vou escrevendo, bem e mal, melhor ou pior, é exactamente aquilo que sou e penso naquele momento.
Faz-me bem, é isso. Faz-me bem ler alguns blogues. Faz-me bem saber que tenho alguns leitores assíduos que muito prezo. E sim, como um blogue de causas, faz-me bem saber, com ou sem links, que alguma coisa do que escrevo é aproveitada por alguém, mesmo que não dê referência da proveniência.
A reciprocidade de que fala o JPT. Sim, foi muito importante no início esse espírito comunitário, mas hoje está em franca regressão o que se compreende - a blogosfera passou a ser também um negócio, i.e., a ser um,a fonte de rendimento, e aí, como não poderia deixar de ser, a concorrência chegou, como sempre onde está dinheiro em jogo, sem ética e com cada vez mais elitistas.
Problemas de pessoas e instituições que nunca perceberam que a concorrência não é para abater, mas para nos incentivar a ser cada vez melhores.
Abraço
1. Insisto: o texto (pequeno ou grande não conta aqui, falava da argúcia do argumento, a qual não se mede em caracteres - ainda que precisemos de caracteres para argumentar) refere que há blogs que não “ligados” pelos bloguistas apesar da sua qualidade e da sua audiência. E aponta causas para tal (a pequenez do país/mercado; a inveja [traço cultural e moral] constituinte dos “agentes” bloguistas. Ora para discutir (interpretar) essa explicação tenho (temos) que saber do que é que estamos a falar (quais os blogs), daí a centralidade de sabermos os seus nomes (E não é indelicadeza referir blogs muito lidos/visitados pela razão de o serem). Repare, p.ex., um blog hard porno pode ser muito visitado por outros bloguistas e não ligado. As razões para isso não serão difíceis de explicar (pudor, hipocrisia, as caras-metades se conservadoras, etc) - lembra-se do belo Bela à Noite (bi-gandula), que nem sequer era hard porno, e que tudo assobiava para o lado? Acho que me expliquei sobre essa centralidade de conhecermos o universo sobre o qual falamos …
2. Aspear a “explicação”. Bem, presumo que não haja uma Explicação. Mas há decerto explicação para as coisas, nem que seja o mero acaso. Agora atribuir o comportamento ligador a causas não controláveis surge-me como uma “explicação”, um discurso não criticável. Vejamos, eu acho que o mundo é de invejas, então o que acontece é devido às invejas (e a semântica dessa “pequenez” está, obviamente, ligado à “inveja” e ao desejo de controle estatutário das audiências) - isto parece o discurso sobre a feitiçaria. Como há feitiços o que acontece é devido aos feitiços. E não se sai daí.
Daí o termo “moralista” - não é uma invectiva ao bloguista, é referir que as explicação são “moralistas” pois apelam a causas oriundas das características morais dos bloguistas (as quais são presumidas).
3. eu também não estava no registo dos elos de cortesia, ou nos elos constantes (as listas de ligações). Referi-os como exemplo das múltiplas (e até meio malucas) leituras interpretativas sobre o acto de ligar blogs.
Enfim, eu não estava particularmente preocupado com as questões das entre-ligações. Foi mais o postulado de uma série de características éticas (e não tecnológicas, não era isso que se retirava do texto) À rapaziada.
Aliás sobre ligações acho que já por aqui comentei - vendo o meu blog de 3-4 anos atrás eu ligava muito mais do que hoje. Vem o cansaço, vem o facto de ler menos blogs, vem o facto de achar menos piada a muita tralha. E de achar que não vale a pena contra-argumentar as maluquices que li (e presumivelmente os que me leram dirõa o mesmo) - os malucos continuam a dizer as mesmas maluquices. E se comigo acredito que com muitos outros - a isso chamar-se-á “inveja”? “pequenez”? ou velhice? eu voto nesta última.
Carlos, completamente de acordo: problemas de pessoas e instituições que não percebem que a concorrência é um estímulo e não uma contrariedade.
jpt, o argumento do cansaço é aceite deste lado. Achar menos piada a muita tralha. O tempo também é um factor: eu, por exemplo, tenho menos tempo para blogar hoje. Enfim, são mais razões para a falta de links. É possível. Ficam adendadas.